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O jornal de 3.000 exemplares que levou o Pulitzer por seus editoriais

Um periódico familiar do Estado de Iowa derrota 'The Washington Post' graças a uma série que denunciou uma campanha contra a proteção do meio ambiente

A capa do diário de Iowa vencedor do Pulitzer.
A capa do diário de Iowa vencedor do Pulitzer. The Storm Lake Times

Art Cullen pensou que as reportagens de seu jornal não poderiam competir com as chamadas de outros mais poderosos, por isso decidiu que sua melhor oportunidade para ganhar um Pulitzer estaria em seus editoriais. E ganhou. Aos 59 anos, este jornalista de uma pequena cidade do Estado de Iowa é o responsável por The Storm Lake, um jornal de apenas 3.000 exemplares, ter derrotado The Washington Post.

Cullen diz que na segunda-feira passada acompanhou pela Internet a cerimônia de anúncio dos prêmios e ao escutar seu nome não pôde deixar de gritar. “Fiquei eufórico”, afirma por telefone. “Me surpreendeu, fui rapidamente abraçar meu irmão e meu filho. Foi um momento muito especial para um jornal familiar como o nosso.”

The Storm Lake é um dos milhares de jornais locais dos Estados Unidos que seguem em frente com a paixão e o impulso de pequenas famílias com os Cullens. O irmão de Art, John, fundou a publicação em 1990 e se encarrega de equilibrar as contas. Sua mulher, Dolores, é repórter e fotógrafa e seu filho, Tom, é o jornalista que realizou a grande investigação que lhes valeu um prêmio histórico.

“É a melhor maneira de demonstrar o esforço que este jornal fez durante tantos anos para denunciar a má qualidade da água nesta região e as consequências da agricultura”, afirma. Cullen vem cobrindo o fenômeno da contaminação da água durante os últimos 25 anos, mas há dois anos as reportagens de The Storm Lake ganharam uma dimensão ainda maior.

Este jornalista, que se declara “100% irlandês”, diz que se interessou pela profissão graças às “divertidas” cartas que recebia de um de seus tios. Sua mãe ensinava literatura e seu pai cobria os esportes na universidade. Quando ele e o irmão cresceram, fundar um jornal era o caminho mais natural a seguir. Passados 27 anos conquistaram um Pulitzer graças a uma série de editoriais que desafiaram as grandes empresas agrícolas do país –Cargill e Monsanto, além do financiamento dos poderosos irmãos Koch— por bancarem a defesa dos acusados em uma demanda judicial por contaminação do meio ambiente.

Quando Cullen soube que se desconhecia quem estava doando recursos para defender os responsáveis por contaminar o principal rio da região, o jornal iniciou uma investigação até desvendar quem desembolsava o dinheiro. O júri do Pulitzer reconheceu na segunda-feira da semana passada seu “jornalismo incansável, seu impressionante conhecimento e sua escrita”.

Os editoriais refletem a responsabilidade do que estávamos fazendo e a tenacidade com que trabalhamos”, explica Cullen, falando da redação do jornal. A publicação, que sai duas vezes por semana, investigou o caso durante os dois últimos anos e, depois de conseguir que viessem à tona os nomes dessas empresas, promete continuar na cobertura do assunto “até que encontremos a maneira de fazer a agricultura de modo sustentável nesta região”.

O trabalho que levou um Pulitzer para uma localidade com apenas 11.000 habitantes no noroeste de Iowa continua em andamento. Cullen ri ao pensar que o próximo exemplar do jornal “talvez não seja tão bom”, depois de dois dias de festejos. “Mas isso é a única coisa que sempre pensamos: em dar o melhor de nós para o jornal que faremos no dia seguinte”.

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