Cinema

Cinema brasileiro que fala ‘portunhol’

Afim às coproduções latinas, Vânia Catani produz o novo filme de Selton Mello 'O filme da minha vida' é adaptação de um livro do chileno Antonio Skármeta ao cinema

Selton Mello e Vânia Catani no set de 'O filme da minha vida'.
Selton Mello e Vânia Catani no set de 'O filme da minha vida'.Joba Migliorin

O Brasil tem feito seus esforços para acasalar o cinema nacional com o do resto da América Latina, lançando inclusive um edital de coprodução exclusivo para países latino-americanos, mas sob lençóis um namoro já acontecia. No caso da produtora carioca Vânia Catani, a relação já leva seus anos e beira o casamento, com as várias coproduções latinas que tem a sua da Bananeira Filmes no currículo.

A mais recente delas é por enquanto apenas uma coprodução afetiva (ainda não financeira) com o Chile, mas mostra que Vânia anda conversando em um fluente portunhol: ela acaba de produzir o novo longa-metragem de Selton Mello como diretor, cujo roteiro é uma adaptação do livro Um pai de cinema, de Antonio Skármeta – um dos escritores chilenos mais conhecidos, autor do livro que inspirou o famoso O carteiro e o poeta.

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A própria relação entre Vânia e Selton vem de longa data. Os dois se conheceram quando ela assumiu a produção de A festa da menina morta (2009), o primeiro filme dirigido por Matheus Nachtergaele, conhecido sobretudo por suas atuações – assim como Selton, de quem ele se aproximou quando os dois protagonizaram na TV a série O auto da compadecida. “É o terceiro projeto meu com a Vânia, depois dos meus longas Feliz Natal e O Palhaço. Temos uma parceria muito orgânica, bem complementar”, diz o ator-diretor, que ainda fez, detrás das câmeras, três temporadas de Sessão de Terapia para o canal GNT.

O projeto – intitulado O filme da minha vida – nasceu de uma iniciativa do próprio Skármeta. Depois de emplacar no cinema filmes de sucesso baseados em suas obras, entre os quais o maior é O carteiro e o poeta (dirigido pelo inglês Michael Radford e inspirado em Ardente Paciência, indicado a cinco categorias do Oscar em 1995), o escritor procurou Selton Mello dizendo que seu sonho era que uma de suas histórias virasse filme no Brasil. E que queria associar-se a ele para isso. “Ele ama o país e inclusive já escreveu algumas canções brasileiras. O Palhaço, para ele, tinha uma sensibilidade parecida à de Um pai de cinema, e por isso ele me procurou sugerindo o livro”, conta Selton.

Skármeta, além de ter fama de simpático e bonachão (ele fez uma participação especial em O filme da minha vida e, segundo o diretor, virou ídolo da equipe), é prolífico. Em 2014, sua peça teatral O Plebiscito foi levada às telas em No por um talento do cinema chileno, Pablo Larraín (Tony Manero, Post Mortem), com a participação do ator mexicano Gael García Bernal. O filme é sobre a campanha feita para promover o plebiscito realizado em 1988 no Chile, cujo objetivo era endossar o Governo de Augusto Pinochet, mas que resultou no fim da ditadura chilena com a vitória do não.

Selton Mello dirige o ator francês Vincent Cassel em 'O filme da minha vida', filmado na serra gaúcha.
Selton Mello dirige o ator francês Vincent Cassel em 'O filme da minha vida', filmado na serra gaúcha.Paula Huven

Quando Selton foi procurado por Antonio Skármeta e sentiu que tinha nas mãos a ideia que queria para mais um longa, imediatamente acionou Vânia: “Admiro como ela luta para fazer um cinema de qualidade no Brasil, trabalhando com gente nova e estreitando laços com a região”. A produtora, claro, topou a nova colaboração. “A cada filme, nossa parceria fica mais sólida. E é muito bacana trabalhar com diretores que atuam. Eles têm uma peculiaridade na relação com os atores. É como se conhecessem o segredo do outro lado”, ela diz.

Vânia, que no momento está envolvida na realização de cinco filmes nacionais e outras cinco coproduções latinas, conta que “subiu nesse barco” latino-americano por acaso: “Quando comecei a viajar a festivais, achava curioso que nós, brasileiros, éramos tratados como latinos e incluídos no grupo dos argentinos, mexicanos, uruguaios... sem que nós mesmos nos conhecêssemos bem. Achava surreal conversar em inglês com um argentino e então decidi assumir essa turma de fato como a minha”.

A abertura dessa porta rendeu à Bananeira Filmes uma parceria com a argentina Lucrecia Martel (O pântano, A menina santa e A mulher sem cabeça), provavelmente a cineasta mais respeitada da América Latina hoje. A produtora realiza, com participação majoritária (ao lado da produtora argentina Rei Cine e da espanhola El Deseo, de Pedro Almodóvar), o novo filme de Lucrecia: Zama, uma adaptação do livro homônimo do escritor argentino Antonio di Benedetto. Da equipe técnica e artística, participam vários brasileiros, como o ator Matheus Nachtergaele.

Pode parecer um emaranhado aleatório de projetos, mas no fim todas as pontas desse novelo se enlaçam para formam um tecido cultural que junta o Brasil à vizinhança. Não à toa, Selton é admirador declarado de Martel: “Sou um grande fã. Conheci a Lucrecia recentemente, e já falamos sobre fazer coisas juntos”, diz, revelando que, se os planos se derem, levará consigo, de novo, Vânia Catani e Bananeira Filmes. Já era hora de alguém inaugurar um cinema brasileiro que fala portunhol.

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