São Paulo: agora falta luz

Após falta de água, a cidade convive com frequentes cortes de energia e já teve desligamento de luz de um hospital e milhares de reclamações diárias

Árvore caída sobre fiação na Vila Mariana, em dezembro.
Árvore caída sobre fiação na Vila Mariana, em dezembro.Robson Fernandjes / Fotos Públicas

Não é só água. Agora falta luz. O paulistano, que já briga com a seca, se depara no verão com uma crescente crise de energia: milhares de moradores da maior cidade do país tem sofrido cortes frequentes de luz em suas casas. Desde o início do verão, em dezembro, é comum haver a interrupção do fornecimento de energia em diversos bairros de São Paulo e de sua região metropolitana. Nem hospitais estão livres dos cortes.

Na última semana, houve bairros paulistanos que ficaram mais de 48 horas sem luz e uma maternidade, em Osasco, teve de fazer cirurgias usando a iluminação de telefones celulares da equipe médica. Neste caso, um bebê prematuro que estava em uma unidade de tratamento intensivo (UTI) correu risco de morte porque o aparelho que o ajudava a respirar foi desligado por quase cinco horas. Uma enfermeira teve de usar uma bomba de ventilação manual para garantir a sobrevivência da criança. E conseguiu.

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A luz voltou ao hospital Amador Aguiar depois que uma equipe da concessionária AES Eletropaulo descobrir que a falha era simples de ser resolvida e específica do hospital. Bastava religar um equipamento. Mas desde o primeiro aviso até a resolução do problema, conforme fontes do hospital, passaram-se quase dez horas. O gerador elétrico da unidade de saúde funcionou por cinco horas.

Diante de seguidas interrupções há quem chame as falhas das últimas semanas de “verão do apagão”. “Estou há dez anos nesse mesmo endereço e nunca fiquei tantos períodos seguidos sem energia. Desde o início do ano, foram três dias. Sem dúvida é o verão do apagão, por mais que isso não tenha sido amplamente divulgado”, afirmou o comerciante Roberto Santana, que mora e trabalha em Perdizes, na zona oeste. Entre quinta e sexta-feira ele ficou quase oito horas sem luz. “Só não foram oito horas seguidas porque a luz voltou por cerca de 15 minutos e depois acabou de novo. Ainda bem que o calor amenizou um pouco, senão não ia dar para dormir sem ventilador”, relatou.

Nem a polícia escapa

Em outras regiões da cidade, houve quem registrasse perdas econômicas. Foi o caso de um restaurante japonês em Itaquera, na zona leste. “Perdemos todo nosso estoque de comida. Não sobrou nada. Começamos o ano no vermelho”, diz Paulo Rodrigues, o gerente do local que ficou 36 horas seguidas com a energia cortada.

No Tucuruvi, na zona norte, uma farmácia homeopática e diversos outros comércios do bairro fecharam as portas desde o fim da tarde de quarta-feira, quando a energia foi cortada. “Como fazemos a manipulação de medicamentos, ficamos sem ter como trabalhar. Os comerciantes da região pensaram em registrar um boletim de ocorrência na polícia, mas a delegacia está sem luz também e nada funciona por lá”, disse a farmacêutica Fabiana Santos. Na tarde de sexta-feira a luz ainda não havia voltado.

Os cortes temporários de energia surgem no momento em que a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) autorizou um reajuste de 3,53% nas contas dos clientes. O aumento já havia sido concedido em julho do ano passado, mas a Justiça havia o derrubado. Agora, AES Eletropaulo obteve uma vitória judicial e vai aplicar o reajuste tarifário nas próximas semanas.

Perdemos todo nosso estoque de comida. Não sobrou nada. Começamos o ano no vermelho” Paulo Rodrigues, gerente de um restaurante japonês

A concessionária, que atende cerca de 20,1 milhões de clientes em São Paulo, atribui as interrupções de energia às constantes quedas de árvores em decorrências das fortes chuvas e vendavais que atingiram a capital paulista nos últimos dias. Em nota enviada à reportagem, a Eletropaulo informou que as ocorrências são complexas de serem resolvidas e envolvem, em alguns casos, a troca de equipamentos e reparos em diversos pontos da rede.