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Diplomacia brasileira se movimenta para tentar sair do fundo do poço

Chanceler aposta em habilidade política para atravessar crise e recuperar "autoestima"

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Dilma e o chanceler Vieira, na Costa Rica PR

Depois de oito anos de busca ativa e sem precedentes de protagonismo diplomático nos anos Lula, o Brasil murchou na arena internacional sob Dilma Rousseff enquanto o setor de Relações Exteriores perdia prestígio dentro do governo. Ao cenário de baixo crescimento econômico brasileiro e pouco entusiasmo da presidenta com o tema juntou-se, mais fortemente no último ano, uma seca de recursos que deixou postos no exterior à míngua, congelou promoções e novas vagas e mergulhou os diplomatas brasileiros, uma elite qualificada e reconhecida da burocracia nacional, em uma profunda crise de autoestima.

"Dá trabalho retomar ciclos”, lamentou Celso Amorim, o chanceler da era Lula, em entrevista ao EL PAÍS. Símbolo dos anos de expansão dos postos no exterior entre 2003 e 2010, agora em xeque, e defensor de que o Brasil tenha relevância em temas globais, ele comentava a decisão do Governo de não comparecer a Genebra 2, a conferência que discutiu a crise na Síria no ano passado. “Você não constrói condições para ser convidado para uma reunião de poucos países sobre a Síria em poucos dias, você constrói em dez anos”, disse ele, que até dezembro último foi ministro da Defesa.

É nesse cenário pouco animador que Mauro Vieira, o escolhido por Dilma para comandar no segundo mandato o Ministério das Relações Exteriores, tenta se mover. Para observadores de dentro e fora do Itamaraty, Vieira e sua equipe tem um ano difícil pela frente, com ajuste fiscal que determina o bloqueio de 30% dos recursos. Como se não bastasse a penúria, um outro fator — a alta do dólar — assombra as contas do ministério, que só recebe 0,3% do bolo orçamentário. O maior valor da moeda americana em uma década, alcançados nesta semana, é um agravante para os gestores que recebem boa parte das faturas de despesas, algumas estimativas falam em 70%, do exterior.

O Itamaraty já viveu outros períodos de vacas magras, como em 1992 e 1999 (desvalorização do real), mas  o aumento dos postos no exterior sob Lula aumenta a pressão sobre a pasta

O Itamaraty já viveu outros períodos de vacas magras, como em 1992 e 1999 — esta última, não por acaso, uma crise cambial, com a desvalorização do real no governo FHC —, mas experimentados diplomatas dizem que o aumento dos postos no exterior sob Lula, de 150 postos no estrangeiro para cerca de 230 neste ano, aumenta a pressão sobre a pasta.

Na nova cúpula do Itamaraty, a diretriz, nos bastidores, é tentar não “esconder a cabeça na areia” e falar sobre a crise, ao menos internamente, para recuperar a “autoestima abalada” da casa. Quando assumiu o cargo de chefe da diplomacia, em janeiro, Mauro Vieira foi direto: “Quero transmitir uma palavra especial aos colegas do serviço exterior (...). Buscarei apoiá-los em tudo o que estiver ao meu alcance para que possam enfrentar os permanentes desafios materiais que vivem os postos no exterior.”

Perfil político

Os “permanentes desafios materiais” ganharam contornos bastante concretos quando a Folha de S. Paulo publicou, no mês passado, série de telegramas de diplomatas relatando os apuros pela falta de dinheiro, “insistentes cobranças de credores” e até falta de ar condicionado que expunha diplomatas na África ao risco de contrair malária.

“Precisa ter condições de trabalho adequadas, que as pessoas não fiquem com medo de pegar malária. Isso pode acontecer com qualquer um, mas porque não tem ar condicionado porque não pagou a conta de luz não tem cabimento”, afirmou Celso Amorim, justificando sua decisão de escrever para a Folha artigo que embutia protesto contra a situação. Na mesma entrevista, ele repetiu que não foi convidado a reassumir a Chancelaria e elogiou a escolha de Vieira, com quem trabalhou, para o posto.

Na nova cúpula do Itamaraty, a diretriz geral é tentar não “esconder a cara na areia” e falar sobre a crise, ao menos internamente, para recuperar a “autoestima abalada” da casa

Se a manifestação do ex-ministro de Dilma foi tida como inoportuna para o atual momento de crise política nas cercanias da presidenta, nos corredores do Itamaraty caiu bem, como parte da campanha “sensibilização” da opinião pública sobre o tema.

No front concreto e imediato, o esforço da nova cúpula é sensibilizar o Congresso, onde o Orçamento de 2015 será votado — Mauro Vieira se reuniu com o novo homem forte da Câmara, Eduardo Cunha, na semana passada. E para essa tarefa de articulação, observadores e diplomatas ressaltam a coordenação interna e as credenciais políticas, na seara doméstica e externa, da nova cúpula do Itamaraty, em especial contraste com a do seu antecessor no cargo, Luiz Alberto Figueiredo. O chefe de gabinete de Vieira é Julio Bitelli, com passagens por postos complexos como Bolívia e Argentina. Num cargo essencial para o cotidiano da pasta, a Secretaria Geral, está Sérgio Danese.

Além do trânsito político de Vieira, que trabalhou na administração pública no governo Sarney e foi embaixador em Buenos Aires e Washington, é citado como trunfo a experiência de Danese. Ele é bem visto pelas alas mais ‘tucanas’ e ‘petistas' do ministério e foi, até 2012, o elo de ligação entre o Itamaraty e os parlamentares e governadores. O secretário-geral é autor de um livro sobre a diplomacia presidencial, um déficit de Dilma de acordo com os analistas.

O chanceler e Eduardo Cunha. ampliar foto
O chanceler e Eduardo Cunha. Facebook Eduardo Cunha

Dilma dedicou menos tempo a viagens internacionais do que Lula em seu primeiro mandato _ficou quase cem dias a menos do que o antecessor no exterior. É público que ela tem medo de avião e se aflige com as turbulências e os diplomatas falam do esforço para convencê-la a ir a cúpulas e encontros diplomáticos. A antipatia mútua entre Planalto e diplomatas só aumentou quando, na formatura dos de 2012, a presidenta pediu mais engenheiros nos quadros diplomáticos falando a uma plateia com formação majoritária em ciências humanas. Na mesma cerimônia, ela se impacientou e não tirou a foto de praxe com os formandos.

Na ocasião, a presidenta falava justamente para os que engrossariam o chamado “baixo clero” do Itamaraty, o grupo em estágio inicial da hierarquia que se insurgiu em 2014 contra o congelamento de suas carreiras. Neste grupo, a nova cúpula é vista com otimismo cauteloso. O discurso do novo chanceler e de Danese, que citaram diretamente a demanda por mobilidade na pasta, foi bem recebido pela categoria. Eles argumentam, porém, que muda o comando local, mas não a presidenta. Eles não esperam que a mandatária aumente a relevância da diplomacia no Governo, para além das áreas mais estritamente econômicas.

Por ora, as primeiras impressões, após a primeira viagem de Dilma e o novo chanceler para a Costa Rica em janeiro, são positivas. A leitura é a de que o sedutor e habilidoso Vieira tem um perfil mais adequado para lidar com o temperamento duro da presidenta.

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