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A disputa Sanders versus Clinton no Brooklyn, a bolha esquerdista dos EUA

Diversidade do bairro nova-iorquino reflete a divisão do eleitorado em todo o país

Simpatizantes democratas em um comício no Brooklyn.
Simpatizantes democratas em um comício no Brooklyn.Andrew Renneisen

Os nova-iorquinos discutem tudo, até quando estão de acordo. Isso explica situações como a que se vive na casa de Spike Lee, no Brooklyn. O diretor de cinema é um dos anfitriões da campanha de Bernie Sanders em Nova York. Ele produz até propagandas para Sanders. Sua mulher não tem tanta certeza e apoia Hillary Clinton. É apenas um detalhe que ajuda a entender por que o bairro nova-iorquino é o grande laboratório dos democratas nas eleições primárias dos Estados Unidos

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“Ali, no 2C, passei 18 anos da minha vida”, disse Sanders estendendo o braço em um ato às portas do edifício que abriga o apartamento em Midwood onde viveu na infância, muito perto da James Madison High School. “Era uma comunidade fantástica para crescer”, disse enquanto falava sobre a luta contra a mudança climática, a desigualdade, a saúde e atacava Wall Street. Mas as coisas mudaram muito no Brooklyn desde que ele saiu de lá, há cinco décadas.

Midwood é um pequeno bairro conservador judeu. Tudo é muito diferente em Greenpoint, que alguns anos atrás começou uma profunda mudança como a que transformou Williamsburg e Dumbo. A cidade de Nova York é a mais diversa do país e esse amálgama é replicado em todo o Brooklyn, onde os imigrantes caribenhos de Crown Heights e os hispânicos de Sunset Park confluem com os judeus ortodoxos de Borough Park e os jovens profissionais de Park Slope.

Clinton tem o apoio dos leais mais tradicionais ao partido, enquanto Sanders atrai simpatizantes jovens que clamam por uma mudança

Há um mês, Sandres abriu seu quartel-general a duas quadras do Canal de Gowanus, uma área repleta de lojas e garagens em um processo incipiente de gentrificação nesse microcosmo democrata, com novos cafés que abrem na rua ao lado de complexos decadentes. Não muito longe, a quatro quadras, há um reluzente supermercado da rede Whole Foods, conhecida por vender produtos orgânicos. É um verdadeiro ímã para atrair novos moradores.

Nick Rizzo, líder democrata do distrito local, é um dos poucos membros do aparato que apoia publicamente o senador. “Ele é o candidato mais autêntico que tivemos em muito tempo”, avalia. Ele explica que há uma nova geração de eleitores que reconhece que a saúde e o emprego “são um direito”. Por isso, acredita que Nova York, e especificamente o Brooklyn, pode fazer parte nessas presidenciais do que qualifica como uma “revolução política”.

O grande bocado

Há três milhões de democratas inscritos em Nova York, dos quais cerca de 945.000 vivem no Brooklyn. É um bocado suculento se considerarmos que existem 5,8 milhões de democratas declarados em todo o Estado. Por isso tampouco é coincidência que o local escolhido para o próximo debate dos dois candidatos democratas seja o Brooklyn Navy Yard, na noite de 14 de abril.

Hillary Clinton percebeu isso muito antes, e assim instalou –há um ano– seu escritório num arranha-céu em Brooklyn Heights. Praticamente todos os líderes do bairro –judeus, negros e hispânicos– apoiam a ex-primeira-dama dos EUA. Isso complica as coisas para Bernie Sanders. O apoio que tem dos jovens brancos que se autodenominam socialistas democráticos em princípio não seria suficiente para superar a vantagem da ex-secretária de Estado.

As últimas pesquisas de opinião dão a Clinton uma vantagem substancial, com 55% dos votos, contra 41% de Sanders. Ela precisa disso para impulsionar a campanha depois das dúvidas geradas pelas últimas sete vitórias do rival, que apesar de estar meio século fora da cidade conserva um sotaque muito típico do Brooklyn. Mas isso não é uma garantia nessas eleições e é quase mais importante a margem de vantagem que conseguir.

As mesmas linhas que definem as diferentes comunidades e bairros do Brooklyn poderiam servir para definir os estilos das duas campanhas. Ao escritório de campanha de Hillary se pode chegar depois de uma boa caminhada a partir do quartel-general de Sanders. A localização é logisticamente ideal, com uma dúzia de linhas de metrô e ônibus nas proximidades. É, além disso, um dos destinos para os nova-iorquinos com dinheiro, principalmente funcionários dos bancos de Wall Street e advogados.

Tradicionais contra idealistas

Clinton tem o apoio dos leais mais tradicionais ao partido, enquanto Sanders atrai simpatizantes jovens que clamam por uma mudança que não viram chegar com Obama. Essas diferenças poderiam ser, em grande escala, o reflexo da divisão à qual enfrenta o eleitorado democrata em todos os EUA quando a corrida à nomeação entra na reta final antes da convenção na Filadélfia, em julho.

“Temos de ganhar de modo indiscutível para conseguir a nomeação o quanto antes e poder unificar o partido”, insiste a candidata democrata sempre que a oportunidade se apresenta. Sanders tem dificuldade para se conectar com os hispânicos, as mulheres e os empreendedores mais estabelecidos. Mas é apoiado em todo o bairro por jovens idealistas que estão dando uma nova energia ao Partido Democrata.

O Brooklyn mostra onde está o ponto mais fraco da sólida Clinton: sua candidatura não representa nada novo, e isso diminui sua atratividade. Sanders está fazendo há uma semana uma verdadeira batida em todo o bairro, sabendo que se vencer em Nova York será o primeiro grande Estado que conquista e isso lhe permitirá dar um impulso crucial em sua campanha, a 20 primárias do final.

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