Panama Papers

Oposição argentina lança ofensiva contra Macri por conta nas Bahamas

Kirchneristas se mobilizam e aliados pedem explicações sobre seu envolvimento nos Panama Papers

O presidente da Argentina, Mauricio Macri
O presidente da Argentina, Mauricio Macri (EFE)

O envolvimento de Mauricio Macri no escândalo batizado de Panama Papers, onde aparece como diretor de uma empresa com sede nas Bahamas, rapidamente virou artilharia para a oposição na Argentina. A imagem de Macri como membro de uma das famílias mais ricas e poderosas do país já lhe causou problemas no passado, a tal ponto que muitos viam esse assunto como um teto que o impediria de ser presidente – o que ele desmentiu ao derrotar o kirchnerismo na eleição de novembro de 2015. Agora, essa sombra retorna em forma de escândalo, embora o Governo insista em que não há nenhuma ilegalidade e que o dinheiro citado não era de Macri, e sim do conglomerado das empresas familiares, um dos maiores da Argentina.

A oposição já iniciou uma ofensiva para fazer esse assunto deteriorar a imagem de um presidente que mantém boa avaliação após três meses de mandato, mas começa a enfrentar seus primeiros problemas importantes. Enquanto os kirchneristas se lançaram com toda força e exigiram explicações através dos mecanismos parlamentares para obrigar Macri a se pronunciar, setores mais moderados da oposição, como o dirigido pelo peronista dissidente Sergio Massa, exigem que o próprio presidente explique em detalhes todo o seu envolvimento nessa empresa. Inclusive uma aliada de Macri, Lilita Carrió, sentenciou no Twitter: “Macri deve apresentar as provas do que diz”. Todos pedem mais explicações, mas a Casa Rosada, consultada pelo EL PAÍS, informou que todas as necessárias já foram apresentadas.

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Até agora o presidente não disse uma palavra e se limitou a emitir um comunicado no qual se esclarece que “Macri nunca teve, nem tem, uma participação no capital dessa sociedade”. A versão oficial desse comunicado argumenta que a empresa em questão, a Fleg Trading, “tinha como objetivo participar em outras sociedades não financeiras como investidora ou holding no Brasil, esteve vinculada ao grupo empresarial familiar e daí que o Senhor Macri fosse designado ocasionalmente como diretor, sem participação acionária”. E sobre o ponto mais obscuro e que mais pode prejudicar o presidente, o fato de que nunca tenha falado dessa empresa em suas declarações juradas oficiais como prefeito e presidente, o Governo afirma que “só devem ser consignados os ativos e ele nunca foi acionista dessa sociedade, por isso não cabe incluí-la”.

O Governo garante estar tranquilo e tenta minimizar o assunto, apesar de a fotografia de Macri estar nas primeiras páginas de vários jornais internacionais porque é um dos poucos presidentes em exercício afetados. A Argentina vive um momento de grande turbulência política em torno dos escândalos de corrupção do kirchnerismo, com o primeiro alto funcionário do Governo anterior preso desde sábado por um escândalo envolvendo a compra de trens usados na Espanha. Os kirchneristas estão em um momento de grande fragilidade e se preparam para acompanhar nos tribunais a ex-presidenta, chamada a depor como imputada, no dia 13. Por isso aproveitaram rapidamente o aparecimento de Macri nos papéis do Panamá para contra-atacar. Todos esperam o próximo movimento do presidente, mas a crise ainda não parece solucionada.

O assunto é especialmente delicado não só porque devolve ao primeiro plano a parte de Macri que mais problemas lhe traz, isto é, seu papel no conglomerado de empresas familiares –ele sempre prefere destacar sua história como presidente do Boca Juniors do que como dirigente empresarial à sombra do pai–, mas também porque o presidente insiste quase todos os dias em pedir aos argentinos que devolvam a seu país e ao âmbito legal os milhões que têm no exterior ou “escondidos sob o colchão”. Um dos grandes problemas da Argentina é a enorme economia informal e a fuga de capitais dos próprios argentinos ricos e não tão ricos. O fato de que o presidente e sua família apareçam vinculados a um paraíso fiscal, embora não tenha sido descoberta nenhuma ilegalidade, complica esse discurso que é um dos centrais do presidente.

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