Coluna
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A galeria dos ex

O caso de FHC com Mirian Dutra sempre foi conhecido de toda a imprensa. Agora, no entanto, não se trata mais apenas de hipocrisia, mas de suspeita de prática criminosa

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em evento em setembro de 2015.
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, em evento em setembro de 2015. Sebastião Moreira / EFE

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Nunca votei em Fernando Henrique Cardoso – nem em 1994, nem em 1998. Mas, confesso, quando eleito em 1994, pensei que ele talvez pudesse desenvolver um bom Governo – na verdade, torci por isso. Afinal, tratava-se de um professor universitário, um sociólogo com reputação internacional, nome de envergadura na luta contra a ditadura militar e simpatizante das causas operárias quando das memoráveis greves na região do ABC paulista. Mais que isso: por ser um intelectual, imaginei que tivesse consciência de seu papel de sujeito histórico, ou seja, da sua condição excepcional de impulsionador de mudanças na sociedade.

Claro, esse foi apenas mais um dos inúmeros erros de avaliação que cometi ao longo da minha vida. Mesmo reconhecendo que aquele era um momento de reconstrução do país, destruído pelos militares que ocuparam o poder por longos 25 anos e desmoralizado pelos antecessores, José Sarney e Fernando Collor de Mello, o saldo final do Governo de Fernando Henrique é pífio. Se, por um lado, administrou a estabilidade econômica e iniciou programas de transferência de renda, que seriam ampliados e renovados no Governo do PT, por outro jogou uma pá de no já combalido sistema de educação e naufragou numa série de denúncias de compra de votos para modificar a Constituição e garantir-lhe a reeleição por mais um mandato. Consolidou-se desde então a imagem de antipáticos e arrogantes da qual os tucanos não conseguem se desvencilhar.

Olhamos para o horizonte e o que observamos é a esculhambação das nossas lideranças políticas

O relacionamento extraconjugal do ex-presidente com a jornalista Mirian Dutra, entre 1985 e 1991, sempre foi conhecido de toda a imprensa. Embora eventualmente surgissem aqui e ali pequenas notas maledicentes, os jornais nunca quiseram explorar o assunto, por considerá-lo de âmbito privado. Esse, aliás, também foi o entendimento do PT, que nas eleições de 1994 descartaram trazer à tona a questão – até porque, o partido estava escaldado com outra Miriam, a Cordeiro, abandonada grávida de seis meses por Lula em 1974, fato usado por Fernando Collor e que determinou sua vitória em 1990. Agora, no entanto, para além da falha moral, Fernando Henrique pode ter passado por cima de limites éticos. Não se trata mais apenas de hipocrisia e machismo, mas de suspeita de prática criminosa.

Mergulhados numa crise econômica sem precedentes, convivendo com o caos nos sistemas de educação e saúde, acuados por índices inacreditáveis de violência, olhamos para o horizonte e o que observamos é a esculhambação completa das nossas lideranças políticas. Restam vivos quatro ex-presidentes do período pós-ditadura: José Sarney, Fernando Collor de Mello, Fernando Henrique Cardoso e Luiz Inácio Lula da Silva. Em geral, por sua experiência e estatura moral, ex-presidentes são faróis que ajudam a guiar os navios a portos seguros durante uma tempestade. Não no caso do Brasil, infelizmente. Todos esses, uns mais outros menos, mancharam suas biografias de homens públicos no atoleiro da corrupção e da mentira. Seus retratos formam uma patética galeria da mediocridade nacional. São sombras pálidas do que gostaríamos de ter sido e decididamente não somos...

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