Referendo na Escócia

O petróleo também vota

Separatistas escoceses querem usá-lo para políticas sociais; para unionistas reservas estão no fim

Plataforma de petróleo, a 160 quilômetros de Aberdeen.
Plataforma de petróleo, a 160 quilômetros de Aberdeen.Andy Buchanan / AFP

O Blackberry não dá trégua a um passageiro no primeiro trem de Glasgow a Aberdeen na segunda-feira. O jovem engravatado suspira. Fala de um recinto, de tempos, de distâncias. Em seu caderno aberto se lê um cabeçalho: “Aberdeen-PM”. Aberdeen é a capital europeia do petróleo; PM é a abreviatura de primeiro-ministro. O jovem, chamado Michael, é diretor de comunicação do Partido Conservador na Escócia e acompanhará a visita, difusamente anunciada, que David Cameron planeja fazer ao norte da fronteira.

– É verdade que Cameron estará hoje em Aberdeen?

– Sim, mas não diga isso muito alto.

– Onde e a que horas?

– Receio que isso seja secreto. Por segurança, sabe.

Ao chegar, Michael terá piedade do jornalista estrangeiro.

– Sabe? Pegue o meu cartão e me mande uma mensagem daqui a algumas horas para ver se consigo colocá-lo para dentro ou pelo menos dizer quando é.

Aberdeen, o palco que Cameron escolheu para sua mensagem final antes do referendo, é a cidade com mais milionários per capita e com menos desemprego (2%) no Reino Unido. Daqui emana a energia que deverá alimentar uma eventual Escócia independente, o petróleo que proporcionou ao Reino Unido cerca de 750 bilhões de reais em arrecadação fiscais desde a descoberta de jazidas sob o mar do Norte, no final dos anos sessenta. Esse recurso pôs no mapa o Partido Nacional Escocês (SNP), que colocou os pés no Parlamento de Westminster pela primeira vez em 1967 e, sob o grito de “O petróleo é da Escócia!”, conseguiu 11 deputados sete anos mais tarde.

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A gestão desse combustível e os cálculos sobre o quanto dele ainda resta sob o mar constituem uma das chaves do referendo de quinta-feira. O SNP vende um modelo de país como a Noruega, que destina a arrecadação petrolífera a um fundo soberano que financia políticas sociais. Os unionistas, por sua vez, advertem que só com o respaldo de uma economia forte a Escócia poderia resistir aos vaivéns dos voláteis preços do petróleo; que as jazidas estão se esgotando; que, para cumprir suas promessas de gasto social, o Governo independente deveria elevar os impostos, e isso afugentaria as grandes empresas que precisam de investimentos multimilionários para explorar novas reservas, de acesso cada vez mais difícil.

Frank Doran e Joan Ruddock formam um casal peculiar. Ele é deputado liberal-democrata por Aberdeen, e ela é deputada trabalhista por Londres. Estão separados pela afiliação política, mas unidos na campanha pelo não à independência. Juntos distribuem, no centro de Aberdeen, panfletos contra a separação. “Confiar um projeto de país ao petróleo é estúpido”, opina ela. “O petróleo é controlado pelas multinacionais, os Governos só criam regulamentações. Se as companhias não estiverem à vontade, irão embora. Aberdeen precisa de investimentos novos. Os nacionalistas propõem um salto às cegas. Nós propomos diversificação com energias renováveis.” “O SNP diz que o petróleo pagará tudo”, acrescenta ele, “mas são jazidas muito maduras. Os dividendos petrolíferos são apenas uma parte da riqueza do nosso país, e a Escócia tem se beneficiado dela como o resto.”

No outro lado da Union Street fica o gabinete de Jake Molloy, diretor regional do sindicato de transportes RMT. Perguntado sobre o que resta de petróleo debaixo destes mares, ele se aproxima de um mapa das ilhas britânicas, com suas águas divididas em zonas retilíneas. “Os blocos vermelhos são gás, os verdes, petróleo, e os cinzas estão por explorar”, explica. “Tudo isto a oeste das ilhas Shetland, por exemplo, não foi tocado. Não sabemos o que há ali. O que sabemos é que a BP, a Shell, a Total e a Chevron estão investindo bilhões na área. Nesta outra parte, a corporação estatal da Noruega constrói uma refinaria. Quatro grandes estatais e quatro grandes companhias privadas estão investindo muito em nossas águas. Isso dá uma ideia do que há aí embaixo.”

Molloy minimiza o risco de que a incerteza pós-independência possa afugentar as empresas petroleiras. “O sim poderia salvar o setor”, defende, “porque ele seria mais bem administrado. Não é possível fazer pior do que como vem sendo feito até agora. O único momento em que os [parlamentares] de Westminster pensam no petróleo é quando põem gasolina nos seus carros. Este país não teve uma política energética. Fala-se de recursos renováveis, mas não há um plano. Não sou seguidor do [líder separatista Alex] Salmond, mas ele tem razão quando diz que a Escócia pode administrar seu petróleo como os escandinavos. Sendo muito pessimistas, temos reservas para 30 anos. A única coisa que separa a Escócia da independência é o medo”.

A tarde descarrega uma chuva forte sobre Aberdeen. Michael, do departamento de comunicação conservador, não respondeu às mensagens, mas um emocionado Cameron já disse: “Se a Escócia votar sim, o Reino Unido se dividirá e partiremos por caminhos separados para sempre”.

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