Como tirar o país da crise?

Saídas apontadas por especialistas são discutidas há décadas, como o incentivo ao investimento e renovação da indústria

Presidente Dilma Rousseff em evento no início do mês.
Presidente Dilma Rousseff em evento no início do mês.UESLEI MARCELINO (REUTERS)

A queda de 1,9% do PIB, anunciada nesta sexta, confirma os índices negativos de emprego, inflação e renda da população, que colocaram o Brasil diante de sua pior crise econômica desde os anos 90. A reportagem do EL PAÍS consultou diversos especialistas em busca de respostas que indiquem como o país pode superar o atual quadro recessivo. Segundo a maioria deles, as saídas da crise estão concentradas em alternativas discutidas há décadas, mas que não conseguem ser implementadas. A solução passaria por um tripé que inclui estimular o desenvolvimento produtivo do Brasil, tornando o país mais competitivo, investir em infraestrutura e adotar medidas de desburocratização que facilitariam as relações comerciais.

Na visão do economista Mauro Rochlin, da FGV, a solução primordial para a retomada é criar um cenário de estabilidade outra vez. "Os investimentos no país só vão voltar quando haja um desenho previsível do futuro do Brasil, é preciso restabelecer essa estabilidade. Nos últimos tempos o Governo se mostrou pouco confiável ao setor privado", explicou. Segundo ele, apesar da crise, felizmente ainda há uma grande demanda reprimida no setor de infraestrutura: muita ferrovias, rodovias, aeroportos e portos para serem construidos. "O país precisa se apoiar nessa demanda para estimular o crescimento", explica. Segundo o IBGE, o investimento produtivo caiu pelo oitavo trimestre consecutivo.

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Otto Nogami, professor de economia do Insper, concorda. A retomada, na sua visão, só vai acontecer quando o Governo voltar a fazer seu dever de casa, reequilibrar as contas e parar de cortar uma das ferramentas mais importantes para o crescimento, que são os investimentos. Nogami também acredita na necessidade de um novo modelo para adequar e capacitar o setor produtivo. “Infelizmente, o país não está tratando com prioridade a renovação na indústria para buscar mais competitividade”, explica.

Nogami avalia que práticas como as de uma alíquota máxima na tributação de máquinas e equipamentos importados só dificultam a melhora do setor. “É preciso liberar isso. A Coreia do Sul, por exemplo, só está no nível de industrialização atual porque houve medidas de desoneração de importação de tecnologia. No entanto, aqui no Brasil, o lobby setorial tem uma influência grande que pressiona a permanência de medidas restritivas que inibem os investimentos”, afirma.

O Ministro de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger,  também acredita que já passou da hora do país promover a liberdade para a importação de altas tecnologias e diz ser necessário abandonar unilateralmente todas as restrições à importação de alta tecnologia. “Uma impressora 3D não deve custar em São Paulo o dobro do que custa em Nova York. Temos que superar nossos preconceitos mercantilistas segundo os quais, exportar é bom e importar é ruim”, ressaltou o ministro em um seminário promovido pela FGV na capital paulista.

Aproveitar o real desvalorizado

Para o ministro, a atual desvalorização do real frente ao dólar, que já supera os 33% em 2015, deve ser vista como uma mudança positiva que emergiu da atual conjuntura. "O Brasil deve aproveitar a taxa de câmbio para exportar mais que soja e ferro”, disse fazendo referência ao enorme salto que a participação de produtos básicos tiveram nos últimos anos e a dependência criada pela exportações de matérias primas. Hoje, as commodities representam 60% das vendas do Brasil para outros países, segundo estudo da ONU.

Mangabeira Unger ressaltou ainda que o objetivo do ajuste nas contas públicas não é a recuperação da confiança do mercado, e sim dar maior margem de manobra para o país. "O propósito do ajuste fiscal e de todo projeto de desenvolvimento é assegurar a primazia dos interesses do trabalho e da produção sobre o rentismo financeiro", afirmou. O ministro defende também um projeto alternativo para o país que  incluiria reforma tributária, na gestão do Estado e mudanças de currículo na educação.

Desmanchar o excesso de burocracia é outro fator que está ao alcance do Governo, acredita o gerente de pesquisa da CNI, Renato Fonseca. "Seria uma ação que reduziria o custo do Governo e do setor privado”, avalia. No caso das exportações, o excesso de taxas e contribuições tarifárias complexas também jogam contra.  “É preciso acabar com a burocracia dos acordos comerciais, tirar barreiras e facilitar nosso acesso aos mercados internacionais", explica.

Titanic bateu no iceberg

Apesar da presidenta Dilma ter admitido nesta semana que demorou a perceber a gravidade da crise, os especialistas concordam que o que não faltaram foram avisos. "Existiam ferramentas para que a inflação fosse mantida mais perto da meta, no entanto foi uma escolha do Governo não adotá-las, talvez porque teria, a curto prazo, uma perda de dinamismo", explica o economista Eduardo Coutinho, do Ibmec. Para ele, apontar a conjuntura externa como vilã é uma desculpa fajuta. "Foram decisões internas e essa política fiscal expansionista também foi uma decisão autônoma. O problema é que o Titanic bateu no Iceberg", explica. Agora a solução será apostar em  fórmulas conhecidas para conseguir diminuir a onda de pessimismo que paira no país, agravada pelos desdobramentos da Operação Lava Jato e os embates políticos entre o Governo de Dilma Rousseff e o Congresso. 

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