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Uma noite de futebol com o Unicorns FC, o time que joga contra a homofobia

Eles surgiram há dois anos para inserir o público gay no esporte e contam com mais de 40 jogadores

Em julho, será realizada a Taça Unicórnio da Diversidade, envolvendo três times de São Paulo e Rio de Janeiro

parada gay 2017
"No fim do jogo, é todo mundo do mesmo time". EL PAÍS

Aplausos para gols de adversários e até para erros de jogadores do próprio time, olhares curiosos de quem passa por perto e comentários como "toca logo a bola, viado!" ou "para de olhar para as pernas dos outros e joga, bicha", entre muitas risadas, num jogo marcado por leveza e diversão incomuns. Parece outro esporte, mas é futebol. É o futebol do Unicorns, um time formado em São Paulo para lutar contra a homofobia e criar um ambiente acolhedor para os homossexuais, "onde possam se sentir livres e serem como são", como conta Bruno Host, um dos fundadores da equipe.

A reportagem do EL PAÍS acompanhou uma das noites de quarta-feira de futebol com os unicórnios, no bairro do Ipiranga, sudeste da capital paulistana. "Não entramos [em campo] para o jogo de nossas vidas. A vitória e a competição não são os nossos propósitos", conta Host. O jogo de suas vidas, na verdade, “é conseguir fazer o público LGBT ter espaço no esporte." Não por acaso, o futebol dos Unicorns é diferente: sem divididas, incentivos constantes aos "pernas-de-pau", aplausos para todos e muitas risadas e brincadeiras. "A gente nunca se tolheu. Ninguém aqui precisa mudar para ser aceito. Somos aqui como somos de verdade. Também por isso que nos tornamos uma família", conta o diretor de arte, de 29 anos, sobre o time criado em 2015.

A diversão é a marca do time, e, por conta disso, até mesmo aqueles que não gostam de futebol marcam presença na reunião das quartas-feiras. Entre amigos, namorados e maridos que iam ver os jogos se formou a torcida das "bearleaders", "uma brincadeira de misturar 'cheerleaders' e ursos, como são chamados os gays mais robustos e peludos", explica Daniel Lovizzaro, 36, gerente financeiro. "O que me traz aqui? A diversão, a bagunça. É um sentimento de acolhimento. Nunca gostei de futebol e não jogo, mas faço questão de estar aqui toda quarta. Tem dias que eu venho e o Rodrigo (seu marido), não", brinca ele, um dos bearleaders.

Alguns dos 'Bearleaders', durante o futebol de quarta-feira.
Alguns dos 'Bearleaders', durante o futebol de quarta-feira. EL PAÍS

Advogado e co-fundador do time, Filipe Marquezin explicita a importância dessa iniciativa: "Vários gays não gostam [de futebol] mesmo. Mas existem muitos que deixaram de jogar em algum momento por conta de bullying, intolerância, homofobia. Tanto que há alguns aqui que não jogam bem, justamente por estarem retomando algo que pararam de fazer há muito tempo. Então, nossa equipe serve para criar esse espaço e recebê-los, fazer com que se sintam incluídos." Marquezin conta que a iniciativa do Unicorns influenciou a criação de um time no Rio de Janeiro, o Bees Cats, e que ainda há outros em São Paulo - Futboys, Affront, Natos FC, Real Centro e Bulls -, e que estes, juntos dos unicórnios, participarão do primeiro campeonato só para equipes gays na capital paulista. No próximo dia 29 de julho, será realizada a Taça Unicórnio da Diversidade, envolvendo três times de São Paulo e Rio de Janeiro: Unicorns, Bees Cats e Futboys, que, por conta da quantidade de jogadores, serão divididos em dois, totalizando seis times na competição.

Apesar do espaço conquistado e do crescente número de participantes, Host acredita que a situação para os homossexuais no futebol - e em outros esportes - poderia ser muito melhor. “Falta uma representação no futebol nacional e mundial. Nenhum jogador conhecido assume homossexualidade. É humanamente impossível que não existam jogadores gays. Aí nós ainda temos que ver um caso como esse do Richarlyson (que sofreu ataques homofóbicos). É lamentável. Talvez isso não acontecesse se houvesse essa representação, talvez a homofobia ainda não fosse tão presente."

Bruno Mastantuono, de 31 anos, é um dos mais antigos unicórnios, e hoje ajuda Host e Marquezin na gestão da equipe. "Cresceu muito o número de participantes e interessados, então entramos eu e mais um para ajudar a organizar", explica ele, que conta o que o fez continuar no Unicorns: "Gosto bastante de jogar, mas jogo mal. O que me fez voltar é que me incentivam quando erro. No fim do jogo, é todo mundo do mesmo time", diz o publicitário, orgulhoso.

Estilo também não falta no futebol dos Unicorns.
Estilo também não falta no futebol dos Unicorns.

Por que não jogar contra héteros? Bruno Host explica: “Nós tentamos, uma vez. Um amigo nosso trouxe primos dele e outros colegas, e aí fizemos um jogo. Nós contra eles. Enquanto eles ganhavam, estava tudo bem. Mas, em um determinado momento, viramos o jogo. Aí, o clima mudou. Parecia um Brasil e Argentina, uma situação meio estranha. É justamente contra o que pregamos.”

Enquanto os Unicorns jogam no complexo de quadras de futebol society no Ipiranga, muitos passam, curiosos e silenciosos, para assistir ao futebol descontraído e pouco competitivo. Na quarta, Ricardo Marquart, empresário de 42 anos, também jogava bola com seus amigos. Perguntado sobre os Unicorns, brincou: “Só não jogamos contra eles porque ia ser uma derrota muito feia... A nossa! Tem uns ali que são muito bons, e aqui no nosso jogo só tem perna-de-pau.”

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