Chavismo impede o avanço da marcha da oposição

Ex-candidato presidencial Henrique Capriles é agredido com gás lacrimogêneo pela polícia

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As autoridades venezuelanas impediram o avanço da manifestação que os opositores do Governo chavista convocaram para esta quarta-feira. A marcha pretendia chegar à sede do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) para exigir que o órgão acelere os trâmites para a realização de um referendo revogatório contra o presidente Nicolás Maduro antes do final do ano. O deputado Julio Borges, chefe da bancada parlamentar oposicionista, informou que o ex-candidato presidencial Henrique Capriles tinha sido agredido em meio à repressão com gás lacrimogêneo. O ex-candidato presidencial foi transferido com urgência para receber os primeiros socorros.

Capriles, principal promotor do referendo, e o presidente da Assembleia Nacional, Henry Ramos Allup, tentaram caminhar pela rota traçada, mas um cordão da Guarda Nacional Bolivariana os impediu. Os dirigentes e alguns manifestantes decidiram contornar essa barreira indo por outras vias e caminharam pela margem do Rio Guaire, que corta a capital venezuelana de Oeste a Leste, até chegarem nas imediações da praça Venezuela.

Nesse ponto as corporações policiais voltaram a agrupar-se para impedir que o grupo cumprisse a meta de chegar ao quartel-general do CNE. Várias vias da cidade estão bloqueadas. Além disso, estão fechadas dez estações das cinco linhas do metrô de Caracas, a maioria delas próximas do ponto da concentração definido pela Mesa da Unidade Democrática (MUD), no bairro de Bello Monte, na capital.

Desta vez não deu certo para a oposição da Venezuela, como há quinze dias, a ameaça de marchar até a sede do CNE para acelerar a tramitação do referendo revogatório. Os técnicos do órgão continuam revisando pouco mais de 1,8 milhão de assinaturas consignadas pela MUD (partido que agrupa todos os adversários políticos do chavismo) e pensam empregar os 30 dias contínuos que dura o processo, segundo as normas.

Diante disso, os principais líderes da Mesa convocaram seus simpatizantes a marchar até as sedes do Poder Eleitoral em todo o país para pressionar os responsáveis. “Será uma manifestação pacífica. Queremos que sejam respeitados os tempos da consulta”, disse na véspera o secretário-executivo da MUD, Jesús Torrealba.

O chavismo, que considera o centro histórico da capital venezuelana, onde está a sede do CNE, um feudo privado, convocou em princípio seus seguidores para rejeitar a aprovação de uma lei que outorga a titularidade das casas e apartamentos entregues pelo Governo como parte da Grande Missão Moradia Venezuelana, um dos programas assistenciais mais bem-sucedidos criados pelo falecido Hugo Chávez. Na realidade, trata-se de uma desculpa para evitar que seus adversários penetrem em um lugar quase sagrado para eles.

A jornada se antecipava caótica e evoca as piores lembranças da violência política dos últimos 17 anos. Há na disposição dos oposicionistas a necessidade de buscar uma saída política rápida para a profunda crise do país, mas o chavismo, que, salvo o Parlamento, controla todas as instituições, tem pressionado para que sejam respeitados os decursos legais e, desse modo, adiar o maior tempo possível o referendo. Tudo indica que em uma eventual consulta seriam derrotados.

Para a oposição é vital que a eleição seja realizada este ano. A partir de janeiro de 2017, Maduro cumprirá quatro anos no poder e, no caso de derrota no referendo, seu vice-presidente completaria o período. Antes desse quarto aniversário, só no caso de a oposição ganhar o referendo com mais votos que os obtidos por Maduro em 2013, seriam convocadas novas eleições para a escolha do sucessor.

Essa possibilidade parece agora muito distante. Mal está começando um processo complexo e cheio de obstáculos. A oposição pensava que uma vez consignadas as assinaturas do CNE os técnicos levariam cinco dias consecutivos, que culminaram na segunda-feira, dia 9, para revisar as planilhas e convocar os signatários a ratificar que essa era sua vontade, para o que são outorgados outros cinco dias. No entanto, as autoridades querem esperar que se concluam os 30 dias estabelecidos nas normas para completar o processo de recolher 1% das firmas, para então verificar que tudo esteja em ordem. A oposição precisa de quase 197.000 assinaturas para seguir para a etapa seguinte: outro grande evento no qual 20% dos inscritos no Registro Eleitoral solicitarão a convocação da eleição que decidirá se Maduro deve permanecer no poder ou deixar o principal cargo venezuelano.