Republicanos enfatizam seu perfil conservador para atrair as bases

Aspirantes à Presidência seguem estratégia arriscada em um Estados Unidos mais diverso

Jeb Bush durante sua intervenção na conferência CPAC.
Jeb Bush durante sua intervenção na conferência CPAC.K. LAMARQUE (REUTERS)

Os aspirantes republicanos à Casa Branca embarcaram em uma disputa para demonstrar quem é o menos moderado e mais radical. “O extremismo em defesa da liberdade não é um vício. E a moderação em prol da justiça não é uma virtude”. A frase de Barry Goldwater, um dos fundadores do movimento conservador moderno, ressoa neste início de um processo que, no verão de 2016, levará à nomeação de um candidato do Partido Republicano para a sucessão do democrata Barack Obama na Casa Branca.

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A corrida para demonstrar quem é mais conservador não é nova. Quem vota nas primárias são as bases do partido, mais engajadas ideologicamente que o conjunto do eleitorado. E os candidatos se esforçam para satisfazê-las. Mas desta vez os republicanos estão tendo que se equilibrar na tênue fronteira entre o radicalismo destinado a conquistar os ativistas mais engajados e a moderação necessária para atrair um país em processo de mudança: mais diversificado, menos branco e mais distante dos dogmas conservadores.

As tensões da direita norte-americana têm aflorado estes dias na CPAC, a conferência anual da União de Conservadores Americanos, que abarca várias organizações de direita. Realizado em um hotel em National Harbor (Maryland), perto de Washington, o encontro marca o pontapé oficioso de uma campanha sem candidatos oficiais mas com uma saturação de pré-candidatos.

A maioria dos aspirantes – dos senadores Rand Paul e Marco Rubio ao governador do Wisconsin, Scott Walker, e ao ex-governador Jeb Bush – desfila pela reunião para testar suas mensagens, cortejar os simpatizantes e reivindicar suas credenciais conservadoras. Existe um desequilíbrio entre o farto terreno republicano e o democrata, onde a ex-secretária de Estado, ex-senadora e ex-primeira-dama Hillary Clinton se apresenta como a candidata quase inevitável.

Phyllis Schlafly é o que o movimento conservador tem como mais próximo de uma rainha-mãe. Na primeira fileira do partido há meio século, desde que Goldwater disputou sem êxito a presidência contra Lyndon B. Johnson, Schlafly liderou as batalhas contra os infiltrados comunistas, contra o feminismo, contra os desvios da ortodoxia. Schlafly, de 90 anos, é celebrada como uma pioneira. Conversando entre um discurso e outro, ela disse que ainda não sabe quem é seu candidato favorito, apesar de ver com bons olhos Scott Walker, o homem do momento. Ela, no entanto, sabe bem quem não quer ver candidato: Jeb Bush. Irmão e filho de presidentes, Bush é identificado com a ala pragmática do partido. “Não precisamos de uma monarquia”, afirmou Schlafly. “Não acreditamos no sistema britânico da primogenitura. Já tivemos dois Bushes”.

Grover Norquist, presidente da organização Americans for Tax Reform (“Americanos a favor da reforma fiscal”), é outra voz de peso na direita. Desde os anos oitenta, Norquist vem obrigando a maioria dos congressistas e presidenciáveis republicanos a firmar um juramento para não aumentar impostos. Quem se desviava da ortodoxia, arriscava-se a atrair a ira de Norquist.

“Precisamos de um candidato sólido, alguém que tenha ganho eleições, com experiência executiva e que possa falar com todo o país”, disse Norquist nos corredores da conferência. Casado com uma palestina, Norquist pode ditar regras em matéria fiscal, mas se esquiva de questões como a imigração. Apesar de o Partido Republicano bloquear as tentativas de Obama para reformar as leis de imigração, Norquist está otimista. “A retórica contra os imigrantes desapareceu”, consola-se. E, certamente, a mensagem abertamente xenófoba é mínima. “Nenhum desses rapazes fala assim”.

O risco para o Partido Republicano é se tornar o partido dos brancos. Na conferência conservadora, a presença de negros, hispânicos e asiáticos é irrisória. Este não é o rosto dos EUA do futuro, onde, segundo as projeções demográficas, os brancos deixarão de ser maioria até 2040.

Outro perigo: ceder ao Partido Democrata de Obama e Clinton o monopólio do discurso sobre as desigualdades e a erosão da classe média. O centro de gravidade ideológico está se deslocando e a nova direita adapta o discurso ao país em transformação. O Partido Republicano não quer ser o partido dos ricos e dos empresários. Para um candidato à Casa Branca, reivindicar suas origens de classe trabalhadora é um trunfo.

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