Desligou-se a câmera, foi-se o ativista

O fotógrafo Rubén Espinosa mudou hábitos e nunca contou o problema a seus pais

Rubén Espinosa, em Jalapa em janeiro de 2014.
Rubén Espinosa, em Jalapa em janeiro de 2014.STRINGER/MEXICO (REUTERS)

Um dos primeiros trabalhos de Rubén Espinosa no estado mexicano de Veracruz foi tirar fotos de Javier Duarte. O então candidato do PRI a governador do Estado contratou em 2009 o jovem fotojornalista para aquela campanha eleitoral que ganhou com folga. Tinha 25 anos. Mas logo abandonou seu posto de fotógrafo para envolver-se no perigoso caos do jornalismo local.

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Espinosa teve de sair de Xalapa, capital de Veracruz, seis anos depois, em junho do ano passado. Sentiu que sua vida corria perigo. Desconhecidos armados tinham começado a segui-lo. Montavam guarda na porta de sua casa, tiravam fotos dele. Disse que chegou a sentir a respiração deles a um palmo. Denunciou as ameaças e apontou diretamente para o homem que um dia fotografou, Javier Duarte. A saída ia ser um parêntesis. Tinha pensado em voltar a Veracruz. Ali tinha deixado a namorada, seus amigos, sua casa e, com a pressa de proteger-se no Distrito Federal, até o cachorro. Seu corpo apareceu na sexta-feira, dia 31 de julho, com dois tiros no peito e um na cabeça, junto com outras quatro mulheres assassinadas, em um apartamento na cidade onde pensou que estaria a salvo.

Seu corpo apareceu na quinta-feira, dia 31 de julho, com dois tiros no peito e um na cabeça, ao lado de outras quatro mulheres assassinadas

Na capital se sentia mais protegido, menos vulnerável. Tinha voltado para a casa dos pais, em Santa Fé, uma região abastada, e alguns amigos jornalistas tinham tecido uma rede de apoio para envolvê-lo. “Estava sempre muito nervoso, todos percebemos. Não tinha baixado a guarda. Estava conseguindo ajuda psicológica”, conta uma amiga. “Continuava muito tenso e era difícil para ele relaxar. Pensava que todo mundo o estava vigiando. Ele mesmo chegou a pensar que estava paranoico.”

Espinosa tinha contatado organizações de direitos humanos do DF e já estava em marcha uma campanha de denúncia sobre a situação limite que sofre a imprensa em Veracruz, onde 15 jornalistas foram mortos nos últimos quatro anos. Entendia que, ao se tornar visível, ficaria mais protegido.

Esse permanente estado de alerta fez com que escondesse de sua família os motivos de sua volta para casa. “Dizia que só tinha contado à irmã, mas queria que os pais não soubessem de nada.” Poucas vezes dormia três noites seguidas na mesma casa e mal usava o telefone celular. Segundo o relato de seus amigos, na quinta-feira à noite tinha ido à casa de uma amiga de Veracruz, onde passou a noite. Nadia Vera, integrante do movimento estudantil de Xalapa, foi uma das cinco vítimas. A investigação do homicídio por parte da Procuradoria do DF está envolta em hermetismo no momento.

Trabalhava como freelance para duas agências e o jornal semanal Proceso. Mas desde sua volta ao DF, seu ganho tinha minguado

Seus amigos lembram-se dele como um garoto tranquilo, amante da fotografia e com uma forte consciência social. Gostava dos lendários grupos espanhóis de música punk dos anos 90. “Vinha às vezes com camisetas de La Polla Records, Eskorbuto, essas coisas”.

Como fotojornalista freelance, Espinosa era especializado na cobertura de movimentos sociais e protestos estudantis. Veracruz se transformou em 2012 em um dos focos mais ativos do movimento universitário #YoSoy132. Encarnou na figura do governador Duarte suas reclamações de mais qualidade democrática nas eleições federais daquele ano, que coincidiram também com o assassinato da jornalista veterana Regina Martínez, que investigava as supostas conexões entre as máfias do narcotráfico e o poder político local.

“Rubén não cobria temas de segurança ou de crime organizado, exceto por alguma nota de atualidade. Mas trabalhava nos protestos sociais. Além disso, desde os primeiros assassinatos de colegas, participou ativamente das mobilizações de jornalistas para exigir justiça. Tinha se tornado um fotografo incômodo para o governo. Nos últimos tempos não o deixavam sequer entrar nos eventos oficiais”, explica Pedro Valtierra, diretor da agência mexicana de fotojornalismo Cuartoscuro, uma das empresas com as quais Espinosa colaborava.

Trabalhava também para uma agência local de Veracruz e para o jornal semanal Proceso. Mas, desde a sua volta ao DF, seus ganhos tinham minguado. “Estava angustiado com os problemas econômicos. Os cerca de 5.000 pesos por mês não eram suficientes. Queria voltar a Xalapa, mas ao mesmo tempo estava procurando trabalhos por aqui”, conta outro amigo fotógrafo. “Era tecnicamente bom, com muito entusiasmo pelos assuntos. Na semana passada ligou para a agência para pedir trabalho. Tínhamos ficado de nos ver e fechar os detalhes. Estava pronto para começar a trabalhar”, acrescenta Valtierra.

Há uma foto de Espinosa que as pessoas à sua volta destacam como paradigmática. É uma capa de fevereiro de 2014 da revista Proceso, caracterizada por sua linha editorial contra o poder político mexicano. Javier Duarte aparece em primeiro plano, de perfil, camisa branca, quepe azul de policial. Olha para a câmera. Veracruz: estado sem lei era o título.

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