CRISE POLÍTICA

Eduardo Cunha inicia périplo para tentar se manter politicamente vivo

Conselho de Ética da Câmara quer julgá-lo ainda este ano por quebra de decoro Presidente da Casa não fecha portas nem a Governo nem a oposição para segurar cargo

Cunha ao sair de seu gabinete.
Cunha ao sair de seu gabinete.Andressa Anholete (AFP)

Em um dia, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) se senta à mesa com meia dúzia de líderes da oposição ao Governo Dilma Rousseff. No dia seguinte, almoça com o vice-presidente da República e seu correligionário, Michel Temer. O que poderia ser simples agendas institucionais de um presidente da Câmara dos Deputados tem se tornado um périplo para se manter politicamente vivo. Se não como o todo poderoso chefe da Casa Legislativa, ao menos como um influente parlamentar com o foro privilegiado de julgamento.

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Investigado pela Operação Lava Jato, hoje, Cunha só pode ser julgado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal. Se perder o mandato, poderia cair na mira do juiz Sérgio Moro, o condutor dos processos que envolvem os suspeitos de corrupção na Petrobras e cuja a pesada caneta já condenou mais de duas dezenas de empresários, lobistas, doleiros e políticos por conta do desvio de ao menos 6 bilhões de reais da estatal brasileira.

Naquela primeira reunião, Cunha reclamou aos opositores, a quem sempre ajudou, de que estava sendo abandonado por eles no momento em que acabava de ser denunciado ao Conselho de Ética por quebra de decoro parlamentar. A irregularidade teria ocorrido quando ele mentiu no depoimento dado à CPI da Petrobras ao dizer que não teria contas correntes fora do país. Documentos do Ministério Público da Suíça mostram que ele tinha quatro contas naquele país com cerca de 24 milhões de dólares. Dos opositores, ouviu que ainda podiam contar com seu suporte e que só assinaram um manifesto pelo afastamento dele porque estavam sendo cobrados pelos seus eleitores.

O segundo encontro, incentivado pelo ministro da Casa Civil, o petista Jaques Wagner, tinha como objetivo apresentar a proposta de acordo do Governo ao deputado peemedebista. Conforme participantes ligados a Cunha e a Temer, como o Governo não pode interferir nas investigações da Procuradoria-Geral da República, a proposição seria no sentido de evitar uma cassação de mandato na Câmara desde que ele não desse aval aos pedidos de impeachment que tramitam na Casa. Atualmente três esperam sua decisão e um quarto pode dar entrada até o fim desta semana, segundo prometem opositores.

A tabelinha de Cunha com o Governo poderia lhe render ao menos 13 dos 19 votos dos membros do Conselho de Ética. Constituído por 21 parlamentares, o Conselho seria “reduzido” porque deputados do partido do investigado ou do mesmo Estado pelo qual foi eleito não poderiam participar do julgamento e nenhum suplente é convocado.

Promessas e apelos dos dois lados

Nesta quarta-feira, o presidente do Conselho de Ética, o deputado José Carlos Araújo (PSD-BA), disse que pretende concluir a análise do pedido de cassação de Cunha ainda neste ano. Pela legislação ele teria 90 dias para finalizar os trabalhos o que jogaria as conclusões somente para 2016, porém, ele defende uma apuração mais célere. “A sociedade exige essa celeridade, sem avançar nenhum sinal, dando o amplo direito de defesa ao representado”, afirmou Araújo.

A primeira reunião do conselho para definir os procedimentos a serem seguidos deve ocorrer apenas na última semana de outubro. Com o término do julgamento desta comissão, o relatório é avaliado pelo plenário da Câmara dos Deputados.

Neste fórum o Governo diz que pode ajudar Cunha a não ser derrubado, mas essa promessa, talvez nem possa ser cumprida. A lógica é que, nas últimas semanas os deputados governistas não conseguiram nem dar quórum para a votação de projetos de interesses do Governo, como os vetos presidenciais.

Para piorar, mais da metade da bancada petista, 32 dos 62 deputados, confrontaram a direção do partido e assinaram o requerimento que pediu a cassação do mandato do presidente da Câmara. Ao total, 50 parlamentares firmaram o documento que foi elaborado pelos partidos PSOL e Rede. As curiosidades nessa relação são os oposicionistas que não seguiram as orientações de suas legendas Max Filho (PSDB-ES) e Arnaldo Jordy (PPS-PA), além de Zeca Dirceu (PT-PR), filho do ex-ministro e investigado pela Lava Jato José Dirceu – um dos 14 parlamentares brasileiros que tiveram mandatos cassados pelo Congresso nos últimos 20 anos.

Experiente nos meandros da política, um dos defensores do ex-presidente Fernando Collor na época em que ele enfrentou o impeachment, Cunha ainda não fechou as portas a ninguém. Pelos relatos de aliados, ele só fechará a questão e engavetará os pedidos de destituição contra Rousseff quando se sentir seguro e se ela deixar de mandar recados atravessados, como o dado durante discurso na noite de terça-feira quando a presidenta afirmou que a sociedade conhece os “moralistas sem moral” que tentam derrubá-la. Se não, ainda pode se abraçar aos opositores e arriscar o próprio pescoço.

Enquanto na Câmara há uma briga pelos que dão as mãos ao deputado e os que o empurram ao precipício, no Senado, ao menos quatro congressistas se revezaram na tribuna para defender a derrubada dele. Nas entrevistas, até o PSDB surpreendeu e foi duro com o peemedebista. “O Cunha está com a cabeça a prêmio e está vendo quem pode salvá-lo: o governo ou a oposição. Quem der mais leva. Enquanto isso, o país que se exploda”, afirmou o líder do PSDB no Senado, o paraibano Cássio Cunha Lima.