Obama visita um Vietnã comunista, mas que se aproxima dos EUA

Desconfiança de Hanói com China acelera aproximação gradual com Washington

Um vietnamita, com um cartaz de Obama em Hanoi.
Um vietnamita, com um cartaz de Obama em Hanoi.KHAM (REUTERS)

O Governo comunista vietnamita, teoricamente irmanado em termos ideológicos com o chinês, vê o seu vizinho do norte com profunda desconfiança. Embora a China seja seu principal parceiro comercial, disputa com ela a soberania das ilhas Spratly e Paracel, no mar do Sul da China. Em 2014, as relações sino-vietnamitas se tornaram tensas devido à presença de uma plataforma petroleira chinesa em águas reivindicadas pelos dois Governos. Desde então, as relações nunca se recuperaram, apesar da visita de Estado do presidente chinês, Xi Jinping, a Hanói, em outubro.

Em parte por causa dessa desconfiança contra seu vizinho gigante, Hanói vem estreitando os laços de segurança com outros países da região dos quais tradicionalmente manteve distância, do Japão à Austrália, passando por Cingapura e Filipinas.

Mas, sobretudo, vem se aproximando dos EUA. “A firmeza cada vez maior da China no mar do Sul chamou seriamente a atenção vietnamita e provavelmente impulsionou o Vietnã a avançar mais rapidamente com os EUA do que faria em outras circunstâncias”, afirmou recentemente Murray Hiebert, especialista em Sudeste Asiático do Centro de Estudos Estratégicos Internacionais (CSIS), em Washington, numa conversa informal com jornalistas.

Os Estados Unidos são hoje o principal destino das exportações vietnamitas, recebendo 17% do total. O Vietnã é um dos integrantes do TPP, o tratado de livre comércio do Pacífico, formado por 12 países e impulsionado pelos EUA. Nguyen foi, no ano passado, o primeiro secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã a visitar a Casa Branca. Há dois anos, Washington já suspendeu parcialmente o embargo de armas que ainda vigora desde a guerra que confrontou os dois países, até 1975. E Hanói espera que, durante a visita de Obama, seja anunciada a eliminação completa, apesar de a Casa Branca ter sinalizado que essa decisão não foi tomada.

Pesa sobre a Casa Branca o histórico do Governo vietnamita quanto a direitos humanos, que a ONG Human Rights Watch qualifica de “terrível”. Os ativistas enfrentam intimidações, violência física e prisão, a polícia usa torturas para obter confissões, e o sistema de Justiça penal carece de independência. Os camponeses não recebem uma compensação adequada pela expropriação de suas terras para projetos de construção, e os trabalhadores não têm direito de associação, segundo a HRW. Os Repórteres Sem Fronteiras situam o Vietnã no 175ª. colocação mundial quanto à liberdade de imprensa, de um total de 180 países.

O Partido Comunista mantém seu rigoroso controle sobre o país, o que ficou claro nas eleições legislativas deste fim de semana, em que 500 deputados foram eleitos. Apesar de não ser a primeira vez que candidatos independentes concorriam – já aconteceu em 2011 –, foi a primeira ocasião em que o regime incentivou publicamente essas candidaturas. Mas as esperanças de uma liberalização política se viram frustradas com o anúncio de que apenas 11 candidatos independentes haviam sido aceitos, e que dezenas de outros foram descartados. E mesmo esses 11, segundo a oposição, são figuras próximas do Partido Comunista, que continua à frente do país 40 anos após o conflito.

Apesar disso, desde janeiro, quando o mandato de Nguyen foi prorrogado por mais cinco anos, a cúpula partidária tem empreendido uma transformação que Christian Lewis, da consultoria de análise de risco Eurasia Group, qualificou em nota como “drástica”. Ampliou o Politburo (órgão executivo) de 16 para 19 integrantes, dos quais 12 são novos membros. Dos mais de 200 membros do Comitê Central, aproximadamente metade se aposentou por idade, e rostos novos vieram em seu lugar. O presidente, o primeiro-ministro e a presidenta do Legislativo foram substituídos. “O poder está relativamente equilibrado dentro da elite, sem que nenhum político tenha substancialmente mais poder que outro dentro do Comitê Central”, observa Lewis.

Regras

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: