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O discurso de Helen Mirren para as mulheres que não se consideram feministas

"Comecei a entender que o feminismo não é uma ideia abstrata, mas uma necessidade”

Há homens e mulheres que continuam custando a entender o que o feminismo defende: a igualdade entre homens e mulheres. Desde que o movimentos feministas começaram a ganhar força, muitos (e muitas) repetem a frase que resume o desconhecimento sobre essa doutrina, “nem machismo nem feminismo”. A atriz espanhola Paula Echevarría abordou esse tema há poucos dias. Comparar ambos os conceitos, que não têm nada a ver, é o que leva muitas mulheres a não se definirem como feministas.

 

Outras dizem defender a igualdade sem se declararem feministas, o que é igualmente contraditório. Na Espanha existem atualmente exemplos recentes como a presidenta da Comunidade de Madri, Cristina Cifuentes, e a porta-voz dos Cidadãos da Catalunha, Inés Arrimadas. A chanceler alemã, Angela Merkel, defende o mesmo posicionamento. Outra mulher que não se considerava feminista até recentemente é a atriz britânica Helen Mirren. Mas ela mudou de opinião.

 

É o que afirma no discurso que fez em 20 de maio na Universidade de Tulane, em Nova Orleans (Louisiana, Estados Unidos). A ganhadora do Oscar por seu papel em A Rainha se pronunciou durante a cerimônia de graduação com a qual terminou o curso universitário. Lá deixou muito clara sua posição: “Não importa seu sexo ou sua raça. Seja feminista”. O trecho de seu discurso pela igualdade, em inglês, está a partir do minuto 16:30 do vídeo.

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"Em todos os países que visitei, da Suécia a Uganda, de Cingapura ao Mali, percebi que quando se respeita as mulheres e lhes dá a liberdade de realizarem seus sonhos e ambições, a vida melhora para todo mundo. Não me definia como feminista até pouco tempo, mas sempre vivi como tal”, acrescenta.

Mirren afirma que “acreditava no óbvio: as mulheres são tão capazes, tão ativas e tão inspiradoras como os homens”. “Mas”, continua, “unir-me a um movimento que se chama feminismo me parecia didático demais, muito político. No entanto, comecei a entender que o feminismo não é uma ideia abstrata, mas uma necessidade se queremos ir em frente e não retroceder, em direção à ignorância e à inveja”, afirma.

"Assim, agora me declaro feminista e os incentivo a fazerem o mesmo”, acrescenta. A atriz termina seu discurso feminista com o seguinte conselho, em referência às políticas do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump: “Nunca, jamais, voltem a permitir que um grupo de velhos, ricos e rabugentos brancos definam a saúde de um país que é composto por 50,8% de mulheres e 37% de outras raças".

 

A defesa feminista de Mirren faz parte de um discurso de quase 25 minutos que chamou a atenção da mídia nos Estados Unidos e no resto do mundo. Além do trecho sobre a igualdade entre homens e mulheres, a britânica dá os seguintes conselhos para se “ter uma vida feliz”. Mais do que ser feminista, propõe o seguinte:

 

1. Não se case cedo demais.

2. Trate as pessoas com respeito.

3. Ignore quem te julga pelo seu físico.

4. Não tenha medo do medo.

A transcrição completa do discurso de Mirren está disponível na página da Universidade de Tulane. Em sua fala aos formandos ela dá mais um conselho que recentemente também foi dado pelo ex-presidente Barack Obama: tome cuidado com suas redes sociais, pois tudo deixa pegadas na internet. “Nada bom pode sair de um tuíte às 3h da manhã”, diz Mirren.

 

Perguntas machistas

 

A atriz britânica demorou a se definir como feminista, mas há décadas já se comportava como tal. Pelo menos foi assim na entrevista que concedeu em 1975 ao jornalista britânico Michael Parkinson. O apresentador lhe pergunta, com todos os eufemismos a seu alcance, se seu físico dificultava que ela fosse considerada uma atriz respeitada.

“Quer dizer que as atrizes sérias não podem ter peitos grandes?”, responde Mirren. “Podem distrair da atuação”, responde o jornalista. Mirren suspira e lhe dá sua resposta: “Não acho que isso seja necessariamente correto. Seria uma atuação desprezível se as pessoas se fixam no tamanho dos seus peitos. Espero que a atuação, a obra ou a relação entre atores e seu público seja mais importante do que essas questões tão chatas”. Essa entrevista viralizou no ano passado depois de ser compartilhada no Facebook pela seção feminista do site The Tab, Babe.

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 A entrevista completa está disponível neste link.

Por que tanto cuidado para se considerar feminista?

Mari Luz Peinado

Miguel Lorente, médico perito e ex-representante do Governo para a violência de gênero, considera que se chamar de feminista nem sempre tem uma percepção positiva por parte do público. “O feminismo se apresenta como uma espécie de doutrinação imposta que te leva a tomar decisões por cima de sua vontade a favor de um determinado setor da sociedade [as mulheres], em vez de se apresentar como um pensamento que busca a igualdade”, explica.

“Às vezes por desconhecimento. Outras vezes é porque o feminismo é percebido como algo que intranquiliza. Se todo mundo soubesse bem o que é o feminismo e quantos avanços conseguiu para as mulheres, não duvidariam”, acrescenta Isabel Morant, professora de História Moderna e Contemporânea da Universidade de Valência.

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