“É uma criança, vão sobrecarregá-la”

Jogadores, treinadores e pais alertam para o perigo pessoal do caso de Lucy Li A menina disputou o US Open com apenas 11 anos

Lucy Li, na primeira jornada do US Open.
Lucy Li, na primeira jornada do US Open.DAVID CANNON (AFP)

“Agora vou tomar um sorvete”. Assim a jogadora Lucy Liu encerrou sua participação no US Open, um dos maiores torneios do circuito feminino de golfe, depois de não passar de duas jornadas de 78 tacadas. Um sorvete que não era para voltar à infância, mas, sim, para uma criança de verdade. Com apenas 11 anos, Lucy Li competiu como amateur (“amadora”) entre as profissionais, levando ao limite os recordes de precocidade do esporte. A norte-americana, filha de pais chineses, se classificou depois de ganhar rodadas regionais. Na quinta-feira, apareceu com um vestido vermelho, azul e branco, as cores da bandeira americana. Na sexta, veio de preto e branco e tinha o rosto coberto com uma espessa camada de filtro solar. “Aprendi muito e tive um ótimo torneio. O segredo entre os majors está na paciência e creio que consegui ser paciente. Agora, meus planos são tomar sorvete e me preparar para o US Amateur. Meus amigos me dizem que estou famosa!”, disse, despedindo-se com um sorriso e assinando autógrafos com uma caligrafia infantil.

Os patrocinadores e empresários ficaram de olho em Lucy Li, as câmeras procuravam por ela, as outras jogadoras falavam dela. Mas suas companheiras, assim como treinadores e pais, alertam para o risco pessoal de fazer uma menina de 11 anos debutar entre a elite do esporte. “Essa é uma idade para ir à escola. Não é para estar madura e competindo. Na Espanha, ela estaria no primeiro ano da categoria juvenil”, explica Mar Ruiz de la Torre, presidenta do comitê amateur feminino da federação espanhola. “Michelle Wie era comparada com profissionais aos 14 anos. Aos 18, já competia contra homens. Sentiu-se pressionada e entrou em uma crise da qual custou muito a sair. Viveu anos muitos difíceis [agora liderava o US Open]. O caso de Lucy Li me espanta. A decisão de estar ali não é dela, é de adultos que a empurraram para isso. Com 11 anos, é possível fazer muita pressão sobre uma pessoa. Se ela for bem, vão sempre exigir que se supere cada vez mais; se não conseguir, a culpam e ela entra em uma depressão. É a formação asiática, exigem muito das crianças. Agora é festa, mas estão fazendo um filme com ela. Isso não é real. É como se jogassem videogame com ela”.

Lucy Li nasceu em outubro de 2002, em Stanford, Califórnia. Seus pais, Warren Li e Amy Zeng, haviam chegado aos Estados Unidos quatro anos antes, após crescerem na China e terem morado na Austrália. Lucy começou a jogar golfe aos sete anos. Enquanto esperava seu irmão em um campo, pegou um taco e se encantou. Hoje, treina três vezes por semana. Gosta de tênis de mesa, de mergulho e de dança, além dos livros de Sherlock Holmes. “Só quero me divertir”, diz.

“Me dá pena dela, muito disso é puro marketing”, comenta Macarena Campomanes, bicampeã mundial amateur em 1986 e 1992, então com 22 e 28 anos, respectivamente. “A experiência não costuma dar certo. Agora, ela vai voltar para a escola, mas nada será como antes. Já exigem dela algo mais, que participe de competições. Deixou de ser criança. Baterá recordes e logo vão querer ainda mais dela. É um espetáculo”. “Ela não está preparada para superar os momentos ruins. Podem acabar com ela como pessoa. Nós, pais, devemos primeiro formar pessoas, depois jogadoras”, reconhece Jesús Ciganda, pai de Carlota, uma das seis espanholas no US Open. Aos 14 anos, Carlota foi a mais jovem vencedora do Europeu amateur, mas concluiu o primeiro ciclo universitário na Espanha, se formou em uma faculdade no Arizona e só se tornou profissional aos 22 anos. Agora tem 24 e jogou contra Li.

Lucy Li, depois da segunda jornada.
Lucy Li, depois da segunda jornada.STREETER LECKA (AFP)
Lucy Li é norte-americana, filha de pais chineses, e começou a jogar golfe aos sete anos

Foi na idade em que Lucy disputa um grande torneio que Beatriz Recari pegou pela primeira vez em um taco de golfe. Neste US Open participaram juntas da mesma rodada de treinos. “Me surpreendi por sua calma com todos que a cercam”, conta Recari. Seu pai, José Luis, argumenta: “Uma criança tem que se divertir. No esporte, há pais que pensam que o filho é a sua salvação”. “Eu não faria isso com minha filha”, acrescenta Marta Figueras Dotti, ex-jogadora e agora treinadora das equipes espanholas. “Para que? Para dar exposição a ela? Com 15 anos, tudo bem. Mas com 11, você é uma criança que não sabe nada. Para que tanta pressa em um esporte em que se pode jogar até os 40 anos? Poderá ser outra Michelle Wie”.

Miguel Ángel Jiménez, na elite aos 50, fala na condição de jogador, de pai de dois meninos de 19 e 15 anos que querem ser golfistas, e de membro do comitê de jogadores do circuito europeu. “Aos 11 anos, é preciso jogar, não competir. O problema são os pais, que querem que seus filhos sejam estrelas. Que os deixem ser crianças”. O comitê europeu debateu recentemente a questão da idade mínima para um jogador passar à categoria profissional. Jiménez defende que seja a idade a partir da qual o jovem pode votar em cada país. A normativa do golfe não regulamenta esse aspecto de maneira clara. Por isso, vê-se casos como o de Lucy Li, uma menina adulta.

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