‘Highway 61 Revisited’, de Bob Dylan: uma nova consciência

Poucos discos têm uma arrancada como o golpe de bateria em 'Like a Rolling Stone'

Bob Dylan, em 1965.
Bob Dylan, em 1965.

A recente turnê de Bob Dylan pela Europa maravilha a desafiante juventude que o jovem Zimmerman viu preservada para sempre na capa —obra do fotógrafo David Kramer— de Highway 61 Revisited, seu sexto álbum e o primeiro totalmente elétrico.

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Poucos LPs têm uma arrancada tão crucial como esse golpe do baterista Bobby Gregg no início de Like a Rolling Stone, candidata a melhor composição de sua época ou de qualquer outra, tão abismal em seu desdém –para com a musa de Andy Warhol, Edie Sedgwick, mas também para consigo mesmo depois de entediar-se do dogma folk– que Greil Marcus precisou de todo um livro para eviscerá-la e observar em seus pedaços, como nas folhas de chá no fundo de uma xícara, a vertigem de uma época convulsionada. “Um toque de bateria que soa como um disparo de pistola”, escreve Marcus. “Em Like a Rolling Stone a força de atração do passado era tão forte como a força de atração do futuro, e este era fortíssimo”. O órgão casual de Al Kooper, o sopro de blues impressionista, o eco do Studio A da Columbia Records, a torrencial letra e essa pergunta universal no estribilho –como alguém se sente quando não encontra o caminho de casa– a tornaram uma dessas peças que nunca faltam. Depois aparece a solene diatribe contra os meios de comunicação que o interpretam mal e pervertem tudo, em Ballad of a Thin Man, conduzida pelo trepidante piano do próprio Bob, aqui venenoso como escorpião encurralado. Uma réstia de atípicas, e tagarelas baladas equilibrava o conjunto: a cadenciada It Takes a Lot to Laugh, it Takes a Train to Cry e sua oxidada gaita, a melodiosa Queen Jane Approximately, a desolada Just Like Tom Thumb’s Blues… E a verborreia final que vai vomitando Desolation Row, onze minutos de entropia lírica, com guitarra espanhola pontuando o avanço até nenhum lugar.

"Foi a via principal do country blues, começa onde eu comecei’", esclareceu Dylan sobre a estrada que dá título ao álbum. "Meu lugar no universo, sempre senti que a levava no sangue". Apesar do substrato rural, Highway 61 Revisited transborda culto e referências, aguerrido e sinuoso. Iguala a cantora de blues Ma Rainey a Beethoven, cita Jack o Estripador e Dalila na mesma letra, Einstein e Nero, Ofélia e Romeu, T.S. Eliot e Ezra Pound. As alegorias se reviram tal qual uma enxurrada de folhas levadas pelos ventos outonais, enquanto a aguda guitarra de Michael Bloomfield impõe o estigma rock and roll à exaurida matriz do folkie criado nas catacumbas do Greenwich Village.

A arrancada de uma nova era, uma nova consciência.

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