“Se não atuarmos rapidamente, a zona do euro deixará de existir em 10 anos”

"Ser de esquerda social-democrata é poder modernizar a economia”, diz Macron

O ministro de Economia francês, Emmanuel Macron, nesta quinta-feira em seu escritório.
O ministro de Economia francês, Emmanuel Macron, nesta quinta-feira em seu escritório.ERIC HAJZ

Emmanuel Macron (Amiens, 1977), titular da Economia, é o ministro mais jovem do Governo francês e provavelmente o mais brilhante, mas também o mais controvertido. Os críticos do Partido Socialista o tacham de “liberal” por sua lei para modernizar a economia, aprovada definitivamente por decreto na quinta-feira. Nesta entrevista, feita em seu escritório algumas horas antes de ele partir para uma visita à Espanha, afirma que ele está empenhado em reformar e influir na “transformação ideológica” da esquerda.

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Pergunta. Depois de 11 meses como ministro e com apenas 37 anos, o senhor decidiu continuar na política?

Resposta. Gosto do que faço, que é promover mudanças. Esta etapa me dá a oportunidade de mudar linhas de trabalho, de reformar e também de tentar uma renovação ideológica da esquerda na Europa. Estou interessado numa abertura, numa modernização, numa transformação ideológica da esquerda.

P. O Partido Socialista está mudando?

R. Assim espero.

P. De social-democrata para social-liberal?

R. Espero que se torne social-democrata.

P. Seus críticos dizem que o senhor é liberal.

R. Os rótulos importam pouco. E são indiferentes para mim. Assumo plenamente essas coisas. Não há por que ser ambíguo. O liberalismo político é um elemento da esquerda. A esquerda é o partido da emancipação e da liberdade em coordenação com a solidariedade. Senão a esquerda se torna um partido conservador.

P. Como descreveria a situação na Europa?

R. A Europa vive um momento de verdade histórica. Precisamos fazer reformas. Por nossos países e pela Europa. Na França, logo não haverá uma política europeia construtiva de alto nível. É o momento da verdade porque a zona do euro revela agora as contradições que foram aceitas há dez anos.

P. As contradições da moeda única.

R. Sim. Compartilhamos uma moeda enquanto as divergências econômicas se ampliavam. Nossas economias se afastaram tanto quanto nossos povos. Desde o não francês e holandês à Constituição europeia há dez anos, não houve avanços importantes na UE. A crise grega é o sintoma de um problema muito mais profundo. É o sintoma de que a zona do euro não tem meios para chegar ao final. Não criou mecanismos de solidariedade que devem acompanhar a existência de uma zona monetária. É um projeto político que ficou só na zona de câmbio. Estamos pondo em grande risco a zona do euro. A saída da Grécia não seria apenas um acontecimento econômico, mas político. Não fazer todo o possível para que a Grécia se mantenha na zona do euro é aceitar um retrocesso na Europa.

P. E como o Syriza administrou o problema?

R. Há uma visão romântica na França. O discurso da solidariedade deve vir acompanhado do discurso da responsabilidade. Temos que chegar às raízes, à origem do problema da zona do euro. Por isso, fiz propostas para o ministro alemão Sigmar Gabriel. Propusemos caminhos. É preciso sobretudo ter uma agenda de convergência econômica, fiscal, de mercado de trabalho, um modelo social, políticas de solidariedade...

P. O senhor prefere uma Europa em duas velocidades.

R. Já existe, mas proponho uma Europa com um projeto duplo, mais do que duas velocidades. E acrescento que o status quo da zona do euro é insustentável. Não tomar atitudes é aceitar que a zona do euro deixe de existir em dez anos. A discussão tem de ser feita democraticamente. Se não atuarmos rapidamente, a zona do euro se dissolverá. Ou vamos mais longe ou tudo vai desmoronar. O status quo e a ambiguidade estão nos levando à demolição da zona do euro.

P. A França exerce atualmente o peso que lhe corresponde na União Europeia?

R. O presidente Hollande fez propostas importantes na primavera de 2013. A França tem que desempenhar um papel histórico. Temos que avançar. Precisamos construir com outros países um projeto renovado para além da crise grega.

P. E qual deve ser agora a solução para a Grécia?

R. Um compromisso. Com reformas ambiciosas por parte da Grécia, mas de modo que não se destrua a economia do país, que já sofreu muito em nome da austeridade. A Grécia tem que aprofundar suas reformas estruturais. Mais competitividade não significa mais austeridade. E será necessário aliviar a carga da dívida para não afogar a economia grega. E fazer investimentos importantes, porque serão essenciais para sustentar o crescimento.

P. O senhor apostou de imediato em não romper o diálogo e defendeu um novo Tratado de Versalhes com Atenas.

R. Descartamos esse risco de imediato, e eu disse que se deveria manter aberta a porta da negociação, do diálogo. É necessário para Tsipras e para a Europa. Ganhou o não e Tsipras não foi arrogante. Ele se comportou de modo inteligente ao propor voltarmos para a mesa de negociações. Era importante retomar o diálogo.

P. Mas o senhor também tem sido muito crítico em relação ao Syriza.

R. Sim. O desafio atual é ajudar a Grécia sem provocar a sensação em outros países que se esforçaram, como a Espanha ou Portugal, de que tudo fica mais fácil quando se faz uma queda de braço. Isso é muito importante para mim, e por isso adotei um discurso duro com o Syriza, que nem sempre foi totalmente cooperativo. Sei que o que digo não agrada muitas pessoas, mas creio que o partido cometeu um erro fundamental. Alguns acham que, para defender a Grécia no euro, é preciso considerar Tsipras um herói formidável. Não é o caso.

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