No dia da votação do impeachment de Dilma, brasileiros queriam que deputados saíssem junto

No último domingo, dia 17, menções nas redes sociais de prós e contra saída de Dilma Rousseff foram superadas pela crítica generalizada ao Congresso. Debate político ganhou da Copa

Manifestantes pelo impeachment assistem à votação.
Manifestantes pelo impeachment assistem à votação.N. A. / AFP

Desde a fatídica goleada de 7 a 1 que o Brasil levou da Alemanha, o país deixou para trás o rótulo do país do futebol. O que não se poderia imaginar é que, no lugar da bola, a política entraria no jogo. No último domingo, quando a Câmara dos Deputados aprovou o pedido de impeachment de Dilma por 367 a 137, a movimentação nas redes sociais com posts sobre o tema bateu um recorde no Brasil.

Estava em jogo o futuro do país e apesar das pesquisas mostrarem que havia uma maioria apoiando o impeachment da presidenta, nas redes sociais as manifestações contrárias à sua saída ganharam fôlego nas últimas semanas. Com esse cenário polarizado, esperava-se que as menções prós ou contra a saída de Dilma Rousseff prevalecessem. Porém, a aparição dos deputados e os seus discursos antes de votar no plenário chocou os brasileiros, que reagiram instantaneamente nas redes. A imagem ao lado mostra essa movimentação. Há cinco grupos: o lilás, o verde e amarelo, representando a indignação contra os parlamentares da Câmara, o azul, que é a rede da audiência a favor do impeachment, e o vermelho, dos usuários contra o impedimento. A imagem foi produzida por Fabio Malini, do Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura (Labic), da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES).

A partir dela, é possível ver que a polarização ficou em segundo plano e deu espaço para as críticas generalizadas à Câmara de maneira geral. O post com a marca impeachmentday que mais foi retuitado do dia, com mais de 7.000 publicações, não pedia a saída e nem a permanência de Dilma Rousseff na presidência. Mas listava, ironicamente, os argumentos dos deputados:

“As redes políticas, antes dominadas por uma polarização entre os favoráveis e os contrários ao impedimento da presidenta Dilma, foram rompidas por uma saraivada de críticas ao sistema político brasileiro no Twitter”, diz Fabio Malini. Foram centenas de memes, mensagens reprovando a classe política e piadas a partir dos discursos dos políticos.

Segundo o levantamento de Malini, foram registrados 3,5 milhões de tuítes que continham um dos termos: impeachment ou impeachmentday. “Nem na Copa do Mudo houve essa quantidade de usuários, em língua portuguesa, tuitando num mesmo dia”, observa.

Ao dedicar seu voto a Deus, à família, aos filhos ou às noras, os parlamentares conseguiram a união da sociedade em torno de um mesmo ponto: a crítica e a indignação com o atual Congresso. A pedido do EL PAÍS, a equipe do Monitor de Temas, ferramenta desenvolvida pela Diretoria de Análises de Políticas Públicas da Fundação Getúlio Vargas, fez um levantamento sobre a audiência e os assuntos mais abordados no Dia D de Dilma. Entre o meio dia de domingo e a mesma hora da segunda-feira, levantaram quase três milhões de menções relacionadas ao impeachment e na maioria deles, o nome do presidente da Câmara, Eduardo Cunha, se sobressaía. Em seguida, Dilma, Temer, golpe e impeachmentday apareceram entre as maiores quantidades de publicações.

De acordo com as interpretações dos técnicos da FGV, a nuvem de palavras aponta para um equilíbrio entre os que são a favor e os que são contra o impeachment nas redes. A rejeição a Eduardo Cunha, porém, foi uma constante. 

No plenário, povo, Estado, família, Deus e democracia foram as palavras mais citadas pelos políticos que votaram contra ou a favor do impeachment da presidenta. Esse levantamento é capaz de dar uma ideia dos argumentos usados pelos parlamentares para justificarem seus votos.

Ainda não é possível saber se os senadores farão as mesmas homenagens que os deputados na hora de proferir o voto, e se causarão a mesma vergonha alheia que seus colegas na Câmara. Mas eles devem passar por um escrutínio nas redes sociais da mesma maneira. A começar pelo presidente do Senado, Renan Calheiros, alvo de nove inquéritos no Supremo, fruto das investigações da Lava Jato.

A favor do impeachment, o senador Agripino Maia, por exemplo, teve quebrado o sigilo fiscal e bancário na última sexta, a pedido do Supremo. A Justiça investiga o envolvimento dele, que é presidente do Democratas, em um esquema de lavagem de dinheiro na construção do estádio das Dunas, em Natal, capital do seu Estado, para a Copa de 2014. O senador Zeze Perrella (PTB), que na semana passada fez um alerta no plenário pedindo agilidade do processo de impedimento da presidenta, até hoje não se explicou sobre o episódio da apreensão de um helicóptero de sua família que foi encontrado em 2013 com 450 quilos de cocaína a bordo.

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Já do lado dos políticos contra o impeachment, estão, por exemplo, os senadores Humberto Costa e Gleisi Hoffmann, ambos do PT, aparecem em delações de investigados na Operação Lava Jato como eventuais receptores de propina. Dificilmente a internet se esquecerá desses episódios quando eles estiverem na tribuna.

A única previsão, por ora, é de um placar. Assim como na Câmara, o pedido de impeachment de Dilma Rousseff passa agora por uma comissão no Senado para analisá-lo. Se aprovado, vai para votação no plenário, onde é necessário apenas maioria simples para que o impeachment passe. De acordo com o último levantamento feito pela Bites, uma consultoria de análises digitais, nesta sexta-feira, 49 senadores estavam a favor do impeachment, 21 contra e 11 indecisos. Por ora, o certo é que o julgamento popular nas redes vai fazer a festa novamente sobre a conduta de seus representantes.

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