Mercosul, cada um por si

O bloco econômico sul-americano não fecha acordos Seus dirigentes utilizam as cúpulas para defender seus próprios interesses

Os presidentes posam para a foto oficial da cúpula do Mercosul.
Os presidentes posam para a foto oficial da cúpula do Mercosul.Jorge Silva (REUTERS)

A cúpula recente do Mercosul celebrada na segunda-feira em Caracas foi marcada pela condenação unânime dos fundos abutres, que fizeram a Argentina beirar o default. E pelas posições diferentes, evidentes nos discursos dos presidentes, em relação ao modelo econômico seguido pelos países membros – Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela. O caráter geopolítico do grupo ganhou mais destaque que as discussões sobre negócios.

Apenas os presidentes do Brasil, Dilma Rousseff, e do Paraguai, Horacio Cartes, priorizaram em suas intervenções o assunto supostamente vital para a integração do bloco, que em pouco tempo ganhará a Bolívia como membro pleno. Dilma, por exemplo, preferiu ler um texto em que fazia votos pela ampliação da zona de livre comércio no continente. O Brasil precisa imprimir um empurrão a sua economia e procurou convencer os membros do Mercosul a se associarem à Aliança do Pacífico, formada pelo Chile, Colômbia, México e Peru.

Cartes, por sua vez, destacou também que o Mercosul precisa fomentar economias competitivas e abrir oportunidades para que seus cidadãos possam residir, trabalhar e estudar em qualquer país do bloco.

Quando retorno ao Uruguai, as pessoas me perguntam o que decidimos... Eu sei lá o que decidiram. Fizemos uma declaração
José Mujica, presidente do Uruguai

A Argentina não estava em condições de sintonizar-se com essas colocações. Pressionada pela suspensão iminente de pagamentos, sua presidenta, Cristina Kirchner, que recebeu a Presidência rotativa da aliança, buscou o apoio do grupo.

Kirchner passou boa parte de seu tempo explicando a situação do default, chegando a fazer algumas brincadeiras. Em um momento de sua intervenção, aludiu a uma conversa que teve com um amigo. Os dois concluíram que no futuro dariam o nome de Rufo a um cachorro. “Rufo” é a sigla de uma cláusula dos acordos de reestruturação da dívida argentina. A piada do cachorro encontrou algum eco entre os presentes. No ano passado o irmão de Hugo Chávez, Adán, deu ao ex-presidente venezuelano um cachorro que batizou de Simón, em homenagem ao libertador Simón Bolívar, cuja liderança e obra Chávez admirava.

Todos foram a Caracas para velar por seus próprios interesses. Um dos convidados ao conclave, o presidente de El Salvador, Salvador Sánchez Cerén, pediu que Caracas mantenha a venda de petróleo em condições preferenciais aos países da América Central e do Caribe. O pedido coincide com a visão que a Venezuela tem da aliança. O governante anfitrião, Nicolás Maduro, destacou o caráter estratégico do Mercosul e pediu que se trabalhe para associar o bloco à Aliança para os Povos de Nossa América (Alba), criada pelo falecido Hugo Chávez como resposta ao tratado de livre comércio entre Estados Unidos e América Latina (Alca). “É uma formação econômica que se propõe a ir muito além do que se convencionou chamar de livre comércio. Muito além. Se propõe a transcendê-lo, chegando ao comércio justo e integrador. Chegando ao desenvolvimento de investimentos conjuntos, ao desenvolvimento das forças produtivas”, ressaltou Maduro.

O único que parece estar além do bem e do mal é o presidente do Uruguai, José Mujica. Ele não é afeito a sutilezas no âmbito privado ou público. Ao ganhar o direito à palavra das mãos do anfitrião, o governante uruguaio fez uma brincadeira: “Obrigado, companheiro Maduro, que continua verde de esperança”. Depois, dirigindo-se à presidenta da Argentina com uma piscadela irônica, acrescentou: “Agora nos reunimos mais com Cristina, que não tem problemas”.

Foi uma introdução para criticar, em um relato sucinto da história da América Latina, a improdutividade dessas reuniões. “Quando retorno ao Uruguai, as pessoas me perguntam o que decidimos... Eu sei lá o que decidiram. Fizemos uma declaração.” Como alternativa aos encontros presidenciais, o presidente uruguaio sugeriu reuniões mais produtivas e propôs como alternativa que os temas mais comuns sejam discutidos ao telefone. E advertiu que, caso contrário, pode ser frustrada “uma tentativa maravilhosa” de consolidar a aliança, que descreveu como “o pobre Mercosul”.

Brasil, Argentina e Uruguai concordaram quando ao benefício que os investimentos chineses representam para as economias. Mujica mencionou o assunto quando fez uma piada sobre a presença dos Estados Unidos no continente, arrancando uma risada breve da presidenta Kirchner. Nesse relato sobre a história do continente, ele disse que esse país arrasou o continente “com seus modos toscos, grosseiros, cheios de ‘fox-trot’ e talvez de mais mau gosto”.

A China disponibilizou um fundo de 35 bilhões de dólares (78,7 bilhões de reais) para financiar projetos de infraestrutura e desenvolvimento, assim como acordos de intercâmbio comercial. “Não me recordo se alguém alguma vez veio à América Latina para nos propor essas coisas. É um convite de características globais como nunca antes tivemos, e não devemos perder essa oportunidade de vista”, disse Mujica. Mas advertiu: “Sabemos que neste mundo os peixes pequenos têm que tomar cuidado com os peixes grandes”.

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