ATAQUES EM PARIS

Obama assume a limitação dos EUA na luta contra o EI

Presidente se reunirá com Hollande na Casa Branca sem alternativas à estratégia atual

Barack Obama na Cúpula de Kuala Lumpur.
Barack Obama na Cúpula de Kuala Lumpur.JORGE SILVA / REUTERS

O presidente Barack Obama não tem uma fórmula para derrotar o Estado Islâmico, e isso é um problema em um país, os Estados Unidos, acostumado a líderes que oferecem soluções rápidas e claras diante de ameaças como o terrorismo. Alguns se impacientam por sua reação moderada frente aos atentados de 13 de novembro em Paris. E é acusado de derrotismo. Obama irá se reunir na terça-feira na Casa Branca com seu homólogo francês, François Hollande, sem alternativas à estratégia atual de ataques por ar e apoio às forças locais no Iraque e Síria, redutos jihadistas.

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O democrata Obama, um político que construiu sua carreira com discursos memoráveis e uma retórica de altas aspirações, optou por uma reação comedida aos ataques de Paris. O tom contrasta com o de Hollande, que chamou os ataques de atos de guerra, e com os discursos combativos de alguns candidatos a sucedê-lo, como a democrata Hillary Clinton e o republicano Jeb Bush.

Obama pede paciência. Duvida que a maior potência mundial possa resolver sozinha com bombas uma guerra civil, a da Síria, que começou em 2011, e enfrentar um fenômeno, o terrorismo jihadista, cujas causas não podem ser explicadas por nenhum esquematismo. É cético diante da possibilidade de uma colaboração com a Rússia de Vladimir Putin, que já bombardeia a Síria. Acredita que 14 anos de guerras inacabadas no Iraque e no Afeganistão deveriam ser prova suficiente para se pensar bem antes de intensificar o envolvimento no Oriente Médio.

“É muito fácil destruir o EI. Sabemos exatamente como fazê-lo”, diz Jeremy Shapiro, que trabalhou na equipe de planejamento político do Departamento de Estado e agora é membro da organização Brookings Institution. “Podemos bombardeá-los e enviar tropas. Podemos retomar Mosul, Raqqa, Faluja e Ramadi”, acrescenta, se referindo às cidades do Iraque e da Síria conquistadas pelo EI. “Já tomamos Faluja, Ramadi e Mosul três vezes no passado. Já sabemos como fazê-lo. Mas para quê?”.

De acordo com Shapiro o EI, ou um grupo semelhante poderia retornar dois ou três anos depois, como aconteceu após a retirada dos EUA do Iraque em 2011. Quatro anos depois, os jihadistas ocupam parte do país e da vizinha Síria.

“Bombardeios e tropas terrestres não são realmente a solução”, diz. “O problema não é vontade política e falta de recursos: o problema é que não temos a solução”.

Shapiro afirma que o problema deve ser resolvido pelos envolvidos locais. Qualquer tentativa de substituí-los, de impor a solução de fora, só irá piorá-lo”. “E é por isso que a posição da Administração Obama é um esforço para fazer o suficiente para resolver o problema, mas sem retirar a responsabilidade local de abordá-lo” diz.

Diferenças de tom

As diferenças entre Obama e Hollande, Obama e Clinton e Obama e Jeb Bush são mais de tom do que de conteúdo.

Sim, Bush quer mais tropas, além dos 3.500 militares norte-americanos que já estão no Iraque e a meia centena que deverá ser utilizada na Síria. Clinton fala em enviar mais forças especiais e criar uma zona de exclusão aérea na qual os aviões não possam sobrevoar. Mas ninguém, com exceção de candidatos nanicos e alguns falcões no Congresso, propõe repetir uma invasão ao estilo da do Iraque em 2003, ordenada pelo presidente George W. Bush, o irmão de Jeb.

“Francamente, o que acontece depois de toda ação terrorista é uma corrida para adotar posições políticas que consigam votos”, diz Anthony Cordesman, professor de Estratégia no CSIS (sigla em inglês do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais). “A questão é sobre a busca de soluções dramáticas e instantâneas: primeiro, ganhar dentro da Síria e do Iraque não impede o terrorismo do EI e outras células hostis fora [destes países]. E em segundo lugar, não é possível ganhar na Síria e no Iraque a não ser que seja proporcionado, ao mesmo tempo, uma vitória militar e alguma estabilidade em áreas povoadas”. Cordesman acredita que simplesmente falar em “destruir o EI”, sem levar em consideração as divisões entre árabes e curdos, e entre sunitas e xiitas, é uma demonstração de ignorância.

Em 2013, os EUA estiveram a ponto de intervir contra o regime do sírio Bashar al-Assad. Em 2014, finalmente o fizeram, mas contra o EI, inimigo de Al Assad. Um ano depois, os atentados de Paris colocam em dúvida a estratégia. A hesitação de Obama – e o reconhecimento de que os EUA não são um país onipotente que possa resolver tudo – deixam algumas pessoas impacientes.

Hollande é muito mais sério [do que Obama] em relação à ameaça do EI”, diz Danielle Pletka, da organização conservadora American Enterprise Institute.

“Não deveríamos reagir a Paris. Deveríamos ter feito isso muito antes. Deveríamos ter feito algo para ajudar o povo sírio em 2011, e talvez a ascensão do EI pudesse ter sido evitada. Nunca deveríamos ter retirado as tropas do Iraque. O que faremos agora? Precisamos de mais gente no local, e mais ajuda e potência aérea muito maior”.

Ao ser perguntada se com mais tropas e bombardeios é possível derrotar o EI, Pletka responde: “Você está falando sério? Somos os Estados Unidos da América e eles são um punhado de terroristas. É claro que sim”.

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