Cerca de 80% das ruínas de Palmira estão em bom estado, diz Síria

Diretor de Antiguidades sírio estima que sítio arqueológico pode ser reconstruído em até cinco anos

Soldados e militantes depois de um combate na cidade de Palmira, na quinta-feira.
Soldados e militantes depois de um combate na cidade de Palmira, na quinta-feira.EFE

"Podemos garantir que 80% das ruínas de Palmira estão em bom estado", confirmou Maamoun Abdulkarim, diretor-geral de Antiguidades e Museus na Síria, em conversa por telefone com o EL PAÍS. "Chorei duas vezes na minha vida. Quando me tornei pai e depois de saber da libertação de Palmira", acrescentou o diretor, eufórico, depois de receber os relatórios de sua equipe, já instalada no terreno.

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Depois de sobreviver a mais de 2.000 anos de guerras desde o Império Romano ao Otomano, um quinto do sítio arqueológico de Palmira sucumbiu em pleno século XXI, sob a ocupação do Estado Islâmico (EI). Desde maio de 2015, o califado controlava a cidade, conhecida como a noiva do deserto e patrimônio da humanidade, que foi finalmente libertada neste domingo pelas tropas do Exército sírio com o apoio da aviação russa.

Parte dessa "amarga vitória" em relação à preservação do patrimônio, como classifica Abdulkarim, se deve à população local, cerca de 15.000 moradores remanescentes dos 70.000 registrados anteriormente. "Após a destruição do Arco do Triunfo, há seis meses, funcionários públicos juntamente com a população local alertaram o Daesh [sigla pejorativa em árabe para se referir ao EI) que novas destruições provocariam uma revolta popular", diz Abdulkarim.

No intervalo de 10 meses, o Estado Islâmico destruiu parte dos tesouros da humanidade abrigados por esse antigo oásis. Passagem obrigatória para as caravanas chegadas da Ásia na rota a caminho do Império Romano, Palmira abriga vestígios greco-romanos singulares. Em agosto, o EI dinamitou o Templo de Bel, onde o mais importante de seus deuses era venerado. Apenas sobreviveram os muros exteriores e varandas. A estrutura mais completa de Palmira, com 2.000 anos, já não se encontra na entrada do Tetrapylon, o corredor de 1.100 metros de comprimento escoltado por 750 colunas romanas. "As colunas estão intactas como a ágora!", alfineta, incrédulo, o diretor de Antiguidades.

Em 2010, até 150.000 turistas visitavam anualmente Tedmur, como Palmira é conhecida em árabe. Em seguida, os visitantes percorriam de camelo sua espinha dorsal, apoiada pela fileira de colunas. Mas já não poderão cruzar o Arco do Triunfo, o último a ser dinamitado pelos jihadistas. "Vamos levar um ano para reconstruí-lo, mas não é uma missão impossível", diz Abdulkarim, otimista. Às perdas, que a diretora da Unesco, Irina Bokova, classificou como "crimes de guerra", soma-se o Templo de Baal-Shamin, datado do ano 17 d.C. Nele, a população implorava ao deus fenício as chuvas que regaram a desértica região. Os danos também se estendem a uma dúzia de torres milenárias, entre elas as de Elahbel, Iamliku e Kitot. Em uma avaliação preliminar, Abdulkarim comemorou a recuperação da estátua do Leão de al-Lat, de 1.900 anos, que se pensava estar destruída, localizada a poucos metros de seu pedestal.

Entrada ao templo de Bel. Acima, em 2014; abaixo, no domingo passado.
Entrada ao templo de Bel. Acima, em 2014; abaixo, no domingo passado.AFP

As imagens de satélite mostravam outra grata surpresa. O teatro romano, que fecha o Tetrapylon e onde em tempos de pré-guerra as crianças perseguiam os turistas com uma pilha de cartões-postais, também sobreviveu ao califado. O museu da cidade teve menos sorte. "Os rostos estão queimados, mas não estão mortos", diz Abdulkarim, referindo-se aos bustos recuperados das estátuas decapitadas por terroristas no interior do museu.

Depois de apenas 24 horas da expulsão do EI, Abdulkarim já começou a lançar as bases para a reconstrução. "Irina Bokova me ligou para me felicitar e me garantiu que a Unesco está pronta para mobilizar os recursos necessários para a restauração", disse Abdulkarim, confirmando declarações anteriores feitas pela Unesco. Recursos que deverão ser concretizados e calculados em uma reunião marcada para os próximos dias, e que terá a participação da equipe síria. "Se houver restos suficientes de pedras e se estiverem em bom estado, podemos reconstruir Palmira em cinco anos", estima Abdulkarim. "Mas, para isso, precisamos do apoio da comunidade internacional", acrescenta.

A recuperação de Palmira é uma das muitas batalhas travadas por este diretor. Que irá continuar com sua guerra particular, em paralelo à que assola o país há cinco anos e que já causou mais de 270.000 mortes. Sua tarefa é a de preservar as joias da Síria e da humanidade. As antigas cidades de Aleppo, Bosra e Damasco, os municípios mortos ao norte do país ou o castelo Crack dos Cavaleiros são outros dos seis locais sírios catalogados como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, que hoje estão ameaçados. Além da destruição, fruto da guerra, o país enfrenta os saques conduzidos por mercenários de obras de arte das grandes máfias que se estabeleceram na Europa e nos Estados Unidos. Desfalques que, em relação às tumbas de Palmira, Abdulkarim pretende avaliar in situ ainda esta semana.

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