Epidemia de microcefalia no Brasil

Roupa anti-mosquito contra o zika

Marca para gestantes lança linha de roupas com citronela e aumenta as vendas em 30%

Peças de roupa anti-mosquito da Megadose.
Peças de roupa anti-mosquito da Megadose.Divulgação

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Não é só o Estado que anda mobilizado para combater a epidemia de zika vírus no Brasil – que vive sua maior crise de saúde pública desde os anos 80, quando teve de enfrentar a emergência mundial da Aids. Amparada pela ciência, a iniciativa privada busca soluções para proteger a população do Aedes Aegypti e, de quebra, ainda gera negócios em um momento de recessão econômica. É o caso da marca paranaense para gestantes Megadose, que lançou na última quinta-feira, 10 de março, uma linha de roupas com repelente, a MGDO Cares.

Como um bebedouro no deserto, a iniciativa tem atraído grávidas apavoradas com o risco de se infectar com o vírus, transmitido pelo catastrófico mosquito – ao qual se atribui em grande parte o aumento global dos casos de microcefalia em recém-nascidos. E nasceu de uma ideia simples: por que não aproveitar a roupa para se proteger das picadas, acrescentando a ela citronela – eficaz na repelência dos mosquitos e abundante no país? Só faltava descobrir a tecnologia que garantisse a adesão e a permanência da substância nas peças, apesar do uso e das lavagens.

Qual não foi a alegria de João Ricardo Esteves, diretor da Megadose, com sede em Cianorte, ao saber que ela já existia. “Estávamos instigados com o medo das gestantes por causa do zika. Fizemos uma força-tarefa e descobrimos uma empresa que criou um processo em que a cápsula [de citronela] é inserida na fibra do tecido. Fomos atrás também de fornecedores de citronela e dos tecidos adequados e criamos a coleção em tempo recorde”, conta o executivo, que assinou contratos temporários de exclusividade com os novos parceiros e viu suas vendas crescerem de 20 a 30% na rede de 1.000 multimarcas em que está presente em apenas 20 dias.

A empresa em questão é a Nanovetores, de Florianópolis, que detém conhecimento exclusivo na área de encapsulação de ativos. Basicamente, o que ela faz é encapsular micropartículas de vitaminas, óleos essenciais e outras substâncias como – agora – a citronela, para evitar que esses elementos percam eficácia ao ter contato com o ar, a luz e a pele. O recurso, possível graças à nanotecnologia, existe há três anos no Brasil, e há dois foi utilizado pela marca de roupas Malwee em peças que liberam hidratante no corpo das pessoas, conforme são usadas. É a chamada "roupa funcionalizada", uma conquista revolucionária da indumentária, já muito difundida na Europa, onde as mulheres podem comprar, por exemplo, meia-calça com creme anticelulite nas farmácias, mas que passou um pouco desapercebida no Brasil.

“O repelente é a problemática do momento. Com certeza, essa tecnologia irá se difundir no país, tanto para o combate ao Aedes Aegypti com a citronela, como no caso dos hidratantes”, afirma Betina Zanetti Ramos, farmacêutica e diretora da Nanovetores. Betina explica que a grande vantagem de usar repelente no “anteparo têxtil” é potencializar, com um aumento de 60% na eficácia contra os mosquitos, o uso de repelente na pele, que ela considera indispensável. “Com o repelente tópico a proteção é garantida”, explica.

Aplicada diretamente no corpo, como se faz com a típica loção de praia, a citronela – cujos óleos essenciais são extremamente voláteis – tem efeito de 20 a 30 minutos. Se a base do produto for um creme, essa duração passa a ser de três a quatro horas – o que significa que ele deve ser aplicado periodicamente, seja como for. No tecido, que mantém um leve aroma típico da planta, ela pode resistir mais ou menos à lavadora, dependendo do tipo, mas a especialista garante de 20 a 30 lavagens.

O setor têxtil comemora a oportunidade, acreditando também no “compromisso social”– como define Betina Zanetti Ramos, da Nanovetores – que há por trás dela. A Megadose, de olho especialmente no mercado sul-americano com uma plataforma de e-commerce criada especialmente para atender a região, não está sozinha na empreitada. Outra empresa paranaense, a GBaby, vende roupinhas com repelente para crianças, e anda estudando como ampliar a produção. Os pedidos dos 2.500 pontos de venda nacionais que comercializam a marca já ultrapassaram a capacidade de produção da fábrica (20.000 peças ao mês). Assim como o Aedes Aegypti, cresce a lista de espera para que eles sejam atendidos.

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