crise política

Eduardo Cunha: “Não indiquei nomes a Temer, mas tenho legitimidade para fazer”

O deputado é alvo de um processo por quebra de decoro por supostamente ter ocultado contas bancárias secretas no exterior

Eduardo Cunha depõe no Conselho de Ética nesta quinta-feira
Eduardo Cunha depõe no Conselho de Ética nesta quinta-feiraADRIANO MACHADO (REUTERS)

Duas semanas após ser afastado do cargo de deputado federal e, consequentemente, da Presidência da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) retornou à Casa. Dessa vez não seguiu para o amplo gabinete que ocupava desde fevereiro de 2015, mas para um plenário onde quase três dezenas de parlamentares aguardavam para inquiri-lo no Conselho de Ética e Decoro Parlamentar. Em seis horas de depoimento, Cunha reafirmou que não possui contas no exterior e que se sente injustiçado. “É óbvio que me sinto injustiçado. É óbvio que esse processo é de natureza política”. Afirmou ainda que a decisão do Supremo Tribunal Federal tem um objetivo oculto, mas não o revelou. “Foi uma decisão construída para ter algum tipo de objetivo, que com o tempo saberá qual é”.

Em todo o tempo que esteve sob a mira de seus pares, Eduardo Cunha mostrou que as duas semanas de afastamento em nada interferiram no seu comportamento. Continuou usando da ironia em sua fala e atacava sempre que provocado. Disse, por exemplo, que tinha certeza que o candidato derrotado por ele na disputa da presidência da Casa em Júlio Delgado (PSB-MG) jamais ganharia uma eleição para a função. “Não quero a extinção dos meus adversários que não seja pela disputa eleitoral”, disparou o peemedebista. 

A confiança de Cunha tem lastros concretos. Ele conseguiu emplacar três aliados na gestão interina de Michel Temer (PMDB) na Presidência da República e indicou o novo líder do Governo na Câmara, André Moura (PSC-SE). Ainda assim, ele disse negou a influência afirmando que não sugeriu “nem um alfinete” para a gestão do peemedebista. “Não indiquei, nem indico ninguém. Mas se tivesse feito, teria legitimidade porque é o meu partido que está no poder”.

Nos próximos dias, Cunha deverá recorrer à Comissão de Constituição e Justiça (onde tem um aliado seu presidindo) e ao STF para tentar uma anulação da investigação feita pelo Conselho de Ética, que em até dez dias úteis deverá iniciar a votação do parecer. “[O Conselho] quer manter a evidência do holofote. Essa decisão do relator é absurda”, disse e concluiu: “Enquanto continuarem com esse teatro, obviamente, vou buscar a anulação do que for feito ao arrepio da lei”. A expectativa é que até o dia 22 de junho o caso Cunha chegue ao plenário da Câmara. Antes, terá de ser votado no Conselho de Ética, o que deve acontecer a partir do dia 30 de maio. O processo contra o deputado já é o mais longo da história.

A reclamação de Cunha é de que o relator do processo, o deputado Marcos Rogério (DEM-RO), abriu brechas para incluir informações que constam de outros processos que tramitam contra Cunha, como a de que dois empreiteiros teriam pago propinas para ele em nove contas no exterior. “Desafio comprovarem essas informações”, disse o peemedebista. “É muito conveniente para ele vir aqui e não responder o que é perguntado”, reclamou Chico Alencar (PSOL-RJ), um dos autores da representação que está no Conselho.

A denúncia que está sendo analisada pelo colegiado se baseia no fato de Cunha ter mentido sobre a existência de contas fora do país. Por essa razão, ele se negou a responder sobre outros assuntos, como seu envolvimento em supostos desvios da Petrobras. Cunha é réu no Supremo Tribunal Federal e por essa razão foi afastado do cargo. Responde ainda há outras quatro investigações na mesma corte.

Cunha se manteve confiante e disse que espera que o Supremo reverta a decisão unânime que afastou do cargo. Antes disso, afirmou que continuará a frequentar a Câmara a partir da próxima semana. “Fui suspenso do exercício do mandato, não estou proibido de vir a Câmara”. Sobre esse fato, o deputado Max Filho (PSDB-ES) havia feito uma provocação. “Acho que Eduardo Cunha vem aqui mais para espairecer porque ele se encontra em prisão domiciliar de fato, não de direito”.

Veja como foi a cobertura ao vivo da sessão no Conselho de Ética:

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