O silêncio da América Latina

Organizações criticam falta de resposta da região diante das prisões na Venezuela

Antonio Ledezma, prefeito de Caracas, em abril de 2014.
Antonio Ledezma, prefeito de Caracas, em abril de 2014.SANTI DONAIRE (EFE)

"O que mais será preciso para que os governos da América Latina levantem a voz contra a violação de direitos humanos na Venezuela?". A pergunta foi feita pelo ex-presidente colombiano Andrés Pastrana depois da prisão do prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, acusado pelo Governo de Nicolás Maduro de estar por trás de um suposto golpe de Estado.

Outros ex-presidentes como Álvaro Uribe e Sebastián Piñera compartilham da mesma preocupação. Não são os únicos. O diretor para as Américas do Human Rights Watch, José Miguel Vivanco, pediu que os governos da região "pressionem" a Venezuela com relação aos direitos humanos. Apesar de tudo, a primeira reação da maioria dos governantes da região foi, novamente, o silêncio.

Os Estados Unidos, que Caracas acusa de envolvimento nos supostos planos de golpe, saíram na frente para negar as acusações e manifestar sua "profunda preocupação" com a "escalada de intimidação" do Governo venezuelano, segundo Roberta Jacobson, secretária de Estado adjunta para a região. Jacobson também pediu que a região "trabalhe para garantir que o governo da Venezuela cumpra seu compromisso comum com a democracia".

O secretário-geral demissionário, José Miguel Insulza, reconheceu o “forte alarme” provocado pela detenção de Ledezma

No Brasil, o Ministério das Relações Exteriores divulgou nota na noite desta sexta-feira também usou a fórmula "grande preocupação"  para se manifestar sobre a situação da Venezuela. Não citou diretamente a prisão de Ledezma, pediu que "todos os atores envolvidos" trabalhem pela manutenção da democracia no país e citou os esforços da Unasul.

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Brasília fazia referência à declaração do secretário-geral da Unasul, Ernesto Samper, para quem a organização sul-americana já está respondendo à crise venezuelana. O colombiano anunciou na Rádio Caracol que os chanceleres do Brasil, Equador e Colômbia viajarão à Venezuela na semana que vem, depois disso poderia haver uma reunião extraordinária para examinar "possíveis saídas" para a situação. "O fato de estarmos fazendo uma tarefa discreta não quer dizer que não tenhamos uma preocupação sobre o futuro da Venezuela, nem que estejamos fazendo nada. Estamos trabalhando", afirmou. Algo insuficiente, considera Santiago Canton, ex-secretário executivo da Comissão Interamericana de Direitos humanos (CIDH) e agora diretor do Centro Robert F. Kennedy para os Direitos humanos. "Já é tarde", denunciou, e acusou a Unasul de "cumplicidade" na situação atual venezuelana. "Talvez façam algo agora, mas já são responsáveis, especialmente a Unasul", salientou, mas não diminuiu a responsabilidade de outras organizações regionais que também "têm feito nada". Ele lembrou que a Organização dos Estados Americanos (OEA) não é a única que possui uma Carta Democrática; também Celac, Unasul e Mercosul têm cláusulas de direitos humanos. "Essas organizações são responsáveis pelo que está acontecendo", afirmou Canton.

A deputada de oposição María Corina Machado pediu à OEA uma reunião de emergência para discutir a situação. O secretário-geral demissionário, José Miguel Insulza, reconheceu o "forte alarme" provocado pela forma como Ledezma foi detido e defendeu "estancar os fatos que conduzem a uma espiral de polarização e que impossibilitem acordos que contemplem a vontade de todos os setores".

Para o presidente do think tank do Diálogo Interamericano, Michael Shifter, não se trata de uma falta de preocupação dos governos regionais. "Não sabem o que fazer porque até as críticas mais suaves dos líderes latino-americanos foram recebidas com uma resposta agressiva de Maduro", explicou. "Os governos latino-americanos têm a sensação de que Maduro não é suscetível a pressões externas", afirmou, "mas isso não é desculpa para não adotar uma postura pública firme".

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