José Américo | Secretário nacional de comunicação do PT

“Quanto antes forem conhecidos os políticos na Lava Jato, melhor”

O secretário nacional de comunicação do PT conta que o partido espera com ansiedade a divulgação dos nomes envolvidos no esquema da Petrobras, o que facilitará a defesa dos citados

O secretário nacional de comunicação do PT.
O secretário nacional de comunicação do PT.Victor Moriyama

O secretário nacional de comunicação do Partido dos Trabalhadores, José Américo, chega ao seu gabinete na Câmara Municipal de São Paulo, de onde sairá no próximo mês para assumir uma vaga de deputado na Assembleia Legislativa paulista, senta em sua cadeira e começa a zapear a internet, sintonizada em uma página de notícias. De tempos em tempos, volta a olhá-la, enquanto conversa com o EL PAÍS sobre a atual crise do partido.

Jornalista de formação, ele fala sobre as formas de enfrentar a difícil “batalha da comunicação”, no momento em que o PT é atacado por diversos lados, seja pela acusação de ter recebido propina de contratos da Petrobras por meio de seu tesoureiro João Vaccari Neto, seja pela sucessão de derrotas na Câmara dos Deputados, imposta pelo deputado Eduardo Cunha, do PMDB, partido do vice-presidente Michel Temer.

Pergunta. Como resolver a crise que se instalou no PT?

Resposta. É preciso fazer a ponte com o Congresso, restabelecer a relação com o PMDB. O Governo tem que atender mais os parlamentares e, principalmente, reatar a relação com a nossa base social.

P. O Governo terá que fazer ajustes. Isso não afetará a relação com a base?

R. O PT se preocupa muito com isso. Os ajustes têm como principais pilares o aumento dos juros para segurar a inflação, dos tributos para garantir receita, corte de custeio, de investimentos, de coisas como o Minha Casa Minha Vida. A maioria dentro do partido acha que os ajustes são necessários, mas eles não sustentam a relação com a nossa base social, que é composta pela classe trabalhadora, por pequenos e médios comerciantes, pequenos lavradores, pelo operariado, que dependem de política social, crédito, salário. O PT sempre teve uma força grande porque tem algo fora do Congresso, porque é grande no movimento sindical, grande no movimento popular. Em momentos difíceis, eles não se mobilizam contra o Governo ou até se mobilizam a favor. Temos exemplos muito claros no mundo de situações em que só o ajuste levou ao isolamento de Governos generosos e extremamente bem intencionados.

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Por isso, o PT tem proposto ao Governo a adoção de bandeiras importantes, que dialogam com a nossa base, como a defesa da [redução da jornada de trabalho para] 40 horas, do imposto sobre as grandes fortunas, que pode levar dois, três anos, mas é uma perspectiva. O trabalhador olha e pensa: ‘nós estamos sofrendo, mas eles vão tirar 1% das grandes fortunas para equilibrar as contas’. E também é uma questão de justiça. É preciso ainda abrir a discussão sobre o fator previdenciário, a reforma política, a regulação econômica da mídia. O Governo já está levantando a questão da regulação da mídia. O Ricardo Berzoini [ministro das Comunicações]  abre o debate em abril. Sobre a reforma política, a própria Dilma já falou.

P. Mas ela está sendo encaminhada pela oposição, colocada pelo Eduardo Cunha, que defende o financiamento privado, ao contrário do PT.

R. Para nós, uma das coisas mais importantes na reforma política é a questão do financiamento. O financiamento privado e empresarial é o que está por trás de tudo o que está acontecendo no Brasil. As doações privadas são criminalizadas no nosso caso, no do PSDB não. O fim do financiamento privado poderia vir pelo STF [Supremo Tribunal Federal, que decide se ele é ou não Constitucional], não fosse a demora do ministro Gilmar Mendes.

P. Se a reforma do Cunha for aprovada antes, esse tipo de financiamento vai ser constitucionalizado...

R. Acho que é essa a jogada.

P. E como o PT pretende barrar isso?

R. Com mobilização social. Não significa que a gente vai ganhar. Mas precisa de mobilização social, pressão sob o judiciário

P. E como o PT pretende fazer para levar as pessoas para a rua? Porque a relação com os movimentos sociais já está bastante desgastada...

R. Se você falar hoje, é impossível. Mas, na iminência de se aprovar esse pacote dele, acho que aí eles se mobilizam. Se perceberem que a reforma dele vai ser aprovada, vai dar um quiproquó. Primeiro porque vai dividir a base dele. Ele não tem unidade naquela base. Duvido que ele tenha 200 deputados a favor da proposta dele no Congresso nacional. E, na iminência de aprovar, vai haver mobilização social contra uma proposta autoritária e de descaracterização política.

P. O Lula é essencial nessa mobilização? Ele vai voltar para as ruas?

R. Sim, ele vai voltar. Vai fazer visita aos Estados. Ele vai ter uma programação agora depois do Carnaval em que vai visitar os movimentos sindicais, populares, Governador onde for possível, prefeito. Fazer a chamada disputa política.

P. Todos esses problemas do PT já seriam difíceis em uma situação normal. Mas se tornam piores no momento em que há uma grande investigação em que o partido é mais alvejado. E isso pode piorar agora, quando os nomes políticos envolvidos vão começar a ser citados....

R. Isso é melhor. O problema na Lava Jato é que, independentemente de pegar outros partidos, o PT, que é o Governo, apanha mais. O PT acha que há um direcionamento nas investigações. O Pedro José Barusco Filho [ex-gerente da Petrobras que se beneficiou da delação premiada] disse que começou a roubar no Governo Fernando Henrique Cardoso. Não houve uma única pergunta do delegado ou do Ministério Público dizendo: ‘bom, e lá no Governo Fernando Henrique, como era? Você roubou muito, roubou pouco... Deu dinheiro pra quem?’ Está direcionado. Para nós, enquanto não tiver a exposição de quem é quem na Lava Jato, nós sofremos praticamente sozinhos.

P. Mas quem garante que, seguindo esse argumento, os principais nomes divulgados não serão do PT?

R. Para nós, quanto antes anunciarem os nomes dos políticos e começarem as investigações, definirem quem é indiciado e quem não é, melhor. Porque aí é possível se defender. Hoje não se sabe bem quem é, então o Governo que sai como culpado. Vai ter que investigar gente do PSDB, do PMDB, do PP... e do PT também, se tiver. Aí, há uma personificação, a individualização do réu. Não é mais o Governo. É o fulano, beltrano... Nós achamos que não vai ter envolvimento de ninguém da cúpula do PT. E nós confiamos no João Vaccari Neto [tesoureiro do PT acusado de ter recebido propina]. Ele não pegou nada que não fosse doação legal. Estamos ansiosos para que haja a denúncia. Pode ser atingindo alguém do PT? Pode. E se tiver tipificação de culpa, vai ser punido exemplarmente, conforme disse o presidente do partido Rui Falcão. Quando as acusações estiverem feitas, a nossa avaliação é que vão ser coisas distribuídas. Vai mostrar que [o esquema] tem uma história, que é uma sucessão de fatos de muitos anos e que tem gente de vários partidos envolvida. Vamos poder nos defender de verdade e teremos condições de superar essa pressão que estamos sofrendo.

P. Você acha que a situação do PT já chegou no fundo do poço?

R. Acho que sim. O fundo do poço, pra nós, são as acusações generalizadas, sem provas. Depois vamos poder nos defender. Estamos seguros com o Rodrigo Janot [procurador-geral da República], porque sabemos que se tiver acusação contra o PT, ele vai denunciar. Mas se tiver contra outros partidos, também.

P. É possível que mais partidos estejam envolvidos. Mas o PT fez sua história como o grande defensor da ética, da moralidade política etc. Denúncias como essa não desgastam mais a imagem do PT do que de outros partidos?

R. O eleitor faz uma gradação. Se viesse a atingir a cúpula do PT, sim. Mas não vai atingir.

P. As pesquisas mostram que as pessoas já atrelam o PT com a corrupção e acham que a Dilma sabia do esquema. Há críticas dos próprios petistas, como José Dirceu e Marta Suplicy...

R. Mas o PT ainda elege seus representantes.

P. Mas o número de deputados eleitos caiu.

R. Mas ganhamos a eleição. Em outros anos foi com mais amplitude, mas ganhamos. Se você considerar que a situação econômica não estava boa, que os meios de comunicação estão contra nós e mesmo assim ganhamos a eleição...

P. Mas também porque o PT é uma máquina de destruir candidatos, especialmente pela Internet...

R. Não é uma máquina. Nós fazemos um trabalho nas redes sociais. Temos mil blogueiros relacionados. Nós orientamos essas pessoas. Fizemos mais de 20 oficinas digitais nos últimos anos. Organizamos uma militância digital que nunca foi organizada no mundo. Ensinamos como fazer o blog, o conceito da rede. É uma coisa com a qual o PSDB não se preocupa, por exemplo.

P. E quem subsidia os blogueiros com informações ?

R. A agência PT de notícias, os deputados...

P. E qual o alcance dessa rede?

R. É algo de difícil mensuração. Acho que umas cinco milhões de pessoas.

P. E como vocês mobilizam essas pessoas? Pagam?

R. O PT ainda tem uma militância de caráter ideológico muito forte. Diminuiu em alguns lugares, aumentou em outros, como entre os mineiros, os cariocas. Mas ainda tem essa militância ideológica. Nós organizamos essa militância. Com as redes sociais, você não precisa organizar 100.000 pessoas. Se organizar quatro, cinco, seis mil pessoas é muita coisa.

P. A comunicação hoje está muito descentralizada e vocês se aproveitam disso...

R. E a gente organiza. O PSDB, por exemplo, quando passou a eleição eles acabaram com esse processo. A gente não. Retomamos tudo de novo. Temos dez oficinas preparadas até o meio do ano. Oficina digital e de comunicação, para ensinar assessoria de imprensa também.

P. O PT está tendo dificuldade de trazer os jovens para o partido?

R. Sim, como todos os partidos políticos. O PT, desde a sua fundação, sempre conseguia trazer a juventude. Mas hoje é mais difícil. O jovem se afastou da política e se afastou do PT também. Temos procurado refletir sobre isso, em como continuar empolgando a juventude para trazer ela para dentro do partido. Acho que é preciso uma mudança na forma de organização, ela tem que ser menos burocrática. É preciso haver política para juventude, não só escola técnica e universidades, que são importantes, mas pautas culturais, esportivas, coisas mais lúdicas. Isso é um desafio muito grande. No nosso Congresso, em maio, vamos refletir principalmente sobre isso.

Eleições 2018

P. Há uma teoria de algumas pessoas do PT de que em 2018 talvez fosse o caso do partido entregar o Governo nas mãos de algum aliado, e tentar refazer as bases. O próprio Lula disse que o exercício do poder acaba fragilizando um partido. O que acha?

R. Suponho que esse fosse o sonho do presidente Lula em relação ao Eduardo Campos. Ele ia ser presidente do Brasil um dia e podia ter sido um aliado nosso. Infelizmente morreu. Ele era um nome para o qual, em algum momento, todo mundo poderia convergir. Mas agora não vejo ninguém que pudesse fazer esse papel. E o PT continua com uma força eleitoral muito grande. É organizado, sabe disputar, se movimentar em situações difíceis. É só passear na Parada de Taipas [periferia paulistana].

P. Mas o desempenho na periferia também piorou.

R. Sim, perdemos no Estado de São Paulo. Cometemos erros na campanha. Em São Paulo, o PSDB é muito estabelecido. Mas o Aécio virou pó. Quem poderia derrotar o Aécio daquele jeito? Só o PT. Ele não é mais candidato à presidência. Só será se o governador Geraldo Alckmin desistir. Quem ganhou a eleição aqui foi o Alckmin. Quem permitiu que o Aécio chegasse até onde chegou foi o Alckmin. O Aécio foi abatido no Estado dele [Minas Gerais] no primeiro e no segundo turno. Arrebentou aquele mito que tinham construído, que era produto de uma imprensa mineira dócil.

P. Você fala do Alckmin, que é provavelmente o próximo candidato do PSDB à presidência. O PT em São Paulo erra na oposição ao Alckmin?

R. O PT está rediscutindo como fazer a oposição ao Alckmin. Sabemos que esse trabalho é decisivo para 2018. Porque o Alckmin é o nosso adversário mais forte e consistente politicamente. Não dá para fazer uma oposição meramente institucional. Primeiro porque a nossa oposição diminuiu, temos 20 parlamentares [na Assembleia Legislativa de São Paulo], já tivemos 30. Segundo porque ele tem um apoio muito grande da classe média paulista e da mídia, especialmente no interior, nas rádios. Mas ele tem problemas com os movimentos sociais. É preciso buscá-los para fazer oposição a ele. O movimento que luta pela água, contra o Rodoanel Norte, por habitação, do professorado. Temos que levar o movimento social para a Assembleia e para a porta do Palácio dos Bandeirantes.