Oscar

‘Birdman’ triunfa no Oscar

Filme triunfa com quatro prêmios, incluindo os de melhor filme, diretor e roteiro original ‘Boyhood’ sai com apenas uma estatueta, e ‘O Grande Hotel Budapeste’ leva quatro

Iñárritu, diretor de 'Birdman'.VÍDEO: REUTERS / FOTO: K. WINTER (AFP)

A incerteza terminou, e a vitória tem nome de pássaro. Birdman triunfou na 87ª edição do Oscar, levando quatro estatuetas, sendo três delas para o mexicano Alejandro González Iñárritu, que recebeu os prêmios de melhor filme, diretor e roteiro original para a sua comédia. O longa também ganhou o Oscar de melhor direção de fotografia, dado ao mexicano Emmanuel Lubezki.

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“Quem deu o green card para esse filho da mãe?”, gritou Sean Penn, referindo-se a Iñarritu e ao documento que permite a residência de estrangeiros nos EUA, ao anunciar a vitória de Birdman. “Talvez no ano que vem o Governo imponha algumas regras imigratórias à Academia. Dois mexicanos seguidos, acho isso suspeito”, comentou o Iñarritu, aludindo à vitória de Alfonso Cuarón em 2014 por Gravidade.

O cineasta aproveitou a oportunidade para fazer uma homenagem aos mexicanos que vivem em seu país de origem, dizendo rezar para que consigam “o Governo que merecem”, e nos EUA, para que sejam tratados com o devido respeito em uma nação de imigrantes. Já na sala de imprensa, retomou o tema da sua mexicanidade, ao disparar a um jornalista: “Na sala de imprensa a gente se sente como no México, não preciso falar inglês”. Sobre o comentário de Penn, o cineasta recordou que, durante a filmagem de 21 Gramas, “passava o tempo todo fazendo esse tipo de brincadeira”. “Sean e eu temos esse tipo de [relação] brutal, na qual só a verdadeira amizade sobrevive.”

Birdman na verdade teve uma vitória moral, porque em números empatou com O Grande Hotel Budapeste, filme de Wes Anderson que também levou quatro estatuetas, mas em categorias técnicas (trilha sonora original, desenho de produção, maquiagem e figurino). A outra grande rival da noite, Boyhood, ficou com apenas um prêmio, o de Patricia Arquette como melhor atriz coadjuvante.

Iñárritu por fim conseguiu seu Oscar como melhor diretor, após ter concorrido pela primeira vez com Babel. Sobre o palco, revelou, com humor, a razão da sua vitória neste ano: vestiu “a cueca de Michael Keaton” como amuleto, apesar de ficar um pouco apertada. Na sala de imprensa, recusou-se a revelar se usara a peça durante a cerimônia. O mexicano também recebeu o prêmio de melhor roteiro original e aproveitou para homenagear Michael Keaton outra vez, chamando-o de mestre dos mestres – possivelmente para tentar compensar sua derrota como melhor ator. E Birdman completou sua noite vitoriosa com o prêmio de melhor fotografia dado a Emmanuel Chivo Lubezki, que dedicou seu Oscar ao “extraordinário diretor” Iñarritu, por “sua curiosidade, paixão e amizade”.

Depois do incontestável triunfo da noite, Iñarritu evitava se gabar. “A sociedade está obcecada com a competição, e acho isso horripilante. Odeio. Preferiria que, em vez de haver um ganhador, o Oscar se limitasse a mostrar os melhores trabalhos do ano”, disse ele aos jornalistas. Falou de medos e da vida: “O medo é a camisinha da vida, que não lhe permite fazer o que quer. Em Birdman eu fiz sem camisinha, e a experiência foi real”, declarou, encerrando um dia que ele descreveu como “muito grande” para sua carreira.

Sem surpresas entre os atores

Entre os atores não houve surpresa alguma. Eddie Redmayne levou o Oscar por A Teoria de Tudo, e Julianne Moore por Para Sempre Alice. Redmayne se denominou “o zelador do Oscar” e avisou a sua esposa de que “vem alguém para dividir o apartamento”. Julianne também optou pelo humor, agradecendo à Academia pelos “cinco anos de vida a mais” que, segundo um artigo, todos os ganhadores do Oscar desfrutam. A atriz aproveitou sua vitória para contar um segredo: o primeiro a antever esse Oscar foi seu marido, quando viu Para Sempre Alice ao seu lado na primeira projeção.

Patricia Arquette trocou sua bolsa de mão por óculos e um discurso escrito quando subiu ao palco para receber o prêmio de melhor atriz coadjuvante, por Boyhood. Um prêmio esperado, que veio acompanhado de uma tediosa lista de agradecimentos, mas que terminou colocando a plateia de pé quando Arquette pediu “a igualdade para todas as mulheres”. Seu discurso era muito esperado no tapete vermelho por causa da campanha AskHerMore, que critica o contínuo assédio às atrizes com perguntas que se limitam a tratar da procedência do vestido usado na cerimônia do Oscar. Várias atrizes haviam apoiado essa iniciativa, incluindo Reese Witherspoon, que concorria ao Oscar de melhor atriz por Livre. “Igual significa igual, e as mulheres não têm os mesmos direitos”, insistiu Arquette, propondo uma reforma na Constituição dos EUA para garantir a igualdade entre os gêneros nos locais de trabalho.

A vitória de J. K. Simmons como melhor ator coadjuvante por Whiplash – Em Busca da Perfeição também estava prevista em todos os bolões de aposta. Falando com a imprensa e visivelmente cansado depois de uma longa temporada de prêmios (nos quais levou todos), Simmons disse sentir falta da época em que tinha menos trabalho, “mas podia dormir mais”. “Claro que isto é a cereja do bolo”, acrescentou, com a estatueta na mão.

O Grande Hotel Budapeste dominou o placar desde o começo da cerimônia, levando todos os prêmios técnicos defendidos pelo filme de Wes Anderson, de figurino a maquiagem, passando por direção de arte. Também foi vitorioso na categoria de trilha sonora para Alexandre Desplat, conseguindo desta forma um total de quatro Oscars, mesmo número de Birdman, mas sem conquistar nenhum dos prêmios grandes. Whiplash obteve um total de três premiações – os de melhor montagem e melhor mixagem de som, além do de Simmons. E Sniper Americano ganhou um único Oscar, de melhor edição de som.

Ida venceu a categoria de melhor filme estrangeiro, uma vitória prevista, mas que chegou de surpresa, mudando a ordem da cerimônia que estava no programa da festa. E, da mesma forma que aconteceu com as indicações, a maior surpresa do Oscar veio na categoria de animação. Há dois meses, contrariando todos os prognósticos, Uma Aventura Lego não figurou entre as candidatas. E agora o boneco inflável de Operação Big Hero tirou o que parecia uma vitória segura de Como Treinar Seu Dragão 2.

Se houve uma vitória que emocionou o evento foi a de melhor canção pelo tema Glory, do filme Selma. A interpretação da canção por John Legend e Common levantou o teatro Dolby, da mesma forma que suas palavras ao receber a estatueta, arrancando lágrimas do público ao lembrar que os EUA são o país “com a maior população carcerária do mundo”. Aconteceu a mesma coisa com o discurso de Graham Moore ao ganhar o Oscar de melhor roteiro adaptado por O Jogo da Imitação e dedicá-lo àqueles que, como ele ou Alan Turing, alguma vez sentiram-se “estranhos, diferentes ou deslocados” por causa de sua orientação sexual.

A presidenta da Academia, Cheryl Boone Isaacs, defendeu no mesmo palco a liberdade de expressão, e a vitória de Citizenfour como melhor documentário voltou a dar tons políticos à festa. Mas a música e a magia das imagens dominaram um espetáculo onde Neil Patrick Harris quis dar um ritmo ágil e cômico, sem no entanto conseguir. Até Lady Gaga virou Disney com sua versão tradicional “à Julie Andrews” de A Noviça Rebelde. Mas a magia não conseguiu impedir a chuva de Los Angeles. Esse foi o verdadeiro milagre de um Oscar muito previsível: conseguir uma desejada chuva em uma das piores secas da história da Califórnia. Rosamund Pike, que concorria por Garota Exemplar, soube resumir a ironia ao chegar ao tapete vermelho, que estava repleto de estrelas, mas coberto por um abrigo para que fosse protegido das inclemências climáticas. “Toda a minha vida vi o Oscar sob o sol californiano, e hoje que estou aqui chove”.

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