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Pare de reclamar e vire o disco, paulistano. Agora é hora de ficar zen

Centenas de voluntários doaram seu tempo esta semana para promover a Virada Zen que quer resgatar a gentileza em São Paulo

Vamos falar a verdade. O Brasil anda triste. Exaustos de tantas notícias ruins que chegam desde o ano passado. Esse papo de recessão e política chega a dar estafa cerebral. Paralisa. E em São Paulo, então? Está pior. Afora o trânsito, o supermercado e a cerveja cara, a cidade mais agitada do país está chata e agressiva. Nem vale listar as razões. Mas paremos de reclamar por este parágrafo.

Virada Zen em São Paulo
Virada Zen.

Tem jeito de entrar numa vibe mais gentil e otimista, apesar de tanta coisa puxando a gente pra baixo? Pois um grupo de paulistanos que se uniu para criar a Virada Zen, que acontece esta semana em São Paulo, garante que sim. Centenas de profissionais ligados a atividades transcendentais decidiram doar seu tempo para oferecer mais de mil eventos gratuitamente com o propósito de deixar os paulistanos mais felizes, ainda que por algumas horas: palestras, vivências e cursos aos paulistanos dispostos a cultivar algumas horas de paz no meio do caos da metrópole. Ioga no Minhocão, região central da cidade, meditação no Beco do Batman, na Vila Madalena, dança no parque Ibirapuera, massagens e toda e qualquer atividade que ‘induza’ os paulistanos a se desconectar do turbilhão.

Nesta quinta, tem meditação aberta ao meio-dia, no vão do Masp, um espaço virou símbolo das manifestações sociais de todas as cores.

Virada Zen

A virada zen começou na última segunda-feira, dia 25, e vai até o próximo domingo, dia 1 de maio. Todas as atividades são gratuitas. Confira aqui a programação e sua página no Facebook.

Sri Prem Baba, mestre espiritual que participa da Virada neste sábado, avalia que o paulistano deixou-se esvaziar de sentimentos generosos, como a gentileza e a compaixão. “Esquecemos desses valores e por conta disso é que nós estamos nesse turbilhão de destrutividade. Cabe a nós encontrarmos um saída, o resgate da gentileza, da capacidade de criar união”, afirma.

A ideia da Virada Zen surgiu há três anos, quando a publicitária Mariana Amaral percebeu que São Paulo havia se tornado uma panela de pressão prestes a explodir. “Naquela época li uma pesquisa que apontava que sete entre dez paulistanos queriam sair da cidade”, lembra Mariana, que é também uma das criadoras da Virada Sustentável. “Mas se a gente não fizer a diferença aqui mesmo as coisas ficam cada vez pior”, diz ela.

Mariana se surpreendeu com a ajuda espontânea que recebeu quando começou a falar da sua proposta. Em pouco tempo, eram dezenas de pessoas organizando a Virada, que estreou este ano. “Íamos começar com 600 atividades, e de repente eram mais de 1000”, celebra. Tem até uma marca famosa que ajudou nos custos... e preferiu ficar no anonimato para entrar no espírito da coisa.

O EL PAÍS perguntou a alguns dos voluntários da Virada o que é necessário para que os paulistanos deixem o estado agressivo que se estabeleceu na cidade com a crise política e econômica. As respostas desarmam pela simplicidade que esquecemos em algum lugar.

Pare de reclamar e vire o disco, paulistano. Agora é hora de ficar zen
“O mundo lá fora não é nada mais do que um espelho do que sentimos dentro dos nossos próprios corações. Mudar o mundo é impossível, o que temos que fazer é cada um mudar a si próprio, trazer o compromisso da não-violência para os nossos corações. A partir daí, projetar para a nossa cidade - no inconsciente coletivo que nos envolver - esse compromisso com a paz, com a harmonia interior.” — Márcia de Luca é criadora da Filosofia de Bem-Viver, um programa de mudança de hábitos e crescimento individual.
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"Queremos todos a mesma coisa: políticos mais honestos, menos violência, mais momentos de lazer,crescimento econômico. Acontece que no meio de toda essa barulheira é difícil ter discernimento, conseguir ponderar, ser gentil. Quando tomamos um empurrão no meio de uma multidão assustadora, a reação mais imediata é empurrar de volta. É isso o que acontece em São Paulo. Estamos no meio dessa multidão que nos assusta e a nossa reação é sempre um empurrão. A crise política parece ter virado uma válvula de escape e todos se sentem muito à vontade para empurrar e bater.

Como saímos dessa? Temos que encontrar a paz que queremos para a cidade dentro de nós. Podemos não silenciar o trânsito, mas é possível silenciar e acalmar a nossa mente. Já está comprovado que meditação, Yoga e uma dúzia de outras práticas - ou até uma simples respiração consciente - podem nos ajudar a encontrar a calma mental necessária para termos mais empatia em nossas relações. Pode não ser a solução imediata para o fim dos problemas no país, mas certamente estaremos construindo uma sociedade mais frutífera e gentil". — Cristiana Dias Baptista é economista e jornalista e uma das idealizadoras do portal online Nowmastê.

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"O paulistano está muito desconectado de si mesmo e dos outros, e isso gera agressividade e ansiedade excessiva. As pessoas deveriam se conscientizar de que a crise trata-se de um profundo processo de transição global, de mudança de paradigma. Há uma grande mudança de modelo de vida ocorrendo e isso afeta todas as instituições sociais e a todos os cidadãos. O paulistano precisa compreender que o outro indivíduo é "um outro você". Não há esta separação, estamos todos no mesmo barco, na mesma cidade, e no final da vida teremos todos o mesmo destino comum.

Para que correr tanto, lutar tanto, brigar tanto? É preciso se reconectar mais amorosamente com as pessoas e com as coisas essenciais que fazem a vida valer a pena. Sobretudo, é preciso aprender a respirar profundamente e ficar em silêncio rotineiramente. Essas práticas trazem mais tolerância, calma, discernimento e o entendimento que o mundo não está contra você. Afinal, existe algo bom esperando por cada um fora da crise. Ela é um caminho para aperfeiçoamento". — Clarissa Medeiros é coach, palestrante e praticante de yoga ha 15 anos.

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"O momento é delicado, estamos sendo bombardeados por notícias negativas na imprensa e nas mídias sociais.

Temos que parar, respirar e buscar o nosso centro pois não é possível tomar uma boa decisão no meio do caos mental. Não podemos esquecer que somos todos um, não faz sentido ver pessoas que se amam brigando por motivos tão fúteis ou uma simples diferença de opinião. Estamos todos no mesmo barco e queremos as mesmas coisas. Não podemos deixar de acreditar e de ter foco na visão positiva. Que tal promover a mudança interior é assim vamos ter uma sociedade mais gentil e amorosa". — Mariana Amaral é idealizadora da Virada Zen

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