Venezuela acha que Espanha pode ser a plataforma de difusão do chavismo

Embaixador de Caracas em Madri enumera os benefícios da chegada do Podemos

O líder do Podemos, Pablo Iglesias, durante uma Assembleia Cidadã.
O líder do Podemos, Pablo Iglesias, durante uma Assembleia Cidadã.ULY MARTÍN

A ascensão da esquerda representada pelo Podemos pode transformar a Espanha na “plataforma de difusão” do chavismo na Europa. Isso foi dito pelo embaixador venezuelano em Madri, Mario Isea, em um comunicado entregue em 24 de novembro, durante uma reunião privada, para os deputados do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). O diplomata acha melhor o Governo de Caracas, antes de procurar a normalização das relações com o Executivo espanhol, manter a confrontação e mobilizar os contatos internacionais para calar os protestos pela prisão do dirigente oposicionista Leopoldo López.

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O documento, intitulado “Caso Rajoy: contexto geral e ações a tomar”, foi redigido depois que o presidente do Governo espanhol qualificou de “necessária” a libertação de López e receber sua esposa na sede do Partido Popular, o que fez com que Isea fosse chamado para consultas em Caracas no final de outubro.

No documento, entregue em uma reunião realizada na Assembleia Nacional, o embaixador dá indicadores sobre a situação econômica da Espanha – desemprego, dívida pública, pobreza – e faz referência a alguns dos problemas sociais e políticos que o país atravessa – tensões territoriais, escândalos de corrupção – e nessa base, afirma: “O aumento das contradições fundamentais dentro da sociedade favorece o crescimento da esquerda espanhola, como ficou evidenciado na eleições do Parlamento Europeu, o crescimento da Esquerda Unida (IU) e o surgimento do Podemos como fenômeno político eleitoral”.

De acordo com o diplomata, três fatores impediram o acontecimento de uma “explosão social” na Espanha: a ampla tradição de poupança e conservação do patrimônio das famílias espanholas; “a campanha oficial e midiática de geração de esperança baseada em uma suposta recuperação econômica”, e a ausência de uma alternativa política. Mas frisa, depois: “Ainda que esse (último) fator tenha se debilitado por conta do aglutinamento de forças do Podemos, que atualmente tem 28,3% nas pesquisas”.

Na sequência, o embaixador venezuelano em Madri começa a criar cenários sobre o que representaria para a Venezuela e seus aliados da Aliança Bolivariana para os Povos da América (ALBA) a chegada de uma força como o Podemos ao Palácio da Moncloa. “Se for concretizada a chegada da esquerda na Espanha, seria possível que: a Espanha sirva de plataforma de difusão para toda a Europa, das conquistas do modelo de integração impulsionado na América Latina; a presença da Aliança do Pacífico se debilite, com o fortalecimento da presença da ALBA e do Mercosul; o consenso belicista da OTAN se debilite; a Espanha seja uma forte aliada da Venezuela na União Europeia”, sustenta o diplomata e ex-deputado.

Com esse panorama, Mario Isea propõe que a bancada chavista no Parlamento assuma uma posição mais combativa contra o presidente Rajoy e realize contatos internacionais para “neutralizar a campanha” que pede pela libertação do opositor Leopoldo López, preso em uma prisão militar desde fevereiro por supostas acusações de conspiração que a justiça ainda não precisou. “É preciso, para resguardar nossa dignidade e preservar nossa liderança, exercer pressão para conseguir, antes de normalizar nossa relação bilateral, uma ação pública do Governo espanhol que, de forma direta ou indireta, mas contundente, demonstre que aceita que Mariano Rajoy cometeu um erro e que não deixe dúvidas de que reconhece o caráter democrático e vigência de nossas instituições”, diz o documento. O comunicado de Isea, publicado pelo jornalista Pedro Pablo Peñaloza no site Runrun.es, foi transmitido no Parlamento um mês depois da maioria chavista decidir não se pronunciar sobre o desencontro entre Madri e Caracas, em 3 de novembro.

Em 24 de outubro, o presidente Nicolás Maduro anunciou “a revisão integral das relações diplomáticas com o Reino da Espanha, como consequência das declarações de ingerência do Chefe do Governo espanhol, Mariano Rajoy”, dois dias depois do presidente do Governo receber a esposa de López, Lilian Tintori, na sede do Partido Popular. Após esse encontro, Rajoy reiterou na qualidade de presidente do PP “a preocupação da União Europeia pelo julgamento de Leopoldo López, assim como a necessidade de respeitar a liberdade de expressão e o direito de se manifestar” na Venezuela. Depois, no dia 28, a Chancelaria venezuelana informou com um comunicado sobre a chamada para consultas do embaixador em Madri, Mario Isea.

López, líder do partido oposicionista Vontade Popular, se entregou voluntariamente à justiça em 18 de fevereiro, dias depois do presidente Maduro o responsabilizar pela violência que tirou a vida de mais de 40 pessoas durante os protestos antigovernamentais que estouraram em várias capitais do país, no dia 12 do mesmo mês. Em abril, a Promotoria acusou López de quatro delitos que podem lhe custar mais de 13 anos de prisão. Enquanto transcorre seu julgamento, López e outros dirigentes da oposição encontram-se isolados em celas de segurança máxima e em condições paupérrimas. Agora, além do seu, existe o processo aberto contra outra importante dirigente opositora, María Corina Machado, acusada de planejar o assassinato de Maduro.

Em 25 de novembro, um terço dos ex-líderes latino-americanos e europeus que integram o Clube de Madri também se pronunciaram a favor da liberdade do dirigente oposicionista. O documento, que chama sua detenção de “arbitrária”, foi subscrito pelos ex-presidentes Óscar Arias da Costa Rica, Fernando Henrique Cardoso do Brasil; Ricardo Lagos do Chile; Alejandro Toledo do Peru; Luis Alberto Lacalle do Uruguai, Jorge Quiroga da Bolívia; Andrés Pastrana da Colômbia; e Osvaldo Hurtado do Equador, entre outras personalidades.

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