José Serra instrui diplomatas a defender Governo Temer contra tese do “golpe”

Chanceler lança circular para que servidores rebatam acusação de Dilma de que processo foi irregular

Serra em uma coletiva de imprensa na Argentina, que o chanceler interino escolheu visitar primeiro.
Serra em uma coletiva de imprensa na Argentina, que o chanceler interino escolheu visitar primeiro.JUAN MABROMATA (AFP)
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O texto, de nove páginas, adota um tom duro e ao mesmo tempo didático, com orientações precisas para combater “ativamente” quaisquer críticas feitas por Governos, organismos internacionais e órgãos de imprensa à legitimidade do Governo interino. Foi recebido com inquietação por alguns diplomatas, especialmente porque foge aos ritos usuais da casa, assim como outras medidas atualmente em curso.

“Os equívocos porventura cometidos no tratamento de temas da realidade brasileira por autoridades locais na jurisdição do posto, geradores de percepções erradas sobre o corrente processo político no Brasil devem ser ativamente combatidos por vossa excelência”, diz a circular. Ela afirma, ainda, que as declarações devem ser “enfrentadas com rigor e proficiência” (veja alguns trechos abaixo). O documento saiu no mesmo dia em que a Folha de S. Paulo divulgou a gravação de Romero Jucá, agora ex-ministro do planejamento de Temer, no qual ele menciona uma articulação pelo impeachment da presidenta como estratégia para tentar conter a Operação Lava Jato. Em março, sob Dilma, o diplomata Milton Rondó Filho enviou comunicação alertando embaixadas para "o risco de golpe". O Itamaraty disse que Rondó manifestou-se em caráter pessoal e ele foi advertido.

Serra assumiu seu posto há uma semana, mas já deu passos que marcam claramente o estilo enfático de sua administração. No discurso de posse, o tucano – o primeiro chanceler não diplomata em duas décadas – prometeu retirar o MRE do curso ideológico que ele estaria seguindo desde a chegada do PT ao Executivo, com o Lula em 2003. Porém, adotou ele próprio um discurso crispado ao refutar as posições reticentes de órgãos como a Unasul e de países latino-americanos como a da Venezuela e exaltar afinidades com os Governos à direita da Argentina e do México. A primeira aproximação que ele fez na região foi de Buenos Aires, para onde viajou para encontrar sua homóloga argentina, Susana Malcorra, e o presidente Mauricio Macri.

Ex-chanceleres de como Celso Lafer e Sérgio Amaral, que falaram ao EL PAÍS, refutam fortemente essa leitura de partidarização às avessas da nova chancelaria. “Todo homem público da envergadura de Serra tem que levar em conta seu público interno, além do internacional”, disse Lafer. Já Amaral, que é apontado como novo embaixador do Brasil em Washington, afirma que “todo político tem um projeto político” e que, no caso de Serra, “isso não impede que seja um bom ministro”.

No entanto, há outros indícios de uma nova roupagem política na pasta sob Serra. Há incômodo em setores do Itamaraty porque é provável que os despachos do ministro em 2016 – ano eleitoral – aconteçam na capital paulista duas ou três vezes na semana, do Escritório de Representação do Ministério das Relações Exteriores de São Paulo (ERESP), e não sempre de Brasília. O ministério das Relações Exteriores, uma das burocracias mais organizadas e hierquizadas do Estado brasileiro, é cioso do cumprimento de seus procedimentos, mas tampouco está alheio à polarização política. Nos últimos anos, diplomatas de lado a lado tem se manifestado publicamente contra e a favor ao PT e ao processo de impeachment.

Outra promessa da posse do chanceler foi rever o suposto excesso de embaixadas na África. Quanto ao tema, seu gabinete teria pedido na última sexta-feira, apenas dois dias após a posse de Serra, a indicação de cinco postos a serem fechados no continente. Segundo fontes do EL PAÍS, houve resistência no Itamaraty, e o número teria baixado para dois, que serão provavelmente Libéria e Serra Leoa.

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