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Populistas xenófobos alteram o mapa político na Alemanha

Saxônia-Anhalt ilustra e explica o grande crescimento da Alternativa para a Alemanha

O EL PAIS inicia uma série por ocasião das eleições regionais de domingo em três Estados

Frauke Petry, presidenta da Alternativa para a Alemanha, em 29 de fevereiro em Maguncia Quality

“Deixemos de lado, por um momento, a tragédia dos refugiados. Para nós, bastaria que os governantes trabalhassem em benefício do povo. Mas já faz tempo que eles agem como traidores”. É o maior momento da noite. André Poggenburg, que encabeça a lista do partido Alternativa para a Alemanha (AfD), conquistou a simpatia as cerca de cinquenta pessoas reunidas nesse hotel-restaurante de Halberstadt, uma pequena cidade no leste da Alemanha.

Regados a sucessivas rodadas de cerveja, que os solícitos garçons distribuem pelas mesas, os presentes aplaudem e concordam com a cabeça a cada ataque que se faz àqueles que, segundo os oradores, levaram o país ao desastre. Aqui ninguém hesita. Todos votarão no próximo domingo, dia 13, na organização que tem se transformado no terror do establishment político. Todos acreditam que só ela poderá levar adiante o novo começo de que o país tanto necessita.

Faz tempo que a ascensão da AfD preocupa aqueles que eles chamam, com uma expressão de desprezo no rosto, “os partidos estabelecidos”. Mas as pesquisas realizadas nos últimos dias superam todas as expectativas. Em Saxônia-Anhalt, o Estado onde se realiza essa “reunião cidadã” de Halberstadt, os populistas de direita se aproximam de 20% dos votos, o que os colocaria como a terceira ou a segunda maior força, à frente dos socialdemocratas. Em Baden-Wurtemberg, outros dos três Estados onde haverá eleição neste dia 13 de março, o SPD também passa pela humilhação de disputar um terceiro lugar com um partido que ele próprio não considera como democrático.

Poggenburg pertence ao setor duro da AfD. Ao contrário de outros dirigentes do partido, ele não rejeita as semelhanças com a Frente Nacional de Marine Le Pen – “Sua política europeia coincide com a nossa” – nem renega a etiqueta de populista de direita, “desde que queira dizer que defendo os interesses nacionais”. O que opina do prefeito que renunciou devido à perseguição que sofreu dos moradores após dar apoio aos refugiados? “Bom, ele agiu contra a vontade das pessoas. Um governante está lá para servir ao povo”, responde ao EL PAÍS este empresário de pouco sucesso, que soma várias ordens de prisão por dívidas. Não importa que a proporção de estrangeiros em seu Estado seja a menor do país; ainda assim, Poggenburg clama contra a “imigração em massa e desenfreada” e propõe gastar menos dinheiro com os solicitantes de asilo para aumentar a ajuda à população nativa.

A Saxônia-Anhalt, um Estado pouco relevante, com apenas dois milhões de habitantes, é possivelmente o caso mais extremo de um fenômeno que ocorre em toda a Alemanha: o cansaço com as elites. A crise de refugiados serviu como válvula de escape, mas a AfD aproveita o descontentamento que atinge uma parte dos alemães pelos mais variados motivos: do cânone de que todos os lares devem pagar pela rádio e a televisão públicas aos planos do Governo para limitar os pagamentos em dinheiro a 500 euros; dos resgates à Grécia até o que eles denominam de “propaganda das minorias sexuais”.

“Merkel é igual a Honecker”

Os simpatizantes da Alternativa para a Alemanha (AfD) não gostam do que a imprensa escreve a respeito deles. “Extremistas, nós? Muito pelo contrário. Eu votaria na CDU dos anos setenta e oitenta. Merkel é que traiu o legado de Adenauer”, afirma um homem, indignado, em meio a gestos de apoio de seus companheiros de mesa.

Bernard Niedung, pedreiro aposentado, avança mais ainda nas analogias históricas. “A CDU não existe mais. Agora só existe o partido de Merkel. A mesma coisa que acontecia com Honecker [líder da Alemanha comunista]. Eu sei do que estou falando, pois também passei por aquilo”, afirma.

Argumentos como esse são comuns entre os eleitores do leste que votam pela AfD. Nessa região, o partido exibe a sua face mais radical e, ao mesmo tempo, obtém os seus maiores êxitos. O cientista político Hendrik Träger explica essa implantação mais forte dos populistas nessa região a partir de uma mistura de fatores: uma cultura política democrática menos desenvolvida, uma sociedade homogênea pouco habituada a lidar com estrangeiros e, no caso da Saxônia-Anhalt, uma porcentagem maior da população com renda baixa e média que se sente obrigada a competir com os refugiados pela obtenção de benefícios sociais.

O partido dirigido por Frauke Petry demonstrou ter implantação nacional no domingo passado, quando ficou terceiro lugar nas eleições locais do rico Estado de Hesse, no oeste. Quem achava ser um fenômeno exclusivo da antiga Alemanha Oriental errou.

Apesar de agitarem diversas bandeiras, só a crise de refugiados explica o ressurgimento de uma formação que em meados do ano passado parecia ter caído na irrelevância, vítima das suas divisões internas e da sua orientação radical. A AfD não está no Parlamento nacional, mas, excetuando os bávaros da CSU, se transformou na prática na única oposição à política migratória da chanceler (primeira-ministra) Angela Merkel.

Nenhuma das estratégias para bloquear sua ascensão parece funcionar. Nem o isolamento defendido por destacados líderes social-democratas – que se negam a participar de debates na TV com representantes do partido –, nem a tentativa de alguns democratas-cristãos de assumir parte da linguagem dura contra a imigração, mesmo que isso implique incorrer na esquizofrenia de atacar à líder do seu partido.

As pressões de Merkel não impediram que, há dois anos, os sete eurodeputados da AfD fossem admitidos no grupo parlamentar dos tories (como são chamados os membros do Partido Conservador) britânicos. Nesta semana, a apenas quatro dias das eleições, os chamados Conservadores e Reformistas Europeus anunciaram a expulsão do grupo por ter defendido o uso de armas para evitar a entrada de imigrantes na Alemanha.

Em Halberstadt, os participantes da reunião contam por que estão ali. “O Governo tira o dinheiro do nosso bolso para dar aos refugiados”, protesta Dirk Steffan, ex-eleitor da esquerda. Não é um caso único. Além de atrair ex-democratas-cristãos decepcionados com o centrismo de Merkel, a AfD também conta com cidadãos que antes votavam no SPD, na Die Linke ou se abstinham. “Perdemos a soberania. Neste passo, a Alemanha vai deixar de existir”, diz Jutta Weissel, que aponta o húngaro Viktor Orbán e o russo Vladimir Putin como modelos a seguir, e tacha Merkel de “traidora do povo”. Lembrado de que os nazistas utilizavam esse conceito, reflete um instante e responde: “Pode ser. Mas isso não tem nada a ver com a situação atual”.

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