Jill Tarter | Cientista do projeto SETI

“Procuramos civilizações nas 20.000 estrelas mais próximas à Terra”

A descoberta de 1.284 planetas multiplica chances de achar vida inteligente nesta galáxia, diz astrônoma

A astrofísica Jill Tarter, fotografada ontem em Madri.
A astrofísica Jill Tarter, fotografada ontem em Madri.© Carlos Rosillo (EL PAÍS)

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Há dois dados, um muito recente e outro bem conhecido, que deveriam acelerar o pulso de qualquer um com uma inquietude intelectual mínima sobre o que há para além do diminuto subúrbio do universo que chamamos de Sistema Solar. A estas alturas, o primeiro sinal de televisão suficientemente potente emitido pela humanidade viajou mais do que qualquer nave espacial construída por humanos e deveria estar a cerca de 80 anos-luz. Em seu longo caminho, terá atravessado um bom número de Sistemas Solares onde, possivelmente, haja vida inteligente.

O segundo dado foi trazido por uma cientista da NASA no dia 10 de maio, depois de anunciada a descoberta de 1.284 novos planetas fora do nosso Sistema Solar. Provavelmente, disse Natalie Batalha, cientista do telescópio espacial Kepler, o planeta como a Terra mais próximo esteja a apenas 11 anos-luz. Os sinais de televisão viajam à velocidade da luz então, se há vida inteligente ali, é possível que tenham visto a explosão das bombas de Hiroshima e Nagasaki, a chegada do homem à Lua e até os primeiros episódios do seriado Cuéntame. A isso seria necessário somar as pioneiras emissões de rádio, o que aumentaria o alcance até estrelas a mais de 100 anos-luz. É questão de probabilidades e estatística que haja mentes na Via Láctea que saibam de nossa existência.

Os sinais eletromagnéticos perdem potência e mal são perceptíveis, uma vez que percorrem alguns poucos anos-luz, mas este relato ilustra o tipo de trabalho que Jill Tarter vem fazendo há mais de 30 anos. Esta física, engenheira e astrônoma é o rosto mais visível do Instituto para a Busca de Inteligência Extraterrestre (SETI, em inglês), nos EUA. Em 1997, Jodie Foster a imitou para interpretar a cientista que protagoniza Contato, um filme que fantasiava um contato cifrado com outra civilização. Tarter dirigiu o Instituto SETI e, agora que a NASA saiu do projeto, dedica-se a viajar pelo mundo buscando financiamento para continuar procurando sinais de rádio e ópticos que tenham uma compressão inconfundivelmente artificial, fabricada por outros seres vivos, provavelmente muito mais antigos e sábios do que nós. Visitando Madri para apresentar a terceira edição do Festival Starmus, que será realizado neste verão em Tenerife, Tarter explica nesta entrevista à Materia porque este é o melhor momento da história para demonstrar quão improvável é que estejamos sozinhos no universo.

Pergunta. Em que fase está o projeto SETI?

Resposta. Há muito pouco tempo aprendemos que há mais planetas do que estrelas na Via Láctea. É uma mudança enorme para alguém da minha geração. Quando estudava no colégio, apenas nove planetas eram conhecidos. Agora sabemos que cada estrela tem pelo menos um e que muitos deles estão na zona habitável [onde pode haver água líquida e vida]. Há algumas semanas, no Instituto SETI decidimos começar um novo projeto para analisar as 20.000 estrelas mais próximas da Terra em busca de sinais, pois poderíamos ouvi-las mesmo que fossem fracas. A maioria são estrelas M, com a décima parte do tamanho do Sol. Se há planetas habitáveis, devem estar muito perto do astro.

P. Parece que já são se procura um gêmeo da Terra para encontrar civilizações...

R. Sim. É uma grande mudança. Já não procuramos a Terra 2.0. Agora sabemos que há extremófilos que vivem em ambientes totalmente hostis para os humanos. Isso nos diz que possivelmente o universo seja mais habitável do que pensamos. Ainda é necessário um pouco de terra e oceano, sobretudo porque ao olhar para a nossa tecnologia vemos que tudo começou fazendo fogo e aprendendo a modelar metais. Mas quem sabe? Há quem sugira que em planetas totalmente cobertos por oceanos haveria animais similares a enguias que poderiam se unir para produzir um pulso eletromagnético coerente que poderíamos detectar.

Só os fundamentalistas têm problemas em aceitar que haja civilizações extraterrestres

P. A NASA acaba de descobrir mais 1.200 planetas. O que isso representa para a busca de civilizações extraterrestres?

R. Os exoplanetas e os extremófilos fizeram com que o cosmos pareça mais amistoso à vida. Agora estamos desejoso de investigar se realmente é. É um grande momento para pensar na vida além da Terra. Os próximos 50 anos serão extraordinários. Entre 2% e 25% das estrelas como o Sol têm planetas como a Terra na zona habitável. Durante milênios perguntamos aos padres e aos filósofos no que deveríamos acreditar sobre a vida além do nosso planeta. Agora, os cientistas e engenheiros têm as ferramentas necessárias para investigar realmente. É o auge da exploração científica.

P. Seu trabalho costuma se chocar com a religião?

Stephen Hawking é um homem brilhante, mas não sabe mais do que eu sobre este assunto

R. Passei toda a minha carreira tentando fazer com que as pessoas parassem de acreditar e começassem a explorar, pelo menos em meu campo de trabalho. As religiões organizadas, em todas as suas variantes, têm ideias diferentes, mas as mais antigas foram muito flexíveis durante milênios. Souberam assumir as mudanças nas cosmologias, ou não continuariam aqui. Então poderão assumir a existência de civilizações extraterrestres. São as religiões mais recentes e fundamentalistas as que têm problemas com a existência de vida inteligente fora de nosso planeta.

P. O que a sra. crê que aconteceria à Igreja Católica se outra civilização fosse descoberta?

R. Não haveria qualquer problema. Há jesuítas que escreveram estudos acadêmicos nos quais explicavam bem. Diziam: se o homem é feito à imagem e semelhança de Deus, o que há de mais divino nele é a mente humana. Se outras civilizações forem encontradas, estaremos diante de mais uma prova da obra de Deus. Pensar isso é suficiente para eles.

P. Qual é o protocolo a seguir se a vida extraterrestre for detectada?

R. Quando éramos um projeto da NASA havia um protocolo muito bem delimitado, quem notifica o Parlamento, o Executivo etc. Agora somos um projeto privado e nossos principais financiadores não nos impõem qualquer restrição. Então simplesmente faremos a melhor verificação de sinal que possamos e depois mandaremos um telegrama à União Astronômica internacional. É um alerta de correio eletrônico que chegará a todos os observatórios astronômicos do mundo, porque em parte podem encontrar coisas que nós não vimos. Então, além disso, municiamos de informação os astrônomos de todo o mundo para que, uma vez que a imprensa fique sabendo, possam contatá-los e conhecer os dados científicos precisos de um representante local, em vez de ter que inventar a história.

P. De todos os planetas já encontrados, quais são os mais interessantes para a busca de civilizações?

R. Os sistemas multiplanetários no catálogo do Kepler nos intrigam. Porque nos mostram que há muitas maneiras de criar sistemas planetários. As arquiteturas são estranhíssimas. E além disso agora pensamos que há planetas solitários, expulsos de seus sistemas solares como se fossem bolas de bilhar. Inclusive com os planetas do Kepler não nos limitamos a planetas na zona habitável.

P. O SETI é unidirecional porque não temos a tecnologia para responder a um sinal... É interessante e frustrante ao mesmo tempo.

R. Não. É só interessante. Se você detecta um sinal, mesmo que não possa entendê-lo, mostra que aí afora há uma tecnologia avançada. É preciso pensar em termos estatísticos. Nós somos uma civilização muito jovem, tivemos tecnologia adequada apenas durante cerca de 100 anos em uma galáxia que tem 10 bilhões de anos. Se conseguimos detectar outra tecnologia aí afora é porque, na média, as civilizações sobrevivem por um período de tempo longo. De outra forma, não poderiam ter estado próximos o suficiente no espaço e alienadas temporalmente na história da galáxia para conseguirem detectar uma à outra. No instante em que se detecta outra civilização sabe-se que a nossa pode sobreviver a todos os problemas tecnológicos que vivemos atualmente. Como estabilizamos nosso planeta, como reduzimos a mudança climática, como garantimos ter água e comida para toda a população, como evitamos que nos destruamos a nós mesmos... Eu não creio que seja frustrante. No colégio líamos textos dos gregos e dos romanos, líamos Shakespeare, e essa é uma comunicação unidirecional no tempo. Ainda assim, esses textos traziam muitíssima informação, você aprendia muito de suas vidas inclusive sem poder perguntar nada a eles.

P. Stephen Hawking diz que é melhor não contatá-los porque poderiam nos aniquilar...

R. Stephen Hawking é um homem brilhante, mas não sabe mais do que eu sobre esse assunto. Ninguém sabe nada da psicologia extraterrestre. Atualmente somos mais pacíficos do que nunca na história, como demonstrou Steven Pinker. As probabilidades de que alguém morresse por violência na Idade Média eram muito maiores do que agora. Suponha que Pinker tenha razão. A única civilização que poderíamos contatar seria muito antiga, então provavelmente teriam seguido o mesmo caminho e se afastado da agressão com o tempo. Então possivelmente não seja tão ruim a ideia de contatá-los, a menos que tudo não passe de uma questão de ego.

P. O que a sra. diria àqueles que pensam que este projeto é uma perda de tempo e dinheiro?

R. Esta é uma pergunta que os humanos nos temos feito muito antes do telescópio. Há algo sobre nós que queremos entender. Quem somos, de onde viemos, qual é nosso lugar e como nos comparamos a outros que podem existir? Seria absurdo se pedíssemos que uma fração significativa da riqueza mundial fosse gasta nesta pergunta, porque não podemos dizer que tenhamos a forma correta de respondê-la. Mas é uma pergunta importante e deve ter apoio, mesmo que seja com uma pequena quantidade. Precisamos de bilhões de dólares e várias décadas para encontrar o bóson de Higgs, mas havia uma narrativa: tudo o que temos de fazer é cruzar certo limite e então o encontraremos. Com a SETI a história é: pode ser que esteja aí ou não. Se investimos recursos de forma modesta, pode ser que tenhamos sucesso.

P. O que a sra. espera da nova edição de Starmus?

R. Haverá um merecido tributo a Stephen Hawking. Também serão entregues as três primeiras medalhas Hawking à comunicação científica, em ciência, arte e cinema. E o painel de palestrantes é impressionante.

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