A França vira à direita

Crise socialista prenuncia disputas diretas entre os partidos de Sarkozy e Le Pen

Sarkozy com o centrista Jean-Christophe Lagarde e a vice-presidenta da UMP, Nathalie Kosciusko-Morizet.
Sarkozy com o centrista Jean-Christophe Lagarde e a vice-presidenta da UMP, Nathalie Kosciusko-Morizet.THOMAS SAMSON (AFP)

A França entra em um período turbulento, no qual o poder não será mais disputado entre esquerda e a direita, e sim, acima de tudo, entre a direita e a ultradireita, com consequências imprevisíveis para a segunda maior economia da zona do euro e para toda a União Europeia. Enquanto as medidas para conter a crise econômica continuam sem dar resultados, os socialistas se aproximam de uma série de derrotas eleitorais e do seu desaparecimento de muitos centros de decisão que eles hoje controlam. À crise econômica somou-se uma crise política, e todos os dados indicam uma deterioração também nessa frente. Eis a situação com a qual o presidente François Hollande se depara na metade de seu mandato de cinco anos.

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A crise econômica avança desenfreada. Nos últimos 12 meses, 63.322 empresas fecharam as portas no país, e o desemprego continua crescendo. Já há 3,5 milhões de pessoas sem trabalho. O crescimento do PIB será de 0,4% neste ano e de apenas 1% no próximo. A agência de qualificação de risco Fitch acaba de rebaixar a nota da França, como já fez a Standard & Poor’s em outubro, com o argumento de que as reformas “não parecem suficientes para reverter as tendências negativas do crescimento em longo prazo”. A Comissão Europeia também exige mais reformas.

Mas não há outras cartadas previstas, ao menos de grande impacto, de modo que só resta a Hollande e ao seu Governo acreditarem que acertaram nas reformas já implantadas, torcendo para que tragam resultados. A sorte dos socialistas já está lançada desde que eles apresentaram o chamado Pacto de Responsabilidade, destinado a reduzir gastos, liberalizar a economia e reduzir a máquina administrativa, transformando as 22 regiões francesas em apenas 13. Boa parte do eleitorado socialista se sente traído e opta em massa pela abstenção. “Hollande lhes prometeu que a solução para a crise seria o modelo francês, o modelo social, e agora a esquerda não aceita a guinada liberal”, argumenta, por telefone, Madani Cheurfa, secretário-geral do Cevipof, centro de pesquisas políticas da faculdade Sciences Po.

Consequentemente, o eleitorado francês se transformou radicalmente. Ao tradicional combate dualista entre esquerda e direita, entre os socialistas e os conservadores da UMP, somou-se com força um terceiro protagonista, a Frente Nacional. “É a grande novidade. Está se assentando um sistema tripartidarista, e o grande perdedor é o Partido Socialista”, diz Cheurfa.

Resta ao Partido Socialista torcer para que as reformas já implantadas deem resultado

A pesquisa desta semana do instituto Odoxa para jornais regionais dá cifras para a crise da esquerda. Os socialistas dominam hoje 61 dos 101 departamentos (uma subdivisão regional da França), mas só 15 ou 20 devem permanecer nas mesmas mãos após as eleições de março. E, para o pleito regional do final de 2015, as pesquisas também apontam um forte retrocesso dos socialistas, que atualmente governam 20 das 22 regiões francesas ditas metropolitanas (ou seja, excluindo-se as cinco regiões ultramarinas). É a continuação do que já aconteceu nas eleições municipais de março e nas europeias de maio. Os socialistas perderam para a direita uma centena de municípios com mais de 9.000 habitantes, e a Frente Nacional foi o partido mais votado na disputa pelo Parlamento Europeu, com 25% dos votos. O partido governista ficou na terceira posição, atrás também da UMP.

Num futuro próximo, a tradicional disputa dos segundos turnos eleitorais entre esquerda e direita será substituída em muitos casos por duelos entre a direita e a ultradireita. Foi o que já ocorreu no último dia 14 nas eleições parciais do departamento de Aube. E voltará a ocorrer em muitos departamentos em março, porque a Frente Nacional será novamente a força política mais votada em escala nacional no primeiro turno, atrás da UMP. O mesmo indicam as sondagens para a eleição presidencial de 2017: Marine Le Pen seria a mais votada no primeiro turno e enfrentaria um candidato da direita moderada no segundo.

A ultradireita é a maior beneficiária da crise política e econômica. A pesquisa da Odoxa fornece um dado inquietante: 58% dos franceses acreditam que a FN “deve ser considerada um partido como os outros”. Seu eurodeputado Aymeric Chauprade disse a este jornal que “os franceses estão cada vez mais convencidos de que a FN é uma alternativa de Governo”. E explica assim a origem dessa mudança: “Os dois partidos que até agora dividem o poder se venderam à globalização e fracassaram na gestão dos principais problemas, que são a desindustrialização, o desemprego, a imigração e a insegurança”.

“Quando há dificuldades, as pessoas se refugiam na sua identidade própria, e Marine Le Pen a exalta”, afirmou ao EL PAÍS o deputado Hugues Fourage, um porta-voz socialista próximo ao primeiro-ministro Manuel Valls. Nessa suposta busca por identidade, a FN prega a saída do euro, a recuperação das fronteiras nacionais e em último caso a desfiliação da UE e a expulsão dos imigrantes não legalizados, que seriam devolvidos a seus países “mesmo se estes estiverem em guerra”, como afirmou Le Pen.

Sarkozy se prepara para o novo cenário, almejando os votos do centro à ultradireita. Sua porta-voz, a deputada Isabelle Le Callennec, afirma que o partido iniciou uma “reconquista” do poder. Suas potenciais disputas com a ultradireita o beneficiam porque, num segundo turno, os dirigentes da esquerda convocam “o voto republicano, de responsabilidade”, para colocar os xenófobos da ultradireita no seu devido lugar. Como acaba de acontecer em Aube.

Enquanto isso, resta aos socialistas apenas a esperança de que as reformas sejam compreendidas, frutifiquem e, ao mesmo tempo, que a economia europeia se reative. “Pode ser que os eleitores de esquerda estejam desnorteados, porque não entendem as reformas feitas”, admite o deputado Fourage. “Mas Hollande semeou muito, e a colheita chegará”, observou Jean-Christophe Cambadélis, primeiro-secretário dos socialistas.

Os franceses castigam os socialistas pela guinada liberal do Governo e por suas divisões internas

Até que não chegue, o futuro do socialismo é sombrio. “Suicídio” e “catástrofe” são os termos usados por deputados rebeldes para descrever suas perspectivas eleitorais. Na sede partidária, admite-se que de fato poderá acontecer “um terremoto”.

Os franceses culpam o Executivo não só pela má situação econômica e pela falta de resultados, mas também pelas divisões internas. “Os franceses assimilam mal essas divergências perante os problemas econômicos e sociais existentes”, afirma Cheurfa.

A dirigente Martine Aubry, ex-ministra e prefeita de Lille, qualificou algumas das reformas liberalizantes como uma “agressão social”. “A esquerda está morrendo”, comentava na semana passada à rádio Europe 1 o ex-deputado Julien Dray, uma referência da esquerda, ecoando o que Valls já anunciou meses atrás: “Há risco de que a esquerda desapareça, se dilua”. O próximo congresso do PS, em junho, será o cenário da grande batalha entre sociais-democratas e sociais-liberais.

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