MUNDIAL DO BRASIL

Os mistérios do futebol

Brasil e Alemanha, que se enfrentam nas semifinais, são dois clássicos quase desconhecidos Com o passar do tempo, as duas seleções mesclaram seus papéis futebolísticos Messi decidiu criar as jogadas de gol

Messi, durante a partida contra a Bélgica.
Messi, durante a partida contra a Bélgica.Victor R. Caivano (AP)

O futebol é um acumulado de acontecimentos e casualidades, de tantas certezas como desmentidos. Abundam os mistérios trinitários. Na Copa do Brasil 2014 ocorreram muitos episódios imprevistos, causalidades, estatísticas que tiram qualquer julgamento precipitado do torcedor. James e Neymar caíram no mesmo dia; um Messi indistinto se aproxima de Maradona enquanto a Argentina fica sem sua grande virtude, um ataque já sem Agüero e Di María, e se sustenta com seu duvidoso mecanismo defensivo; os zagueiros ganham as quartas de final no lugar dos atacantes; a única eliminatória disputada nos pênaltis, no princípio era a menos complicada – Holanda x Costa Rica –; Van Gaal por fim pode vender seu passe para o melhor preço; e não estão iluminados só os goleiros modestos, como também os que chegaram no Brasil como os últimos da fila, caso de Krul. E, de imediato, duas semifinais com uma história desconcertante: existem mais contas pendentes entre argentinos e holandeses do que entre brasileiros e alemães, as duas seleções mais enciclopédicas.

Brasil e Alemanha nem se conhecem. É bruxaria, as duas equipes com mais partidas na história das Copas se cruzarão nesta terça-feira somente pela segunda vez. No imaginário popular poderia ser o clássico dos clássicos deste campeonato, mas acontece que os rumos do destino os separaram quase para a vida toda. Os dados são contundentes: brasileiros e alemães jogaram 196 partidas em mundiais e só se cruzaram uma vez na final da Copa da Coreia e do Japão de 2002, quando Ronaldo fez troça de Kahn. O Brasil, mais frustrado, jogou contra esta Alemanha tantas vezes quanto o fez com a antiga Alemanha Oriental, que enfrentou precisamente em Hannover, em 26 de junho de 1974, e que derrotou com um gol de Rivelino.

O Brasil jogou 97 partidas (67 vitórias – 74% - 15 empates e 15 derrotas) e a Alemanha, 99 (60 vitórias – 67% - 19 empates e 20 derrotas). É chocante que os alemães tenham mais jogos, uma vez que participaram de 18 edições contra 20 dos canarinhos. Ao contrário do que aparenta ser dogmático, o virtuoso jogo bonito até agora deu ao Brasil somente sete gols a mais (210 contra 203 gols alemães). Por outro lado, a suposta consistência defensiva da ‘Mannschaft’ não foi superior à presumida abertura brasileira: 117 gols tomados pela Alemanha contra apenas 88 do Brasil. Será que com a bola nos pés se defende melhor? Mistérios do futebol, com seus elogios caprichosos e falsos clichês.

Um passado surpreendente. O choque germano-brasileiro de terça acentua o peso da história das Copas, onde as zebras resistem no máximo até as semifinais. A partir daí, chegam as superpotências. Com melhores ou piores gerações de jogadores, Brasil e Alemanha quase monopolizam o sucesso de forma constrangedora. Desde 1950, e como vai acontecer de novo nesta edição, quase sempre estiveram em todas as finais, com exceção das de 1978 (Argentina x Holanda), 2006 (Itália x França) e 2010 (Espanha x Holanda). O país de Pelé chegou sete vezes na última partida, as mesmas que o de Beckenbauer, ainda que os sul-americanos gritaram bingo em cinco ocasiões e os europeus somente em três. Estas duas seleções têm sido tão avassaladoras que, tirando o ocorrido 84 anos atrás, quando nenhuma destas duas foi para a final, pelo menos uma foi terceira colocada. O Brasil, em 1938 e 1978; a Alemanha, em 2006 e 2010. Um poderio demolidor. Mistérios do futebol e seus cromossomos.

Joachim Löw.
Joachim Löw.Martin Rose (Getty Images)

A Alemanha carioca e o Brasil do Ruhr. Os germânicos nem sempre foram uma equipe cinza e tenaz. Transbordavam talento nos anos 60 e princípios dos 70, até o futebol se industrializar e dar preferência aos atletas em detrimento dos jogadores de futebol. Como o pódio pode dar razão, o triunfo na pior Copa da história, em 1990 com uma seleção medíocre, fez com que se aprofundassem na sua ideia de imposição física. Ratificada quando o torneio voltou para sua casa em 2006 e, apesar de cair em uma prorrogação contra a Itália nas semifinais, Löw, então ajudante de Klinsmann, manteve o pensamento próprio. Com este manual de estilo, com meio campistas sutis, o jogo geométrico e não direto, aterrissou no Brasil. Fulminada a Espanha, nenhum conjunto pode prescindir de uma coluna semelhante de volantes e meias. Löw teve alguns solavancos, como contra a França, mas é o mais aproximado do genuíno modelo brasileiro. Nada mais é o mesmo e agora quem joga sorrindo é Neuer. Quem diria, com antepassados como Kanh, Schumacher ou Lehmann, todos com cara de poucos amigos e com vinagre no sangre. Ao contrário, o Brasil do sargento Scolari perdeu a ginga de Ronaldo, Roberto Carlos e Ronaldinho em benefício de fernandinhos e luiz gustavos. Da alegria de jogar por jogar para ganhar para a ansiedade de vencer, vencer ou vencer. Mistérios do futebol e suas mudanças de humor.

Deu um ataque de Xavi em Messi. Um gênio como Leo pode jogar onde der na telha. Com a Argentina, viu que seus melhores parceiros não estão no mesmo lugar no qual gravitam Xavi e Iniesta, mas no mesmo lugar em que ele joga no Barcelona. De goleador para armador. Messi decidiu construir as jogadas de gol, deu um passe atrás para governar os arredores e o ataque é função de Higuaín, Agüero e Di María. Com estes dois lesionados, ‘La Pulga’ terá que voltar para frente, não sentir que a área não faz parte de seu reinado. Sua mutação é tal, que do Messi que se aproximava dos 100 gols por temporada ficou um Leo que, nesta Copa, segundo as estatísticas da FIFA, chutou a gol nove vezes em 453 minutos. O mesmo ou menos que outros 14 jogadores: Benzema (25), Di María (21), Shaqiri (16), Robben (16), James (16), CR (14), Neymar (13), Sneidjer (12), Van Persie (11), Schürrle (10) e Luis Suárez, Dempsey, Honda e Origi (todos 9). Tirando Neymar, Robben e seu compatriota Sneidjer, todos os demais jogaram menos minutos que o craque argentino. Mistérios do futebol e as coisas de seus artistas.

Krul pára um pênalti a Costa Rica.
Krul pára um pênalti a Costa Rica.MARCOS BRINDICCI (REUTERS REUTERS)

Krul, o ponto positivo de Van Gaal. Os quatro aspirantes ao trono têm virtudes distintas. Sem o talento de Neymar, o Brasil vale-se de sua torcida e de sua condição de anfitrião. A Alemanha, da tática de Löw; a Argentina, de Messi, e a Holanda, dos esquemas de Van Gaal. O técnico holandês é o de maior repertório tático. Contra a Costa Rica o novo treinador do Manchester United voltou os atacantes para alargar o campo e começou com três zagueiros e dois laterais muito adiantados. O ponto mais positivo foi quando tirou do fundo do baú seu terceiro goleiro, Tim Krul, para o paredão dos pênaltis. A lógica de Van Gaal: com 1,93 metros, seis centímetros a mais que o titular Cillessen, chegaria mais facilmente nos cantos do gol. O treinador não levou em conta que Krul, que com 26 anos é jogador do Newcastle, não estava com ritmo de jogo. O rapaz já sofreu duas graves lesões nos ligamentos do joelho em sua carreira e, nas duas vezes, enquanto se aquecia antes de uma partida.

Van Gaal tampouco reparou, ou deu na mesma para ele, que o goleiro havia defendido dois dos últimos 20 pênaltis e que para ver o último era necessário voltar até fevereiro de 2012. Van Gaal, sempre teimoso, desta vez acertou como nunca. Apenas Krul sabia o que iria acontecer. Mas Krul não desconhecia o sentimento de ver todos os companheiros correndo para abraçá-lo após uma decisão por pênaltis: “Havia visto muitas vezes, mas pela televisão”. Sendo a Copa dos goleiros, parecia um sonho ainda ter uma gota de glória para um reserva do reserva como Krul. Mistérios do futebol, filantropo em algumas ocasiões.

Faltou a Costa Rica para a América. Em 84 anos, a América nunca esteve tão próxima de contar com três semifinalistas, o que não voltou a acontecer desde o Uruguai em 1930. Naquele raquítico e germinal torneio, o anfitrião, a Argentina e os Estados Unidos compartilharam as semifinais com a Iugoslávia. Teria sido paradoxal que o momento chegasse com a fantástica Costa Rica, que com 4,8 milhões de habitantes era o terceiro país menos povoado do campeonato após a Bósnia (3,8) e o Uruguai (3,3). Os ‘ticos’ só estavam na sua quarta participação e foram bravos contra três ganhadores mundiais (Inglaterra, Itália e Uruguai), um triplo vice-campeão (Holanda) e um campeão da Europa (Grécia). Mistérios do futebol, onde as vezes acontecem contos de fadas.

Barça e Real Madrid: O tumulto de Suárez e os 450 passes de Kroos. O Barcelona, que a FIFA havia proibido de fazer contratação, está prestes a fechar com um jogador proibido pela FIFA. Luiz Suárez, um desordeiro. Da sua parte, o Real Madrid da explosão de Bale e Cristiano, que não prende a bola, mas joga com o turbo ligado no máximo, teve um caso de amor à primeira vista com o terceiro jogador que mais passes dá na Copa: Kroos (450), superado apenas por Mascherano (465) e Lahm (471). Mistérios do futebol e suas contas do Tesouro.

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