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A rádio do pai de Pelé

Pelé, durante a final da Copa 1958 contra a Suécia.
Pelé, durante a final da Copa 1958 contra a Suécia. (AGÊNCIAS)

Então, dizem, prometeu-lhe que quando crescesse ganharia a Copa do Mundo. Cumpriu a promessa oito anos depois. O pai de Pelé, desolado diante de um aparelho de rádio dos de então, que retransmitiam as palavras incrédulas de um locutor que descrevia como os jogadores brasileiros choravam abraçando os atônitos jogadores uruguaios (que também choravam, talvez por saberem que eram usurpadores), é um grande símbolo de um país que desmoronou psicologicamente naquele dia. Um cronista brasileiro da época definiu aquela partida maldita para o Brasil de maneira contundente: “Este é o nosso Waterloo”.

Desde então, a história política do Brasil sempre se misturou com a trajetória da seleção nas Copas do Mundo de futebol. Não é casualidade que as eleições gerais brasileiras, que acontecem a cada quatro anos, coincidam sucessivamente com as Copas. Este ano também coincidem.

Mas voltemos atrás. Com a intenção de finalmente alcançar o título que lhes havia escapado no Rio oito anos antes, em 1958, um grupo de eleitos (entre os quais estava o menino que ouvia os jogos ao lado do pai compungido) partiu para a Suécia. Além dos jogadores e dos preparadores físicos, o time contava, entre outros, com um massagista, um dentista, um psicólogo e um podólogo.

No Brasil fizeram gozações pelo o fato de haver um podólogo. Também pelo dentista, que antes do início do torneio extraiu uma média de 3,5 dentes por jogador. Desconheço os dentes que arrancaram de Pelé com 17 anos. O trabalho do psicólogo —mais que o do podólogo— era importante porque se considerava que os integrantes da seleção, como explica o jornalista e historiador Marcos Guterman no interessante livro O futebol explica o Brasil, fraquejavam mais da cabeça que do pé. Segundo o especialista, Pelé era “obviamente infantil e sem espírito de luta” e Garrincha possuía uma inteligência “abaixo da média” e carecia de “agressividade”. Felizmente, o treinador não lhe deu ouvidos e o Brasil conquistou não apenas a Copa do Mundo, mas a autoestima perdida como nação no Maracanã.

Agora também tudo se mistura e os cientistas políticos e sociólogos discutem e discursam sobre qual influência teria uma hipotética derrota do Brasil (que o Brasil não ganhe é uma derrota) sobre as eleições gerais de outubro e até que ponto Dilma Rousseff, a atual presidenta da nação, arrisca tudo não apenas nas urnas e nos protestos nas ruas, mas também no campo.

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