um ano da morte de eduardo campos

Pernambuco reescreve a política após a morte de Eduardo Campos

Entre vaias em público e convites para entrar na política, viúva Renata prefere manter silêncio. Primogênito estreia em 2018 para disputar uma vaga como deputado

Renata Campos e três de seus cinco filhos com Eduardo
Renata Campos e três de seus cinco filhos com EduardoJCImagem (Folhapress)

Uma discretíssima Renata Campos precisou voltar aos holofotes, um ano após a morte trágica do marido e de mais seis pessoas a bordo do avião que caiu em Santos no dia 13 de agosto. Nesta mesma semana, comemoravam-se os 50 anos de Eduardo Campos. Três dias depois, marcava-se o seu primeiro ano de morte. Foi apenas na celebração realizada pelo PSB na segunda (10), que ela fez sua única declaração pública até agora. “Infelizmente, nossas vidas saíram do roteiro. Digo sempre que essa tragédia não estava no script, mas não nos resta outra coisa se não celebrar a vida, lembrar sua história.”

Na plateia, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), o senador mineiro Aécio Neves (PSDB), Marina Silva (PSB), Paulo Câmara (PSB) e o prefeito do Recife, Geraldo Julio (PSB). O PT, partido com o qual Eduardo rompeu, foi representado pelo ministro da Defesa, Jaques Wagner. Maria Eduarda, João, Pedro, José e Miguel, filhos de Renata e Eduardo, acompanhavam a mãe.

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A família, que vive no bairro de Dois Irmãos, Zona Norte do Recife, foi pouquíssimo vista durante os últimos 12 meses. Uma das poucas aparições foi constrangedora: as inesperadas vaias recebidas durante a segunda noite do Cine PE, que realizou em maio uma homenagem a Eduardo Campos. As vaias seriam um reflexo de um sentimento de insatisfação de parte da população por conta de vários problemas que a cidade vem enfrentando —o prefeito foi colocado no posto pelas mãos de Eduardo. Entre eles, enormes engarrafamentos, vias públicas repletas de buracos e o mais midiático: a proposta da construção das torres no Cais José Estelita. Talvez para evitar protestos desse tipo, o tom do clã é de total discrição.

A exceção é João Campos, 24 anos, estudante de engenharia civil na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Ele costuma estar ao lado de Paulo Câmara em diversas visitas aos municípios do interior —uma maneira de manter acesa a imagem não só de Eduardo, mas também de trazer à memória a própria presença de Miguel Arraes, que foi governador do Estado por três vezes. O presidente nacional do PSB, Carlos Siqueira, já adiantou-se: disse publicamente que o rapaz será candidato a deputado federal em 2018. Isso apesar de o estudante nunca ter concorrido a qualquer eleição. O dia das vaias no festival de cinema, porém, foi um teste. E João até que se saiu bem. “Para ser um grande líder, como foi meu pai, é preciso estar disposto a conviver com aplausos e vaias, elogios e críticas”, disse ele no palco ao lado da família.

O Estado que respira política —os pernambucanos se rebelaram do domínio português em 1817, cinco anos antes de D. Pedro I proclamar a independência do Brasil— se digladia diante do antes e depois de Campos. Quis o destino que a crise econômica chegasse na sequência da sua morte, no dia 13 de agosto do ano passado. Além do vazio emocional, vieram os problemas da vida real. “O Estado não superou o trauma causado pela trágica e prematura morte de Eduardo Campos. Nem podia ser diferente”, diz Túlio Velho Barreto, cientista político da Fundação Joaquim Nabuco, de Recife. “Campos tornou-se em poucos anos a principal liderança política do Estado, talvez mesmo a sua única liderança com expressão estadual e nacional”, analisa Barreto.

O professor lembra que o ex-governador foi alçado a essa posição após percorrer uma trajetória relativamente longa ao lado do avô Miguel Arraes, com quem militou por mais de 20 anos, até alcançar brilho próprio, com a morte do avô, em 2005. “Foi exatamente a morte de Miguel Arraes que levou Eduardo Campos ao comando nacional do Partido Socialista Brasileiro (PSB)”, explica. Assim como o avô, Campos liderou o partido e a política em seu Estado de forma centralizada e hegemônica, sem dar espaço a disputas internas e ao surgimento de alguém que lhe viesse fazer sombra. “Ele conduziu a política e a gestão do Estado praticamente sozinho, de forma centralizada, sem permitir sequer o surgimento ou crescimento de outra liderança política em seu partido e no Estado”, lembra o professor.

A memória desse carisma ofusca o neófito Paulo Câmara, ex-secretário da Fazenda do Governo pernambucano, que se elegeu governador sob a comoção do acidente que abreviou a vida de seu padrinho político. “Sua prematura morte, que resultou de uma tragédia, não deixou de causar certo ‘trauma cultural’ no Estado, abrindo um vazio difícil de ser preenchido a curto ou médio prazo”, avalia Barreto.

Hoje a expectativa cresce sobre os ombros de João Campos, seu filho mais velho, embora ele tenha a desvantagem de ter convivido menos com o pai, do que Eduardo Campos com o seu avô e mentor, Miguel Arraes.

O irmão do ex-governador, o advogado Antônio Campos, também arrisca um ingresso na política. Vai disputar a eleição para a prefeitura de Olinda, e já espalhou cartazes pela cidade com a frase “Não vamos desistir. Olinda pode mais”, em alusão à frase que seu irmão disse um dia antes de morrer, numa entrevista para a TV Globo “Não vamos desistir do Brasil”.

O PSB também tenta convencer Renata a concorrer à presidência em 2018, uma ideia que chegou a ser cogitada ainda no ano passado, no momento da morte do ex-governador de Pernambuco. A viúva de Campos, no entanto, não comenta o assunto e segue, sem muitas aparições públicas, cuidando da família.

Em paralelo, a prima de Campos, Marília Arraes, traça seu próprio destino político. Desafeto da família —foi proibida de ir ao enterro do ex-governador— desde que ambos romperam meses antes do acidente em Santos, Marília, aos 31 anos de idade, já tem uma trajetória respeitável na política recifense: primeira neta de Miguel Arraes, foi eleita pela primeira vez em 2002, aos 24 anos de idade, e esteve em duas secretarias municipais.

No último ano, foi também uma das vozes contrárias mais potentes em relação aos caminhos adotados pelo PSB, partido do qual ainda faz parte (o PSOL, entre outras legendas, já iniciaram conversas com ela).

Crítica das práticas determinadas por Eduardo Campos teve vários ataques, como pichações (“traidora”) nos muros da cidade. Desafetos a parte, Marília avalia que a ausência do primo em Pernambuco modificou profundamente a política. “Não existia oposição. A figura dele supria tudo, até pela busca da unanimidade, pela postura e posição de se impedir o crescimento de novos quadros”, disse ela ao EL PAÍS.

Pernambuco vê agora eclodir problemas derivados da crise econômica, alguns adiados pela comoção com a morte de Eduardo. Um deles é exatamente a crise de falta de lideranças.