A maldição da esquerda lusa

O confronto histórico entre o Partido Socialista e outras forças mais radicais condena a oposição a grande parte do espectro político de Portugal

Comunistas contra a alta do transporte público em Lisboa em 2012.
Comunistas contra a alta do transporte público em Lisboa em 2012.ap
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Na semana passada, em uma conferência que celebrava o 40º aniversário da Revolução dos Cravos, o ex-ministro e ex-deputado socialista português António Vitorino foi claro: “Desde aqueles dias, no país há um bipartidarismo imperfeito: a direita se alia entre si para conquistar o poder; e a esquerda não”. O articulista e cômico Ricardo Araújo Pereira, um dos mais populares do país, o referendou em um recente artigo: “Os partidos de esquerda em Portugal estão de acordo sobretudo em uma coisa: é melhor que a direita governe do que unir forças para derrubá-la”. E o cientista político António Costa Pinto, nessa mesma conferência que comemorava os 40 anos da democracia em Portugal, acrescentava: “Tantos anos depois, e essa divisão que nasceu em um tempo de blocos e Guerra Fria ainda continua”. Em Portugal há três formações de esquerda com representação parlamentar, atualmente na oposição. O Partido Socialista português (PS), com 74 deputados; o Partido Comunista Português (PCP), com 14, e o Bloco de Esquerda (BÊ), com oito. As desavenças são múltiplas entre o PS e os outros dois, juntos ou separados; também ocorrem muito entre o PCP e o BE. Inclusive entre este último sozinho: há pouco tempo sofreu uma rachadura.

Diante deste panorama minado, há muitos que prognosticam que nas eleições do ano que vem, se o Partido Socialista português conseguir maioria simples (coisa muito provável segundo as últimas pesquisas) buscará alianças olhando para a direita em vez da esquerda. Isto é: escolherá como sócio o Centro Democrático Social, que atualmente agrupa aproximadamente 7,5% dos votos e está coligado com a formação governamental de centro-direita de Pedro Passos Coelho no Governo. E deixará de lado o PCP, que segundo os últimos inquéritos, será capaz de atrair 10% do eleitorado e ao Bloco de Esquerda, com 7%.

Não será a primeira vez. De fato, salvo uma aliança celebrada há anos na prefeitura de Lisboa entre socialistas e comunistas, e alguma que outra coalizão autárquica, estas duas formações jamais se uniram para formar Governo. As causas afundam-se na história da democracia portuguesa, entre outros fatores na profunda antipatia e a rejeição mútua que previa Mário Soares, líder histórico do PS, e Álvaro Cunhal, bandeira do PCP. As posições marxistas até o final de Cunhal escoaram sua formação, e sua reticência à social-democracia afastaram-no do modelo europeu de Soares. Estas divergências ainda afloram.

Os socialistas acusam os comunistas de ultramontanos, de não terem se movido e de jogar sempre contra, sem se atrever a governar nem a querer governar; os comunistas, por sua vez, criticam os socialistas de ser um decalque edulcorado das políticas liberais da direita portuguesa. E de ter assinado as condições leoninas da troika em 2011, quando governava o socialista José Sócrates, para que Portugal recebesse os 78 bilhões de euros (242 bilhões de reais) que a salvaram da bancarrota. Por sua vez, os socialistas repreendem o PCP (e o Bloco de Esquerda) por não ter apoiado Sócrates quando quis aplicar um plano de ajuste encaminhado, precisamente, para evitar o resgate e a troika.

Paradoxalmente, é o próprio Mário Soares que apadrinhou, nos últimos meses, duas iniciativas políticas, criadas na Aula Magna da Universidade de Lisboa, com o objetivo de unir diferentes facções da esquerda. Apesar de que nas duas ocasiões o auditório se encheu até a capacidade máxima, ele mesmo confessa que não houve sucesso.

As últimas eleições autárquicas, celebradas no ano passado, deixaram claras, além disso, várias tendências divergentes: o Partido Socialista subiu e conseguiu 36% dos votos; o Partido Comunista Português também, alcançando 10%. Mas o Bloco de Esquerdas, criado há 15 anos como forma de reagrupar, entre outros, comunistas descontentes e a socialistas desiludidos em busca de eleitores urbanos de esquerda, se afundou por baixo de 4% dos votos. De qualquer forma, o PS, para ganhar sem a maioria absoluta, precisará de qualquer dos dois. Ou dos dois.

O vice-presidente da Assembleia da República portuguesa, o ex-ministro socialista Eduardo Ferro Rodrigues, lembra que a situação do país é tão grave que ele defende que o PS elabore um programa tão grande que possa servir de guarda-chuva para muitas formações: "Deveria ser simples, que recuse a austeridade mas suficientemente aberto para que outros possam aderir”, explica. E acrescenta: “Não basta a alternância. Há uma grande desafeição à política. É necessária uma convergência. A democracia não aguenta outros 20 anos de austeridade. Por isso, eu defenderia por receber muitos apoios, de esquerda e de direita. Mas isso é fácil de dizer e difícil de fazer”.

O coordenador do BE João Semedo é consciente de que, ao falar da esquerda portuguesa “existe uma diferença entre as divergências das diferentes direções e as das bases, que não são tantas”. E agrega que isto leva à frustração. Mas assegura que a bola está sempre com os socialistas, que quando governa “apuntala políticas de direitas” e que uma maioria relativa nas próximas eleições, “será muito clarificadora de para onde vai e o que queira”.

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