Os 50 dias e os 44 crimes que mudaram a vida de João Vaccari

Dirigente arrasta PT e sua própria família para centro do escândalo de desvios na Petrobras

São Paulo -
João Vaccari na CPI da Petrobras no dia 9.
João Vaccari na CPI da Petrobras no dia 9.Luis Macedo (Ag. Câmara)

De discreto tesoureiro do PT  a denunciado por 44 crimes de lavagem de dinheiro. De morador de uma aconchegante casa de classe média em São Paulo a residente em uma cela de seis metros quadrados na superintendência da Polícia Federal em Curitiba. Esse é o resumo dos últimos 50 dias de João Vaccari Neto, o dirigente que arrastou oficialmente o partido de Dilma Rousseff e Luiz Inácio Lula da Silva para o escândalo da Lava Jato.

Tido como um leal chefe da sigla que há 12 anos governa o Brasil, Vaccari é acusado de ser um dos principais operadores do esquema de desvio de dinheiro da Petrobras, conforme duas denúncias apresentadas pelo Ministério Público Federal. Nesta segunda-feira, ele foi acusado formalmente pela Procuradoria da República de 24 crimes de lavagem de dinheiro. No mês passado, já havia se tornado réu por outros 20 delitos.

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Ao ser preso, Vaccari não levou somente o PT para o centro do escândalo, mas também uma cunhada dele, Marice Correia Lima. Ela chegou a ficar detida por uma semana sob a suspeita de ajudar o petista em movimentações ilegais. Defensores dela afirmarem que a mulher que aparece em imagens do circuito interno de um banco depositando dinheiro em uma das contas correntes investigadas não seria Lima, mas Giselda, a irmã dela esposa de Vaccari. Ela foi libertada depois que o juiz Sergio Moro admitiu que "aguarda a elucidação completa da questão" sobre o vídeo.

Afastado da tesouraria do partido após ser preso na Lava Jato, o petista também responde pelos crimes de corrupção ativa e passiva e por formação de quadrilha. Até a detenção dele, os caciques petistas costumavam dizer que não havia nada contra seu tesoureiro e que o partido não havia participado de nenhum esquema criminoso para desviar recursos da maior petroleira brasileira. Na CPI que investiga a Petrobras, o próprio dirigente negou que tenha pedido dinheiro para diretores da Petrobras repassarem recursos para o seu partido. Mas as investigações mostram o contrário.

De acordo com as denúncias, que ainda serão julgadas, Vaccari seria o responsável direto por desviar 7 milhões de reais da Petrobras. Na primeira acusação, outras 24 pessoas respondem pelo crime. Na segunda, são mais dois: o ex-diretor da Petrobras Renato Duque (um indicado do PT na petroleira) e Augusto Mendonça, empreiteiro da Setal Óleo e Gás, que fez o acordo de delação premiada e confessou os crimes. O valor ainda pode ser maior, já que a própria empreiteira admite que a corrupção corroeu cerca de 6 bilhões de reais de seu orçamento no ano passado.

Neste caso, denunciado nesta segunda-feira, os desvios teriam ocorrido por meio de uma gráfica. O dinheiro, de acordo com a acusação, fora pago por Mendonça para Duque que repassou os valores para o PT, por intermédio de Vaccari.

Para tentar reagir à crise, o PT anunciou logo depois da prisão de Vaccari que proibirá a doação de empresas para campanha políticas _é a segunda vez em menos dez anos que o financiamento ilegal de campanha aparece no coração de dois escândalos —antes da Lava Jato, foi o mensalão.

Pluripartidário

Apesar do destaque dado aos petistas, segundo o procurador Deltan Dallagnol, o esquema era pluripartidário. Desde o início do ano, já foram denunciados mais de 60 dirigentes, empreiteiros, doleiros e lobistas ligados também ao PP e ao PMDB. “A partidarização do olhar sobre as investigações prejudica os trabalhos, porque tira o foco do que é mais importante, que é a mudança do sistema, o qual favorece a corrupção seja qual for o partido”, afirmou Dallagnol em nota.

Mesmo após o início das investigações, os acusados continuaram praticando os crimes

Um fato que chamou a atenção dos investigadores é que, mesmo após o início das investigações, há quase um ano, os acusados continuaram praticando os crimes. Por essa razão, os procuradores agora defendem a permanência de ao menos 17 dos acusados na cadeia. “Caso sejam soltos, estarão em posição de continuar a praticá-los, pois são donos e dirigentes de empresas com grandes contratos com o poder público, ou mantêm milhões em propinas no exterior que poderão ser escondidas ou gastas”, explicou o procurador da República Roberson Pozzobon.

Além de correrem o risco de ficarem presos (pelo período de três a dez anos), Vaccari, Duque e Mendonça, poderão ter de restituir o valor que teriam desviado e ainda pagar uma indenização de 4,8 milhões de reais, segundo o Ministério Público.

Procurado, Luiz Flávio D’Urso, o advogado de Vaccari, não atendeu aos pedidos de entrevista feito pela reportagem. Em nota, ele informou que nenhuma prova foi apresentada quanto à participação de seu cliente no esquema e que ele só tratou de doações oficiais ao PT, conforme prevê a legislação eleitoral. Os defensores de Duque e de Mendonça não foram localizados.

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