O comércio do impeachment

Camisetas a 99 reais, kits por 195 e adesivos a 3,50 financiam protestos contra Dilma

Marcello Reis, um dos líderes do Revoltados On Line.
Marcello Reis, um dos líderes do Revoltados On Line.A.B.

Um empresário de São Paulo que se diz falido pelo Governo do PT. Uma publicitária que mora no Mato Grosso e vive “de renda”. Esses são alguns dos comerciantes que se aproveitam do movimento que pede o impeachment de Dilma Rousseff (PT) para ganhar dinheiro ou para financiar os protestos. Vendendo camisetas a 99 reais e adesivos a 3,50, Marcello Reis, de 40 anos, e Letícia Balaroti, de 28, estão na linha de frente dos produtos anti-Dilma.

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Reis é um dos líderes do projeto Revoltados On Line, um grupo formado nas redes sociais que se manifesta contra a corrupção. Nos últimos anos, ganhou notoriedade (e seguidores no Facebook) ao pedir o impeachment da presidenta petista e ao se apresentar ao lado de figuras públicas como o músico Lobão, um feroz crítico do petismo que pediu votos para Aécio Neves (PSDB) no pleito passado.

Para garantir o pagamento da estrutura usada nos protestos promovidos por ele, como um trio elétrico de 20.000 reais,  Reis vende camisetas, bonés e adesivos na internet. Um kit, com uma camiseta polo preta, um boné e cinco adesivos custa de 175 a 195 reais, de acordo com o tamanho. Se for levar só a camiseta com uma faixa presidencial pela metade e os dizeres “Deus, Família e Liberdade”, o cliente gastaria 99 reais. Isso sem contar o frete. “É um preço justo porque o material é importado. É de boa qualidade e não temos uma confecção própria”, explica Marcello Reis, que diz ter fechado uma empresa de segurança da informação porque não quis participar do “jogo sujo do serviço público”.

Não votei no Aécio porque estava viajando. Fiz o adesivo até para compensar essa minha ausência” Letícia Balaroti

Descrevendo-se como apartidário, e demitido de uma agência de comunicação há dois meses, Reis agora se empenha exclusivamente no movimento que pede a saída de Rousseff do cargo. Ele alega que sua demissão do último emprego ocorrera porque o deputado petista Paulo Pimenta o acusou de fascista e de militante de extrema direita durante o protesto que motivou o fechamento do Congresso Nacional no ano passado. Desde então, Reis passa dia e noite vendendo os produtos anti-Dilma e coletando assinaturas na internet para ingressar com o pedido de impeachment.

“Ele (o deputado) me chamou de neonazista porque sou desprovido de cabelo. Mas estou longe de ser extremista, muito menos nazista. Sou só um cidadão politizado que é contra esta roubalheira toda”, justifica-se.

Outros empreendedores, à primeira vista menos militantes, também parecem ter farejado negócio na onda anti-PT. A camiseteria online NM vende uma camiseta com o mote do impeachment por 39,90 reais. Procurados, os representantes da loja não se manifestaram.

A culpa não é minha

No Instagram, a publicitária mato-grossense Letícia Balaroti vende adesivos com os dizeres “A culpa não é minha, eu votei no Aécio”.

Uma das camisetas anti-Dilma, vendida a 39,90 reais.
Uma das camisetas anti-Dilma, vendida a 39,90 reais.Reprodução

“Sempre fui contra o PT. Antes da eleição eu vendia o adesivo ‘Fora Dilma’. Depois, passei a vender o outro porque demonstrava quem não era o responsável por colocar Dilma lá de novo”, explica Balaroti, que garante não ser filiada a nenhuma sigla política. E, também não votou em Aécio Neves nas últimas eleições. “Não votei no Aécio porque estava viajando tanto no primeiro quanto no segundo turno. Fiz o adesivo até para compensar essa minha ausência”, afirma.

O preço varia conforme a quantidade. A unidade custa 3,50 reais. Mas acima de dez, ela promete dar um desconto. “Meu lucro é muito pequeno. Não preciso desse dinheiro. Nem o frete eu cobro”, diz a publicitária que, apesar do diploma, não atua na área. “Vivo da renda de aluguéis de imóveis da minha família.”

A metade dos pedidos registrados desde o início do ano, segundo Balaroti, veio do Nordeste, um  reduto dos votos petistas nas últimas eleições. Pernambuco, Ceará e Bahia são os principais compradores, definidos pela publicitária como “os petistas arrependidos”.

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