Justiça mantém sigilo sobre a inflação na Venezuela

Chavismo controla os tribunais e o órgão encarregado de divulgar os dados

O presidente venezuelano, Nicolás Maduro.
O presidente venezuelano, Nicolás Maduro.EFE

O Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) da Venezuela rejeitou uma ação movida por uma ONG que pretendia obrigar o Banco Central da Venezuela (BCV) a divulgar a taxa de inflação ao público. A decisão foi revelada na sexta-feira.

Esse dado inofensivo costumava ser divulgado mensalmente, mas atualmente o índice de preços ao consumidor (IPC) se tornou um segredo de Estado na Venezuela. A última divulgação oficial da inflação foi em fevereiro passado, quando o BCV registrou uma variação de 5,6% com relação ao mês anterior. Desde então, essa instituição controlada pelo Executivo, assim como o TSJ, já está há seis meses sem publicar os índices.

Mais informações

O regime chavista costuma aplicar um torniquete na circulação de estatísticas oficiais que, conforme considera, possam avivar o debate político e alimentar a “conspiração midiática” que denuncia regularmente. É assim, por exemplo, com os índices de homicídios e criminalidade desde 2005, e com os de epidemiologia após surtos cíclicos de dengue ou chikungunya.

Em julho, a organização Transparência Venezuela, associada à Transparência Internacional, apresentou ao TSJ uma “ação por abstenção” contra o presidente do Banco Central, Nelson Merentes, um matemático que foi ministro da Economia nos gabinetes de Hugo Chávez e Nicolás Maduro. A ação acusava Merentes de “descumprimento da obrigação quanto à publicação das principais estatísticas econômicas do país”.

Entretanto, em sua decisão 935 do último dia 4, a Sala Político-Administrativa do Tribunal Supremo arquivou o processo, alegando que os autores da ação não tinham feito suficientes diligências para obterem os dados solicitados do Banco Central. A ONG, em nota distribuída à imprensa na sexta-feira, disse que a decisão não é surpreendente, “mas nem por isso menos revoltante”.

Assim, o mutismo oficial a respeito da inflação, um dos flagelos que mais mortificam o cotidiano dos venezuelanos, recebe uma aprovação judicial. Maduro, nas raras vezes em que se refere fenômeno, o inclui entre as armas da guerra econômica que a “burguesia especuladora” trava contra a revolução, segundo o Governo. A inflação vai adquirindo na Venezuela uma espécie de categoria sobrenatural: sentem-se seus efeitos, mas não se pode determinar –talvez nem sequer compreender– sua existência.

A mais alta do mundo

Ainda segundo as cifras oficiais, a inflação da Venezuela estava entre as mais altas do mundo no fim de 2013 (56%) e 2014 (68,5%). Neste ano, deve atingir índices típicos da hiperinflação. Como se fossem ofertas em um leilão, e diante da falta de cifras precisas, diversos porta-vozes aventuram suas estimativas. O Bank of America calculava em julho que o ano fechará na Venezuela com uma inflação de aproximadamente 142%; a qualificadora JP Morgan, em seu mais recente relatório divulgado nesta terça-feira pelo jornal El Nacional, de Caracas, prognostica, “diante da ausência de relatórios oficiais”, um aumento de 140% nos preços. O economista Steve Hanke, catedrático da universidade Johns Hopkins, de Maryland (Estados Unidos), advertia em julho que o processo inflacionário na Venezuela tinha ingressado em “uma espiral de morte” e que a elevação real do custo de vida nos últimos 12 meses atingia 615%.

Em junho, o ministro do Planejamento e Comércio, Ricardo Menéndez, sabatinado no Comitê de Direitos Culturais, Econômicos e Sociais das Nações Unidas, em Genebra, admitiu que a inflação até aquele mês acumulava, desde janeiro, alta de 60%. Entretanto, ao voltar a Caracas negou ter citado essa cifra.

Mais informações

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: