Tensão Política

Aconselhada por seus ministros, Dilma ensaia discurso de humildade

Após protestos, e com pouca margem de manobra, mandatária se diz aberta ao diálogo

Dilma Rousseff durante evento no Palácio do Planalto.
Dilma Rousseff durante evento no Palácio do Planalto.EVARISTO SA / AFP

"Presidenta, a senhora tem de vestir as sandálias da humildade do papa Francisco." A sugestão feita por um ministro a Dilma Rousseff (PT) numa reunião de análise dos protestos de domingo foi acatada por ela e demonstra bem o momento pelo qual o seu Governo passa. Sem ter pão a oferecer, sem ter dinheiro a entregar, o que resta à gestão é se abrir ao diálogo, analisou um dos presentes ao encontro entre Rousseff, dez ministros e o vice-presidente Michel Temer. Humildade, convergência e diálogo foram exatamente os termos que a presidenta Rousseff e dois de seus 39 ministros usaram nesta segunda-feira para avaliar os protestos que reuniram centenas de milhares de pessoas por todo o país.

Devemos repudiar sempre aqueles que acreditam no quanto pior melhor

“Devemos repudiar sempre aqueles que acreditam no quanto pior melhor, tanto em política como em economia. Quero dizer que vamos fazer os ajustes [econômicos] necessários, dialogando com todos, numa posição de humildade, mas com firmeza, para que possamos chegar a um bom resultado”, disse a petista na tarde de segunda-feira durante um evento em que ocorreu a sanção do novo Código de Processo Civil.

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Mais cedo, Rousseff escalou um ministro petista, José Eduardo Cardozo (Justiça), e um peemedebista, Eduardo Braga (Minas e Energia), para falarem com o batalhão de jornalistas que aguardava um pronunciamento no Palácio do Planalto. A ideia era passar um tom de unidade, depois de diversos confrontos entre PT e PMDB nas últimas semanas. Ao responder uma das perguntas dos repórteres, Cardozo agradeceu seu colega Braga por complementar sua explicação dizendo aos risos: “Vejam que há uma harmonia entre PT e PMDB”. Ambos também usaram um termo pouco frequente na gestão petista até agora, a de que existe uma “coordenação do Governo”.

Nos últimos dias, atendendo a pedidos de seu antecessor e padrinho político, Luiz Inácio Lula da Silva, e de vários aliados, a presidenta decidiu ouvir seus ministros antes de fazer pronunciamentos importantes ou tomar decisões que interfiram na economia ou na relação dela com o Congresso Nacional. A avaliação do Governo é que as manifestações do fim de semana foram menos traumáticas do que as de junho de 2013. As razões: foram pacíficas e atingiram o Governo de maneira geral. "Não pediram a cabeça de ninguém. Só a da presidenta. E como não há argumentos jurídicos, o impeachment não deve ocorrer", afirmou um participante do encontro. Principalmente por essa razão, Rousseff decidiu que ainda não é o momento de se fazer uma minirreforma ministerial, algo que estava sendo discutido internamente.

"Valeu a pena"

Em seu discurso à tarde, Rousseff disse ainda que o país aprendeu a conviver com manifestações democráticas, algo que não ocorria no período em que ela começou sua atuação política, na ditadura militar (1964-1985). “Nunca mais no Brasil vamos ver pessoas que, ao manifestarem sua opinião, seja contra quem quer que seja, inclusive a Presidência da República, possam sofrer quaisquer consequências”, afirmou a ex-presa política que enfrentou tortura na cadeia. "Ontem, quando eu vi centenas e milhares de cidadãos se manifestando, não pude deixar de pensar que valeu a pena lutar pela liberdade, valeu a pena lutar pela democracia. Este país está mais forte que nunca", disse, com voz embargada.

Ah, vocês [jornalistas] querem uma confissão de erros?

A mudança de posicionamento do Governo é semelhante a que ocorreu em junho de 2013, quando o país foi tomado por uma série de protestos populares. Na ocasião, ela também prometeu uma série de medidas anticorrupção e demonstrou que estaria mais aberta ao diálogo. O pacote daquela vez não chegou e a intenção de fazer reforma política com consulta às urnas também não prosperou. Agora, ela diz que o enviará até o fim desta semana ao Congresso Nacional com uma série de medidas legislativas. Há ainda uma lei anticorrupção que espera pela assinatura da presidenta desde o ano passado. Nesta segunda-feira, após discursar, a presidenta concedeu uma rápida entrevista coletiva. Fez um breve pronunciamento aos jornalistas e quando abriu os microfones aos questionamentos declarou: “Pronto, podem malhar”.

Rousseff defendeu os ajustes econômicos que está tentando implantar e resistiu a fazer um mea-culpa sobre sua gestão. Disse que pode ter cometido algum "erro de dosagem" na condução da política econômica e admitiu apenas uma falha de seu Governo, o de não controlar as matrículas no Programa de Financiamento Estudantil (FIES). “Ah, vocês [jornalistas] querem uma confissão de erros?", perguntou a presidenta. E respondeu na sequência: "Vou te dizer onde. No FIES. O Governo cometeu um erro, porque passou para o setor privado o controle dos cursos”.  Desde o início deste ano programa está sendo reformulado.

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