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Receituário de Dilma para retomar economia inclui medidas impopulares

Reajuste de preços, aumento dos juros e ajuste fiscal são algumas das escolhas difíceis

A presidenta Dilma Rousseff após a vitória.
A presidenta Dilma Rousseff após a vitória. REUTERS

Retomar a confiança dos investidores e da população na economia brasileira deve ser a prioridade ‘zero’ da presidenta Dilma Rousseff, reeleita com 51% dos votos para governar o país por mais quatro anos. A tarefa, entretanto, promete impor um alto custo político para a petista, já que algumas opções previstas para o menu de 2015 são, para muitos, indigestas: cortar gastos públicos, elevar a taxa de juros e aumentar impostos.

Em entrevista um dia após a vitória de Dilma, o ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a prioridade da próxima gestão – da qual ele não fará parte – será controlar as contas públicas e afastar o fantasma da inflação, que está acima do teto da meta (de 6,5%) e é uma das maiores reclamações dos brasileiros. “A prioridade é fortalecer os fundamentos fiscais da economia. Manter um bom resultado fiscal para que a dívida pública fique sob controle. (...) A prioridade é manter a inflação sob controle”, reiterou o ministro.

Para controlar o aumento dos preços dos produtos, um dos caminhos é manter elevada a taxa básica de juros, atualmente em 11% ao ano. “O caminho para 2015 será o ajuste fiscal. Aumentar os impostos e controlar os gastos públicos. A Dilma também deve considerar subir ou manter elevados os juros, para controlar a inflação”, avalia o economista Roberto Padovani, do banco Votorantim.

Contudo, eis a saia justa da presidenta: manter os juros elevados provoca um crescimento mais lento, embora implique na retração da inflação ao desestimular o consumo. Por outro lado, juros baixos estimulam o crescimento, mas jogam a inflação às alturas. O primeiro mandato de Dilma foi marcado por um ‘vai e vem’ da taxa de juros. A presidenta conseguiu fazer com que o Banco Central levasse a taxa Selic à mínima histórica, de 7,25% ao ano (mantida por seis meses), em um ciclo de queda que durou cerca de um ano. Mas ela foi obrigada a dar início a um novo ciclo de alta em abril de 2013, justamente para conter a escalada inflacionária.

Por outro lado, um aumento dos juros também pode representar um agravamento do desequilíbrio das contas públicas, uma vez que encarece a dívida do próprio Governo, o que também deixa os investidores desconfiados. Já para acertar as contas do Tesouro e a dívida pública, uma opção é aumentar os impostos, outra medida cujo efeito colateral pode ser a desaceleração do crescimento e uma enxurrada de críticas dos consumidores e empresários.

Qualquer que seja o caminho escolhido, dificilmente o Brasil conseguirá cumprir a meta de levar a inflação, atualmente em cerca de 6,5% ao ano, a 4,5% e crescer mais que 1% em 2015, avaliam os especialistas. “A inflação brasileira é resistente. E isso não vai mudar em 2015. Tentar baixar essa inflação implica em um custo econômico muito grande. Acho que é difícil o Governo mexer nisso”, afirma Antonio Corrêa de Lacerda, economista e professor da PUC-SP.

A prioridade é manter a inflação sobre controle.

Guido Mantega

Empregos

Outra dificuldade que o Governo terá é estimular o crescimento do país mantendo o desemprego baixo, que atualmente é de cerca de 5%, e é justamente um dos principais pilares da reeleição de Dilma. “É uma gestão macroeconômica que implicará no aumento do desemprego, em esfriar o mercado de trabalho para aumentar produtividade. Mas a Dilma não pode se contaminar pelo discurso de campanha. O Brasil é pragmático e faz o que precisa ser feito, com racionalidade”, completa Padovani.

Já o ajuste fiscal esperado implica em cortes dos gastos públicos, cujas consequências impopulares podem representar desde o crescimento baixo até o corte de investimentos públicos em setores estratégicos. Para os economistas, é pouco provável que o Governo mexa nos programas sociais, como o Bolsa Família, já que são esses programas a principal vitrine da gestão petista.

Os caminhos são duros e a pressão sobre Dilma é forte. O Brasil, que já teve sua nota de crédito reduzida neste ano pela agência de classificação de risco Standard&Poors (S&P), devido ao temor de uma recessão, corre o risco de ver reduzida novamente sua nota do grau de investimento, entre outras razões, pela dificuldade em cumprir as metas do superávit primário. Daí a importância de Dilma não errar nas escolhas que tomar. Para Lacerda, porém, 2015 será um ano de “observação”.

“A avaliação dos analistas de risco é que 2015 será um ano de observação, então a reclassificação (da nota de crédito) deve ocorrer em 2016. Mas como o ônus é muito grande politicamente (de ter a nota reduzida), o Brasil vai optar por fazer esses ajustes o quanto antes”, pondera.

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