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Grafiteiras árabes que derrubam muros

Artistas de rua do Egito e da Síria refletem o olhar feminino em espaços públicos

A grafiteira palestina Laila Ayawi durante participação na Jordânia, em 2014.
A grafiteira palestina Laila Ayawi durante participação na Jordânia, em 2014.

Os muros nem sempre escondem realidades. Nas ruas de Alexandria, Sanaa ou Amã, as mesmas paredes capazes de engessar papéis de gênero também podem, graças ao grafite, dar visibilidade às mulheres. Com essa intenção, nasceu em 2013, no Egito, o Sit al-hita (as mulheres das paredes, em dialeto árabe egípcio) um grupo de cerca de 60 grafiteiros — principalmente mulheres, mas também há homens — de várias partes do mundo árabe que se reúnem a cada ano para levar o universo feminino ao espaço público através da arte de rua. Até agora, pintaram muros no Cairo, Copenhague e Amã, a última vez em novembro de 2015, graças ao financiamento dos Governos sueco e dinamarquês.

Os grafites políticos ganharam força na paisagem urbana do Egito com a eclosão da Primavera Árabe, em 2011. Com a revolta contra Hosni Mubarak, os muros começaram a refletir mensagens contrárias ao regime ou em homenagem aos mortos na repressão. Faltava, no entanto, metade da população. A jornalista e fotógrafa sueca Mia Gröndahl documentou os grafites no país para seu livro Revolution Graffiti: Street Art of the New Egypt (Revolução Grafite: Arte de Rua do Novo Egito) e descobriu que, de 17.000, somente cerca de 250 ilustrações eram representadas por mulheres. Foi então quando decidiu fundar o Sit al-hita com o egípcio-canadense Angie Balata.

Os grafites que surgem dos encontros nem sempre trazem reivindicações ou mensagens feministas. Os exemplos vão desde uma mulher amordaçada e amarrada até uma simples borboleta colorida. Às vezes, tem a ver apenas em permitir que o olhar feminino ocupe espaços que normalmente são negados. Dina Saadi, por exemplo, ilustrou um coração alado com uma fechadura, o símbolo da mulher e o slogan "Liberte sua paixão". "Como feminista convicta, sempre tento encorajar as mulheres a superar limites com minha arte", explica Saadi, que nasceu na Rússia, cresceu na Síria e, logo após o início da guerra civil, se mudou para Dubai, onde agora trabalha como diretora artística.

"Não se trata apenas de representar as mulheres. O simples fato de que os homens vejam uma mulher pintando na rua em cima de um guindaste de 50 metros acima do solo envia uma mensagem", diz Gröndahl. Muitas das grafiteiras do grupo também criam em formatos tradicionais, mas a força da arte de rua é precisamente não necessitar do papel ativo do espectador (ir ao museu ou à galeria), podendo ser visualizada por todos os pedestres, incomodando-os ou não. É o caso dos slogans com spray contra o assédio sexual no Egito, abuso sofrido por 99,3% das mulheres no país.

A palestina Laila Ayawi não pretende perturbar com seus traços os homens do campo de refugiados de Irbid, na Jordânia. Pelo contrário. "Sei que vivo em uma sociedade conservadora e não vejo minha comunidade como inimiga", diz. Ayawi sempre pede permissão antes de usar o spray e evita representar o corpo feminino em espaços públicos. Sua revolução particular tem a ver com "pintar mulheres fortes”. "Gosto de focar no positivo. Não nos representar como vítimas ou frágeis, e sim dizer às outras mulheres: ‘Você tem uma voz no mundo e deve ser ouvida’”, afirma.

Nur Qussini prefere os símbolos. As cadeiras que desenha representam, diz, a tradição das sociedades da Jordânia e do Catar, nas quais passou seus 27 anos de vida. "Falo por meio de conceitos, mas sobre histórias reais. Falo, por exemplo, de duas de minhas amigas agredidas por seus maridos que não podem se divorciar, porque seria uma vergonha para suas famílias. Por isso gosto tanto de pintar na rua, porque não tem a ver apenas em acrescentar beleza, mas também enviar uma mensagem.”

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