CASO CARLTON

A sombra da conspiração política paira sobre a ação contra Strauss-Kahn

Ex-diretor do FMI pede, junto a outros acusados, a anulação da audiência iniciada na segunda-feira

Strauss Kahn e outros acusados em desenho realizado no julgamento.
Strauss Kahn e outros acusados em desenho realizado no julgamento.BENOIT PEYRUCQ (AFP)

A sombra da conspiração política contra Dominique Strauss-Kahn caiu sobre o julgamento iniciado na segunda-feira em Lille contra o antigo diretor do Fundo Monetário Internacional, acusado de agenciamento de prostitutas. As revelações jornalísticas do Canal + põem o foco no ângulo que mais convém a Strauss-Kahn: a possível perseguição aberta contra ele pelo Governo de Nicolas Sarkozy para neutralizar o socialista que tinha mais chances de ganhar as eleições presidenciais de 2012. Seis advogados de defesa dos 14 acusados junto com Strauss-Kahn pediram na segunda-feira a anulação de todo o processo. O ex-diretor do FMI, conhecido por suas iniciais DSK, pode ser condenado a dez anos de prisão e uma multa de 1,5 milhão de euros (4,5 milhões de reais).

A justiça francesa acusa DSK de agenciar prostitutas com circunstâncias agravantes (explorar ou solicitar garotas de programa de maneira organizada). O ex-político, cuja carreira foi arruinada por uma denúncia de abuso sexual em maio de 2011 feita por uma faxineira do hotel Sofitel de Nova York, foi imputado por realizar orgias com prostitutas da região de Lille que, segundo testemunhos, tratava com extrema violência. A reportagem do Canal +, assim como um dos acusados, o delegado Jean-Christofe Lagarde, apresenta provas de que já antes do início da investigação oficial do chamado caso Carlton de Lille, DSK era investigado por ordem do Governo anterior.

As escutas telefônicas às que teria sido submetido o então diretor do FMI foram realizadas entre junho de 2010 e fevereiro de 2011, meses antes de do início da investigação oficial. A defesa pediu a anulação do processo por não ter tido acesso à investigação completa a fim de representar os imputados com todas as garantias. O tribunal, após deliberação, recusou a proposta no fim da tarde. O processo continua, portanto, na terça-feira com o calendário previsto.

A França pronuncia a cada ano 500 sentenças por agenciamento de prostitutas. Este caso, entretanto, é peculiar. A presença do veterano político socialista Strauss-Kahn originou uma expectativa sem precedentes, com cerca de 300 jornalistas credenciados para acompanhar o caso. DSK, como todos os acusados, foi convocado para o primeiro dia do julgamento, dedicado às apresentações e assuntos preliminares. Enquanto todos eram obrigados a entrar na sala de audiências passando pelos jornalistas, o ex-político entrou diretamente no estacionamento protegido pelos vidros escuros de seu carro. Dentro da sala, DSK permaneceu sério, embora relaxado, e um pouco ausente; como se o processo nada tivesse a ver com ele. Alguns dos que fizeram declarações à entrada, como o belga Dominique Alderweireld, proprietário de bordéis, proclamaram sua inocência. Alderweireld, conhecido como Dodo la Saumure, chegou a dizer que não conhece DSK, embora admita ter enviado prostitutas a ele.

A França pronuncia a cada ano 500 sentenças por agenciamento de prostitutas.

Algumas testemunhas de acusação pediram ao tribunal que a audiência seja realizada a portas fechadas. As partes civis implicadas alegam que algumas prostitutas preferem manter o anonimato. Algumas refizeram sua vida. Outras sempre ocultaram sua atividade das pessoas de seu convívio. O tribunal negou o pedido. Nem mesmo aceita a aplicação parcial, embora seja provável que revise sua posição no decorrer do processo. O não comparecimento de algumas vítimas poderia enfraquecer a acusação.

No resumo do caso, os testemunhos de algumas mulheres deixam em evidência a linha de defesa de Strauss-Kahn, que alega desconhecer que as participantes de suas orgias exerciam a prostituição. Segundo esses testemunhos, o ex-diretor do FMI era extremamente violento e estava acostumado a sodomizar as prostitutas a despeito de seus protestos. O intercâmbio de mensagens entre os acusados e as conversas telefônicas interceptadas apontam para a organização de encontros sexuais sempre sob medida para o insaciável apetite sexual de Strauss-Kahn.

O processo durará três semanas e DSK deve ser ouvido na terça-feira, 10 de fevereiro. Segundo se prevê, seu testemunho pode durar dois dias e meio. Soma-se à expectativa o debate sobre a prostituição na França, um país onde os bordéis são proibidos desde 1946. Uma das partes civis implicadas é a Fundação Scelles, que combate a prostituição e apoia a iniciativa socialista de condenar o réu. “Quero deixar claro que não estamos contra DSK, mas sim contra toda forma de agenciamento de prostitutas”, disse o advogado da fundação, David Lepidi, quando chegou ao tribunal de Lille.

Lille está a vinte de quilômetros da fronteira com a Bélgica, país que, como a Holanda, tem um enfoque muito mais permissivo em relação à prostituição e onde os bordéis são legalizados.

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