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TRIBUNA

Novo olhar para a história da mulher paulista

As trajetórias das mulheres de São Paulo geram reflexões sobre dependência e autonomia; resignação e realização; submissão e protagonismo

Formandos de 1938 da USP em salão do Teatro Municipal de São Paulo.
Formandos de 1938 da USP em salão do Teatro Municipal de São Paulo. FFLCH

Estudos históricos recentes reveem a condição de total submissão das mulheres em seu papel social no passado brasileiro, o que prevalecia até poucas décadas na bibliografia. A verdade é que, seja nas elites, camadas intermediárias ou populares, a mulher paulista foi sujeito de sua própria história, lutando nas tensas redes sociais ou nos matrimônios.

A imagem das senhoras da elite paulista do século 19 difundiu-se no imaginário brasileiro — apoiada em relatos de viajantes como Saint-Hilaire ou em cartas da educadora alemã Ina Von Binzer — como reclusas, sem educação formal, só pensando em luxo e festas e tendo à sua volta escravos. Trabalhos recentes, como de Vaz, Algranti e Nazzari, têm apontado, porém, o importante papel das mulheres da oligarquia rural paulista na gerência de suas fazendas pelas longas ausências dos maridos.

Na elite, a autoridade pública e formal do homem tinha como contrapartida a participação estratégica da mulher na família. As brancas eram valorizadas como fulcro do projeto social de dominação portuguesa: imagem de grande dama, que exercia “limpeza de sangue”, socializadora dos filhos e dos escravos, assegurando a formação, harmonização e perpetuação dos valores familiares.

Elas também comandavam atividades produtivas, enquanto o homem abria novas fronteiras ou ocupava cargos públicos, e compartilhavam o status do marido no controle da casa. Dessa forma, as paulistas das elites tiveram função decisiva na continuidade dos clãs e nos bastidores do desenvolvimento do território.

Um exemplo no estado de São Paulo é a chefia feminina de unidades domésticas, com fronteiras abertas desde o século 17, por ação das bandeiras e tropeirismo; no século 18, pela mineração e produção de açúcar; e no século 19, pelo café. Tal fenômeno atingia todos os extratos sociais, nas zonas rural e urbana, mesmo que mulheres só ficassem sozinhas no campo quando os filhos estavam em idade produtiva, ou se contassem com escravos e/ou agregados.

No livro Quotidiano e poder em São Paulo no século XIX, Maria Odila Dias assinala que, entre o fim do século 18 e início do 19, com a urbanização da capital paulista, cresce o número de mulheres pobres: escravas e forras, sobrevivendo do artesanato caseiro e do pequeno comércio ambulante, tornam-se parte da economia escravista e da concentração da terra. Com o fim da escravidão, veem-se expulsas do centro para a retaguarda da cidade.

Voltando um pouco mais no tempo, no fim do século 17, já se destacava a liderança das mulheres no artesanato doméstico, enquanto os homens se ocupavam de transporte e comercialização, o que os levava a partir para o sertão ou a viajar como intermediários de firmas. Por isso, as mulheres assumiram a administração dos bens, como a roça e o gado. Ao mesmo tempo, mulheres sós, chefes de família, ocupavam posições de lavadeiras, quitandeiras, roceiras e comerciantes.

Essa realidade teve a marca de uma organização familiar matrifocal, isto é, de laços primários bastante fortes entre mães e filhas, embora houvesse certa tensão em movimentos cíclicos, já que filhas e netas se afastavam do lar para casar, formal ou informalmente e, muitas vezes, retornavam trazendo filhos ilegítimos.

As estradas de ferro transformaram o acesso a gêneros alimentícios, e o comércio ambulante foi recuando para os limites da pobreza urbana. Com a urbanização, a cidade de São Paulo viu o aumento do número de mulheres pobres gravitar às margens da classe dominante e conviver com vizinhas mestiças, pardas, mulatas, forras, o que se reproduzia nas maiores vilas e localidades do interior paulista.

No campo, a vida da mulher também não era fácil, acompanhando as atividades do marido, com filhos muito pequenos, que ainda não podiam contribuir. Elizabeth Kuznesof, na obra Nem senhores, nem escravos – os pequenos agricultores em Campinas, considera que “o trabalho da mulher era tão importante quanto o do homem e frequentemente se sobrepunha a ele. (...) Ambos, homens e mulheres, trabalhavam nos campos com divisões dos tipos de trabalho dependendo mais da idade e força que do sexo”.

Maria Odila sustenta que, por conta de fenômenos demográficos e da falta dos esposos, as mulheres tornaram-se fundadoras de capelas, curadoras, negociantes, administradoras de fazendas e se firmaram como líderes políticas locais. Essa liderança lhes exigia coesão e harmonização, estampadas no estereótipo de matriarcas hospitaleiras e generosas. Paralelamente, houve a influência de senhoras prepotentes, em decorrência do status familiar: embora não exercessem cargos na administração pública, na qualidade de proprietárias e herdeiras, elas se intrometiam na política. Exemplo claro é o da marquesa de Santos, no Primeiro Império.

Com a modernização da República, são postas em xeque as relações sociais senhoriais, baseadas em vínculos mais personalistas, de submissão e favor. Tais relações, que pressupunham laços de compadrio e de solidariedade, vão sendo consideradas inadequadas ao mundo moderno e substituídas por relações sociais burguesas. Aos poucos, desaparece aquela mulher que administrava a fazenda como uma verdadeira empresa. Os fazendeiros passam a ter casas nas cidades, sobretudo em São Paulo, onde ficavam com a família a maior parte do tempo.

Em “Mulher e família burguesa”, no livro História das Mulheres no Brasil, Maria Ângela d’Incao observa: “... a emergência da família burguesa, ao reforçar no imaginário a importância do amor familiar e do cuidado com o marido e com os filhos, redefine o papel feminino e ao mesmo tempo reserva para a mulher novas e absorventes atividades no interior do espaço doméstico. (...) Considerada base moral da sociedade, a mulher da elite, a esposa e mãe da família burguesa deveria adotar regras castas no encontro sexual com o marido, vigiar a castidade das filhas, constituir uma descendência saudável e cuidar do comportamento da prole”.

Vale ressaltar, contudo, que a marca da mulher paulista que carregava o fardo da ausência do marido, que estava nas fronteiras, e, embora na retaguarda política, assumia o comando das atividades produtivas e domésticas, ficou registrada em algumas matriarcas das elites urbanas do século 20. Figuras como D. Veridiana Valésia da Silva Prado (1825-1910), D. Maria Angélica de Souza Queiroz Aguiar de Barros (1842-1929), D. Olívia Guedes Penteado (1872-1934) e D. Yolanda Penteado (1903-1983) lideraram a urbanização paulistana e apoiaram movimentos artísticos e culturais. Suas trajetórias reverberam até hoje, gerando reflexões sobre dependência e autonomia; resignação e realização; submissão e protagonismo.

Maria Alice Setubal, a Neca Setubal, é formada em ciências sociais pela USP, com mestrado em ciências políticas pela mesma instituição e doutorado em psicologia da educação pela PUC-SP. Autora de livros e artigos, preside os conselhos do Cenpec (Centro de Estudos e Pesquisa em Educação, Cultura e Ação Comunitária) e da Fundação Tide Setubal.

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