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Trump apoia Macri e aposta em aprofundar a relação

Norte-americano o chama de “grande líder” e sugere solução para disputa sobre exportação de limões

Melania e Donald Trump, ao lado de Mauricio Macri e a mulher, Juliana Awada, na quinta-feira na Casa Branca.
Melania e Donald Trump, ao lado de Mauricio Macri e a mulher, Juliana Awada, na quinta-feira na Casa Branca. AFP

O passado empresarial e o presente político apertaram as mãos nesta quinta-feira na reunião realizada na Casa Branca entre o presidente norte-americano, Donald Trump, e o argentino, Mauricio Macri. “Foi meu amigo durante muitos anos. Nos conhecemos há muito tempo, antes da política e quem teria pensado que isso poderia acontecer com os dois”, disse Trump a Macri, que assentiu com a cabeça. Ambos fracassaram na tentativa de fazer negócios juntos na década de oitenta em Nova York, mas no Salão Oval tudo eram boas lembranças e vontade de entendimento.

Trump apoiou as reformas econômicas de Macri e defendeu o aprofundamento da relação bilateral. É o que o presidente argentino queria em sua primeira visita à Casa Branca, diante da incógnita de como a presidência do republicano pode afetar o degelo das relações com Washington depois do fim do kirchnerismo.

Antes da eleição, Macri chamou Trump de “maluco”, mas desde a vitória deste optou por uma abordagem pragmática. A ministra das Relações Exteriores da Argentina, Susana Malcorra, descreveu a nova Administração como um “risco” e uma “oportunidade”. A ameaça protecionista os distancia, assim como a retórica anti-imigração de Trump, mas, além de se conhecerem faz um bom tempo, compartilham semelhanças: são homens de negócio e orbitam o mundo da direita.

“Seremos grandes amigos, melhor do que nunca”, disse Trump, que tende a lançar elogios. “É um começo maravilhoso, porque conheço Mauricio há muitos anos, sei que tipo de pessoa ele é. É uma grande pessoa, um grande líder. Fará um trabalho fantástico para a Argentina e eu me sinto muito confortável apoiando-os porque precisam de certas coisas dos Estados Unidos”.

No entanto, Macri não obteve nenhum compromisso, ao menos público, de investimentos dos EUA na Argentina, como os prometidos pelo ex-presidente Barack Obama durante sua visita a Buenos Aires, em março de 2016, vitais para sua agenda pró-empresarial tendo em vista a debilidade econômica do país sul-americano. Antes de viajar para Washington, Macri se reuniu em Houston com investidores do setor de energia aos quais ofereceu uma Argentina “previsível e sustentável”.

Também não conseguiu desbloquear a exportação para os EUA de limões e biodiesel argentino, embora Trump tenha parecido aberto a encontrar uma solução para a disputa. “Acho que estaremos muito dispostos favoravelmente”, respondeu ao início da reunião a uma pergunta de uma jornalista sobre se levantaria a proibição temporária à importação de limões. A Argentina é o primeiro produtor mundial desse cítrico e sua exportação aos EUA tinha sido recentemente autorizada por Obama depois de 15 anos de bloqueio por supostas razões sanitárias.

Em uma declaração conjunta, Trump e Macri pediram a seus ministros que resolvam os problemas agrícolas pendentes através de “princípios científicos e padrões internacionais”. Também defenderam o aumento do comércio bilateral de produtos agrícolas e industriais. E assinaram acordos de cooperação contra o tráfico de drogas, de segurança cibernética e facilidades migratórias para argentinos que viajam aos EUA.

Preocupação com a Venezuela

Na reunião no Salão Oval e no almoço posterior com membros dos dois governos, Trump e Macri também abordaram a crise venezuelana. “Manifestaram forte preocupação com a deteriorada situação na Venezuela e concordaram em trabalhar estreitamente para preservar as instituições democráticas naquele país”, diz o comunicado conjunto.

O presidente dos EUA descreveu, ao lado do argentino, como um “desastre” o país caribenho no dia seguinte do anúncio de sua saída da Organização dos Estados Americanos. Ambos estão unidos por sua oposição ao governo de Nicolás Maduro. Nos primeiros três meses da presidência de Trump, a Casa Branca elevou o tom contra Caracas, mas por enquanto não aumentou seu papel na crise venezuelana.

Em um colóquio em um laboratório de ideias após a reunião, Macri disse que a Venezuela “não é uma democracia”, porque os direitos humanos não são respeitados e assegurou que vai continuar pressionando para a realização de eleições e a libertação dos presos políticos.

O presidente argentino — que é o segundo líder latino-americano a se reunir com Trump, depois do peruano Pedro Pablo Kuczynski — descreveu como “maravilhoso” o encontro na Casa Branca. “Encontramos um ambiente muito amigável. Estavam abertos a encontrar soluções”, disse, sem entrar em detalhes, no colóquio.

Com Trump apostou por “construir relações mais fortes e de longo prazo”, afirmou em declarações abertas à imprensa no início do almoço de trabalho. Falou de uma “grande vocação” argentina pelos EUA e tentou traçar paralelismos entre os dois países: “Tiveram desenvolvimentos semelhante na política, com uma Constituição semelhante e que, por desencontros inexplicáveis no tempo e na história, não conseguimos aprofundar”.

O ex-prefeito de Buenos Aires — que não fez nenhuma menção a Trump além brincar sobre os anos em que jogaram juntos ao golfe — argumentou que a Argentina “voltou a ser parte do cenário global” em uma alusão ao início de sua presidência no final de 2015 após uma década de governos kirchneristas, que se distanciaram dos EUA e se alinharam com o eixo latino-americano mais de esquerda. E defendeu uma “contribuição humilde” de Buenos Aires aos problemas globais, como o terrorismo e o crime organizado.

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