Grupos civis armados avançam na tomada de municípios no México

O Governo do Estado reage anunciando que não tolerará que os civis controlem mais cidades

Grupo civil armado, em 26 de outubro, antes de entrar na cidade Apatzingo, no centro do México
Grupo civil armado, em 26 de outubro, antes de entrar na cidade Apatzingo, no centro do MéxicoSAÚL RUIZ

O desafio representado pelos grupos de defesa em Michoacán cresceu. Esses grupos de civis que pegaram em armas para defender, segundo eles, uma segurança da qual o Estado descuidou nos últimos anos estão há meses tentando “libertar da extorsão do narcotráfico” os povoados da região. Para isso, desalojam as polícias municipais e ocupam as prefeituras. No sábado passado, tomaram o município de Tancítaro e planejam em breve entrar em Los Reyes. Diante disso, o governador de Michoacán, Fausto Vallejo, já anunciou que não permitirá que as milícias comunitárias continuem assumindo o controle de povoados.

Não passavam das 9h quando, no sábado passado, grupos de civis armados vindos de Tepalcatepec e Buenavista entraram em Tancítaro. O povoado, com mais de 6.700 habitantes, está localizado na região oeste do Estado de Michoacán. Fizeram isso, conforme declarava na terça-feira um porta-voz das autodefesas, após romperem a trégua de duas semanas concedida ao Poder Executivo estadual. Ainda em 26 de outubro, milícias comunitárias de até seis municípios haviam chegado à cidade de Apatzingán, reduto do crime organizado na região. A intenção dos civis era “livrar os moradores do assédio do cartel dos Cavaleiros Templários”, uma dissidência da Família Michoacana, surgida em 2011. A intervenção foi repelida com o uso de granadas na praça principal do povoado, onde as autodefesas planejavam realizar um comício. Estavam sem armas, depois de o Exército tomar todas as que portavam. Haviam passado dois dias ao redor da sede do governo estadual comandado por Fausto Vallejo, líder do PRI ausente durante cinco meses por uma enfermidade que nunca foi oficialmente identificada. As autodefesas acharam então que seu regresso poderia indicar uma mudança na estratégia institucional contra o narcotráfico. Seu substituto e atual secretário de governo, Jesús Reyna, “havia sido incapaz de enfrentar o problema devido às suas relações com o crime organizado”, denunciaram, embora sem provas, as milícias em julho. Precisamente nesta terça-feira, o ex-governador interino declarou publicamente que nenhum município a mais será tomado pelas autodefesas. O motivo alegado foi que o Executivo federal, dirigido por Enrique Peña Nieto, já tem uma estratégia para acabar com o crime organizado.

“Nada mudou desde o regresso de Fausto, por isso decidimos intervir por nossa conta em Tancítaro”, reconhecia ontem José Manuel Mireles, um dos líderes do movimento das autodefesas em Michoacán. Em entrevista telefônica, esse homem de 1,90 metro de estatura, médico de profissão no município de Tepalcatepec, admitia estar “cansado”, mas nem de longe rendido. Ele é uma das pessoas mais ameaçadas pelos Templários desde que denunciou, em junho, que a gota d’água que fez o copo transbordar na região foram os abusos contra as esposas e filhas do povoado. Desde então, precisou trocar de telefone pessoal e deixou de atender à imprensa durante algum tempo. No sábado, ele participava do grupo que foi emboscado na comunidade de El Pareo, a poucos quilômetros da sede do município de Tancítaro. As imagens veiculadas na imprensa mostram um tiroteio que durou cerca de 15 minutos. A quatro quilômetros dali, o Exército aguardava para desarmá-los antes da entrada do povoado. A mesma coisa que havia ocorrido em Apatzingán três semanas antes. “Troque de camiseta”, lhe disse um militar naquela ocasião, já de noite, enquanto as milícias, escoltadas pelo Exército e a Polícia Federal, aguardavam que os agentes retirassem um reboque incendiado na metade do caminho, em uma área escura e de mata fechada. “Coloque alguma coisa preta. O senhor está o dia todo usando branco, e é facilmente reconhecível. Nesta zona, qualquer um poderia disparar à distância contra o senhor sem problemas”, dizia o militar de pé na rua, do outro lado do vidro do carro em que o médico viajava.

Nada mudou desde o regresso de Fausto, pelisso decidimos intervir por nossa conta em Tancítaro  

“O passo seguinte é o município de Los Reyes”, anuncia Mireles. Na estrada que leva a essa localidade, os Templários deixaram três cabeças no final de setembro. “Lá ocorreram os últimos sequestros e execuções, esperamos que a população se levante para ir apoiá-los.” Foi assim no sábado em Tancítaro, onde, com a colaboração dos moradores, os milicianos conseguiram em algumas horas tomar a praça principal e a sede municipal. O prefeito – “É dos nossos”, diz o médico – não estava naquele dia e regressou na terça-feira em meio a novos enfrentamentos na comunidade de Zirímbaro, que podem ter deixado um morto, embora não haja confirmação oficial. “Até o momento, temos dois companheiros em estado muito grave internados em um hospital privado, e outros seis com ferimentos superficiais.”

O conflito em Tierra Caliente, uma região econômica que abarca municípios de Guerrero e Michoacán onde a população vive fundamentalmente do gado e do cultivo de frutas como o limão, se transformou nos últimos meses em um novo-velho desafio para o Executivo de Peña Nieto, herdeiro de um problema que estourou durante o mandato de Felipe Calderón (2006-2012), com a chamada guerra ao narcotráfico. No começo de novembro, o Exército foi mobilizado no porto de Lázaro Cárdenas, o primeiro do país em termos de volume de carga geral e ponto de entrada e saída do Pacífico mexicano. Por seu valor estratégico, desde 2006 os cartéis da droga – primeiro a Família Michoacana, e depois os Cavaleiros Templários – haviam assumido o controle da atividade na área, permitindo o tráfico ilegal de substâncias como cocaína ou os precursores químicos para a fabricação de meta-anfetaminas. A extorsão sobre todos os negócios do lugar veio à tona com a intervenção militar.

No entanto, a recuperação de Lázaro Cárdenas não terminou com o problema da insegurança no Estado. “Nós, das autodefesas, não vamos parar até que o Estado de Michoacán esteja livre de criminosos, de qualquer cartel, mas até que esteja livre”, disse Mireles no sábado, durante a tomada de Tancítaro, que foi retransmitida para o público posteriormente.

“Que bom que se fez [a mobilização militar no porto], mas isso não basta. Não desmantela os Templários, só dificulta a sua atividade. Tampouco se soluciona o problema das milícias comunitárias, nem a crise política que o Estado vive”, comentava o pesquisador Alejandro Hope há alguns dias. “Estamos diante de um problema novo, um conflito político-militar”, afirmava.

“Uma guerra”, prefere dizer Josefina, de 42 anos, integrante do grupo Mulheres Apoiando o Movimento de Tepalcatepec, o qual pegou em armas em 24 de fevereiro. “Se vierem tempos difíceis, vamos precisar passar dias trancados em casa.” Na opinião dela – e de muitos a quem ela representa –, o próximo passo político é a independência de todos os municípios organizados contra o narcotráfico, sua associação em um só e o estabelecimento direto de relações com o governo federal.

Jaime Rivera Velázquez, cientista político e professor da Universidade Michoacana, considera que é difícil prever o futuro. “Eu entendo a formação das autodefesas e o fato de se estenderem a outros povoados. É uma reação à ausência prolongada do Estado.” O professor acredita que em algum momento a intervenção do Executivo federal poderá se tornar inevitável. “O governo de Peña encontrou nas autodefesas um aliado incômodo, mas, afinal de contas, aliado. No entanto, é muito difícil manter esse frágil equilíbrio. A qualquer momento pode ocorrer um enfrentamento de grandes dimensões que sacuda o país e obrigue o governo federal a uma maior intervenção policial, militar e também política, que substitua os governos municipais que são reféns ou cúmplices do crime organizado.” Nesse sentido, ele acha possível, de fato, que a população aceite uma relação direta com o governo central.

Na opinião de Rivera Velázquez, a ineficácia do Executivo estatal vai além da segurança. “As finanças públicas saqueadas de forma impune, a educação e a degradação dos poderes locais, que criaram uma situação exasperante”, cita ele. O cientista político aponta dúvidas a respeito da coordenação Federação-Estado na luta contra o narcotráfico. “Pode ser contraproducente”, e explica: “A segurança pública de Michoacán e a Procuradoria em anos anteriores estiveram passivas e inclusive mancomunadas com o crime, razão pela qual hoje o governo conta com agentes que podem manter essas relações”. Jaime Rivera reconhece que às vezes alguém lhe pergunta se Michoacán “está à beira de uma guerra civil”. Ele mesmo responde: “Há alguns indícios de que a situação poderia evoluir para isso em algumas zonas, mas só em algumas. Em outras, a população já se acostumou a essa situação e a vive como algo normal. Ainda que não seja”.

 

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