Literatura

Martin Amis: “Já não vejo as vítimas do Holocausto como distantes”

Escritor publica em espanhol seu novo romance, ‘A Zona de Interesse’ Livro provocou áspera polêmica por abordar a Shoah com sarcasmo

Martin Amis, em sua casa no Brooklyn, em Nova York
Martin Amis, em sua casa no Brooklyn, em Nova York

Martin Amis (Oxford, Reino Unido, 1949) abre a porta de sua casa no Brooklyn em 11 de setembro, um aniversário maldito nos Estados Unidos, mas o rosto de decepção do escritor tem a ver, desta vez, com o tênis: “Serena perdeu” são as primeiras palavras que arrasta no hall. Amis publica no fim deste mês em espanhol “A Zona de Interesse” [publicado no Brasil pela Companhia das Letras], um romance em que volta a tratar do Holocausto e cujo tom satírico levantou um rebuliço de críticas quando foi lançado, um ano atrás. É possível fazer sátira do horror? Vários exemplares do último livro em que ousou fazê-lo, em línguas diferentes, estão espalhados pela casa, mas sobre a mesa da cozinha repousa “Cartas a Vera”, de Vladimir Nabokov, que está relendo. Amis se mostra pouco inclinado a frequentar os autores vivos.

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Pergunta. Por que não lê a nova literatura?

Resposta. É senso comum. Ler escritores jovens ou mais jovens do que eu não é uma maneira eficiente de usar o tempo de leitura. Eu só leio meus amigos: Zadie Smith, Will Self... Mas não porque sejam jovens. O modo de julgar o valor de um romance, uma pintura ou um poema é quanto perdura. O único juiz de uma obra é o tempo. Se um livro perdura um século, provavelmente é bom; se dura 10 anos, não muito. Então, costumo ler obras de autores mortos porque suas obras sobreviveram, enquanto que ler o romance de um autor de 25 anos é uma aposta... E não muito sensata.

P. Seu último romance começa de forma romântica num contexto grotesco. Qual é o papel do amor na história?

R. Os romances muitas vezes começam simplesmente com uma imagem e quando você a tem sabe que tem uma peça de ficção para contar; eu vi uma cena de amor à primeira vista em meio a esse contexto terrível. O amor pela mulher o faz mais corajoso e se torna um salvador. O amor te faz mais idealista. Mas no final fracassa, ele fica numa decepção romântica porque os regimes totalitários tornam muito difícil que as pessoas amem. Há muita morte, que é o oposto do amor, como o ódio; por isso o amor deve acabar em decepção.

“Estou inclinado a pensar que Hitler era alguém sem sexo”

P. Alguém como Hitler não poderia, então, se apaixonar?

R. Eu diria que não, enfaticamente. Um dos grandes mistérios de Hitler, ao contrário de Stalin ou Mao, é que nem sequer sabemos se teve sexo em sua vida. Existem teorias que dizem que era normal, outros dizem que era completamente assexuado e há quem diga que era um pervertido. Mas estou inclinado a pensar que era alguém sem sexo. É impossível imaginá-lo fazendo amor com Eva Braun e depois fumando um cigarro na cama... Impossível.

P. Por que Smzül, o personagem judeu, tem a história mais curta?

R. Porque é difícil escrever sobre uma vítima. Este é o meu segundo romance sobre o Holocausto e no primeiro não olhei para as vítimas, exceto de longe, e sempre soube que seria difícil. Mas no intervalo de tempo entre 1999 e hoje me casei com uma mulher que é judia e cuja família sofreu o Holocausto. E nossas filhas são meio judias. Agora eu sinto parte disso; já não vejo as vítimas como algo tão distante de mim.

P. As polêmicas que alguns de seus livros criaram nos últimos anos o afetaram? O senhor se censurou?

R. Não, espero que não. A maior força de nossas vidas é avançar na direção de maior democracia, social e cultural. Você não pode estar consciente disso quando está escrevendo, ainda que quando eu olho para os meus primeiros romances continuo a dizer: “Merda, como eu disse isso”. Porque é ofensivo. Mas eu diria que tem muito a ver com ser jovem, estúpido e corajoso. Agora eu continuo a dizer o que quero. Claro, você não se curva às visões religiosas das pessoas, nada disso, mas, possivelmente, é um pouco mais cuidadoso com quem ofende.

P. E para que, provavelmente.

R. Sim, qual é o objetivo. Mas eu creio que é uma questão muito importante a autocensura em andamento, muito importante quando tem a ver com o Islã, porque as pessoas têm medo.

P. O ataque ao Charlie Hebdo fechou a porta para rir do sagrado?

“Ler o romance de um autor de 25 anos é uma aposta... e não muito sensata”

R. Eu não acredito. Ou espero que não, porque seria uma terrível vitória do extremismo, mas cinco dias depois a revista publicou um novo número com Maomé na capa.

P. Mas agora disseram que não voltarão a fazê-lo.

R. Disseram? Qualquer representação da forma humana é considerada blasfêmia no Islã e qualquer representação do profeta também; isso não me parece uma grande perda, mas é uma grande perda em termos de liberdade de expressão.

P. O humor deveria ter limites?

R. Não. Tampouco seria completamente permissivo com tudo. Seja qual for o tema que você escolher, implica em responsabilidades especiais e o Holocausto talvez tenha mais do que qualquer outro assunto. Mas são as responsabilidades que você enfrenta em cada página que escreve, você deve encontrar o tom adequado. É algo parecido com o decoro, que não significa cortesia, mas uma linguagem apropriada para cada acontecimento.

P. O mal absoluto parece presente em boa parte de sua obra. O senhor acredita que ele seja uma das grandes questões do nosso tempo?

R. Não gosto muito do conceito de “mal”, eu o vejo como muito teológico; prefiro a palavra crueldade ou maldade. Mas sim, é algo que continua aparecendo o tempo todo sob diferentes formas. Agora uma organização terrorista exalta sua crueldade e não diz o habitual: “lamentamos ter de matar essas pessoas, mas é necessário fazê-lo”. Não, eles estão orgulhosos de matar civis e escravizar meninas, das violações em massa... É definitivamente uma nova declinação da maldade e eles veem uma justificação religiosa nisso.

P. Quando o senhor vê o que acontece na Síria, pensa que cada época tem o seu próprio mal absoluto?

R. O ISIS [sigla em inglês do Estado Islâmico] é uma nova manifestação, uma nova evolução do mal, mas talvez seja demais dizer que é outra coisa. É uma forma de niilismo; sempre é niilismo, nazistas, bolcheviques, ISIS...

P. O senhor acompanha a política britânica? O que pensa de Jeremy Corbyn?

R. Com Corbyn, o Partido Trabalhista deixará de ser um partido. Vai se tornar um grupo de pressão, não haverá um Governo com ele à frente. O último líder trabalhista [Ed] Miliband, fracassou porque era demasiado esquerdista e agora escolheram alguém que está muito mais à esquerda.

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