Saída da Petrobras da crise não será rápida nem fácil

Novos rumos da estatal dependem da divulgação de balanço auditado do 3o trimestre Especialistas defendem reforço de agências reguladoras e investimentos no pré-sal

Refinaria da Petrobras em Cubatão
Refinaria da Petrobras em Cubatão

O rebaixamento da classificação de risco da Petrobras pela agência Moody's nesta semana chacoalhou o mercado e levantou dúvidas sobre a capacidade da petroleira de encontrar saídas para o labirinto em que se encontra. Por ora, é possível concluir que a mudança de status deve aprofundar a crise vivida pela estatal e complica o cenário já difícil para a captação de investimentos da companhia. Mais do que isso, abriu espaço para especulações sobre a capacidade do Brasil de se preservar de um eventual contágio do efeito Moody’s. Como a Petrobras é a maior empresa do país, os riscos do Brasil e da estatal possuem certas conexões, de acordo com especialistas. “Ao perder o grau de investimento e passar a integrar a nota do grupo especulativo, a Petrobras terá ainda mais dificuldade para conseguir financiamentos, e pode fazer com que o Governo tente salvar as contas da empresa”, afirma Edmilson Moutinho, economista e professor do Instituto de Energia e Ambiente da Universidade de São Paulo. “No entanto, não quer dizer que necessariamente a estatal rebaixará o país, pois a nota do Brasil está muito mais vinculada à política fiscal que o Governo se comprometeu a aplicar neste ano de 1,2% do PIB”, completa.

Pelo sim pelo não, a equipe econômica do Governo Dilma acelerou as conversas com o Congresso e os anúncios de medidas sinalizando que o ajuste fiscal não vai esperar. Ao mesmo tempo, a presidenta Dilma garantiu que um socorro da União à Petrobras “não é necessário”. O quadro, no entanto, é delicado. No final de setembro de 2014, a dívida na companhia somava em termos brutos 331,7 bilhões de reais e em termos líquidos 246 bilhões. Sem a divulgação do balanço auditado do 3o trimestre, aumenta o risco de calote técnico, que pode ser contestado pelos credores. De acordo com reportagem do jornal O Estado de S. Paulo, o Governo já teria acenado com uma ajuda para a empresa de até 6 bilhões de reais, segundo fonte da cúpula da companhia. A presidenta, no entanto, minimizou a informação. Um dia depois do rebaixamento da Moody’s Dilma chegou a afirmar que a agência tinha “falta de conhecimento” sobre o que está acontecendo na estatal.

Mais informações

O pesquisador Sérgio Lazzarini, do Insper, avalia que não há uma solução rápida nem fácil para a estatal, que trocou de comando há duas semanas. “A medida urgente é divulgar o balanço auditado do 3o trimestre e sinalizar uma composição de um Conselho Administrativo que seja confiável”, afirma Lazzarini. “O novo presidente Aldemir Bendine tem um histórico importante no Banco do Brasil, mas é um gestor aliado com o Governo. Precisamos de mais garantias que a empresa irá continuar, um plano estratégico, e rever a participação no pré-sal”, completa. Ele também defende a utilização de regras claras para a indicação de conselheiros e o reforço das agências reguladoras de cada setor da petroleira.

Na opinião do especialista do Insper, é importante que a estatal deixe para trás o nacionalismo arraigado na empresa e diminua a participação dela como investidora. "Infelizmente, até hoje, domina a velha história que o petróleo é o nosso monopólio. A Petrobras precisa atuar em áreas onde realmente é relevante, como na pesquisa. A competição é importante, quanto mais empresas entrarem em leilões, ficaremos com mais petróleo".

O nacionalismo arraigado do PT também foi responsável por fomentar a cadeia local de fornecedores. Somente empresas instaladas no Brasil podem ser parceiras da companhia. A política, muito celebrada pelo ex-presidente Lula e por Dilma, é alvo de críticas constante, pois seria um fator a mais para engessar o desempenho da Petrobras, além de abrir brechas para a corrupção. Agora, seria a oportunidade para rever essa estratégia.

"Infelizmente, até hoje, domina a velha história que o petróleo é o nosso monopólio. A Petrobras precisa atuar em áreas onde realmente é relevante, como na pesquisa. A competição é importante"

Uma das alternativas seguras, ainda, para o aperto em que se encontra é certamente a venda de alguns ativos. “É preciso focar no pré-sal e vender algumas áreas de produção menos importantes situadas no Nordeste”, afirma Moutinho, da USP.

O professor titular de estruturas oceânicas da UFRJ, Segen Estefen, alerta também para a necessidade de encontrar saídas jurídicas e técnicas para lidar com a crise que já se estendeu a empresas fornecedoras da petroleira. “As grandes empreiteiras que estão no olho do furacão da Operação Lava Jato terceirizam muitos serviços sofisticados de engenharia para empresas menores”, explica Segen. Segundo ele, muitas não estão recebendo encomendas nem pagamento e dificilmente vão sobreviver.

Referência em tecnologia

Para o consultor da área de petróleo, Jean Paul Prates, da Expetro, apesar dos problemas atuais, a imagem da estatal não foi afetada, quando o assunto é tecnologia de ponta na produção de petróleo. A companhia conta ainda com um corpo técnico de referência mundial. "O corpo técnico continua sendo um exemplo de expertise e não apresenta problemas operacionais. A empresa não perdeu seus ativos, continua como líder do mercado, com o mesmo grau de reserva e ritmo de produção”, explica Prates. “A cura [da petroleira] virá quando os culpados envolvidos na Operação Lava Jato sejam punidos, os números se tornem transparentes e nova administração retome credibilidade. É uma crise temporal, que já foi enfrentada por outros países", explica.

Segundo a estatal, a produção de petróleo atingiu em outubro a média de 2 milhões 126 mil barris diários, um novo recorde histórico, superando o anterior, atingido em dezembro de 2010. Outubro, último mês com resultados conhecidos, foi o nono mês consecutivo de crescimento da produção de petróleo da companhia no país.

Para que a produção não seja afetada, na atual conjuntura, devem ser priorizados, ainda, os empreendimentos mais adiantados e os investimentos no pré-sal, explica o coordenador do MBA de Petróleo e Gás da Fundação Getúlio Vargas, Alberto Machado Neto. "Se ela não investe não produz. Uma redução de custo operacional, manutenção, também poderia ser avaliada para enxugar as contas. A estatal tem uma coisa fundamental, que a diferencia de varias outras petroleiras que são as reservas, mas claro que essas também seu prazo de validade”, explica Machado Neto.

Arquivado Em

Recomendaciones EL PAÍS
Recomendaciones EL PAÍS
Logo elpais

Você não pode ler mais textos gratuitos este mês.

Assine para continuar lendo

Aproveite o acesso ilimitado com a sua assinatura

ASSINAR

Já sou assinante

Se quiser acompanhar todas as notícias sem limite, assine o EL PAÍS por 30 dias por 1 US$
Assine agora
Siga-nos em: